A crescente importância dada a nível mundial à reciclagem e gestão de resíduos encontra eco em Macau. Os volumes do sector estão em expansão, enquanto cada vez mais empresas apostam em práticas sustentáveis
Texto Vitória Man Sok Wa
Apesar dos cerca de 17 mil quilómetros de distância até Belém, no Brasil, foram muitos aqueles que, na Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), estiveram atentos em Novembro ao que por lá se passava. Isto porque a cidade canarinha, localizada junto da floresta amazónica, recebeu líderes de todo o mundo para a 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30). Trocando por miúdos, discutiram-se ali as medidas necessárias para implementar os compromissos assumidos mundialmente para o combate ao aquecimento global – um dos temas-fortes foi a promoção da denominada “economia circular”, estimulando a reutilização e reciclagem de recursos não-renováveis.
Macau tem dito “presente” no que toca aos esforços para promover a “economia circular”. Para empresas locais ligadas à reciclagem e gestão de recursos, as práticas ambientais da sociedade estão a traduzir-se num crescimento nos volumes totais de papel, plástico, metal e outros materiais a processar.
A Associação para a Protecção Ambiental Industrial de Macau, fundada em 2003, tem por objectivo impulsionar o desenvolvimento do sector da reciclagem e gestão de resíduos. “A nossa missão é apoiar as políticas públicas e promover a consciencialização ambiental em todos os níveis da sociedade”, afirma o presidente, Mak Soi Kun.
O responsável refere que, entre os desafios locais ligados à gestão de resíduos, está o elevado número de turistas que visita a cidade diariamente – algo conhecido como “intensidade turística”. “Sendo uma cidade orientada para o consumo turístico, Macau acolhe todos os anos dezenas de milhões de visitantes, cuja actividade gera consideráveis quantidades de resíduos recicláveis, nomeadamente embalagens e garrafas de água”, nota.
Mais consciencialização
Mak Soi Kun observa que “tanto o Governo como diversas associações locais têm vindo a promover activamente a consciencialização ambiental, reforçando de forma contínua a rede de recolha de resíduos recicláveis e instalando novos pontos em diferentes zonas da cidade”. Nas suas palavras, estas iniciativas têm contribuído para incentivar “uma participação cada vez mais activa” nas práticas de reciclagem.

O mesmo responsável destaca, como exemplo, os resultados do Programa de Reciclagem de Equipamentos Electrónicos e Eléctricos, lançado em 2020 pelas autoridades locais. Até Agosto de 2024, já tinham sido entregues mais de 9100 toneladas de equipamentos, tendo mais de 90 por cento deles sido transformados em novos recursos, depois de serem desmontados.
Na indústria turística, também há boas notícias. “Companhias do sector, como empresas de turismo e lazer integrados e hotéis, têm-se destacado na reciclagem de caixas de cartão e garrafas, beneficiando da gestão centralizada e da escala das suas operações, o que se traduz numa elevada eficiência nos processos de recolha e triagem”, afirma.
Apesar dos avanços, Mak Soi Kun reconhece que o sector da reciclagem e gestão de resíduos de Macau ainda enfrenta desafios. “Para que os materiais recicláveis possam ser reutilizados de forma eficaz, é necessário atingir certos volumes e uma escala operacional adequada”, explica. “A limitação geográfica de Macau, aliada à escassez de terrenos apropriados”, contribui para os custos operacionais e a ausência de espaços adequados para novas instalações. Isso, refere o responsável, limita a capacidade local de reciclagem e gestão de resíduos, obrigando ao seu envio para processamento no exterior.
Perante este cenário, o dirigente refere que é necessário reforçar a cooperação regional, com destaque para a implementação de soluções conjuntas com a cidade vizinha de Zhuhai. A isso, soma o fomento de parcerias internacionais para introduzir novas tecnologias ambientais na indústria de protecção ambiental local.
Por fim, o responsável salienta que o apoio político é essencial. “Sem estímulos ou apoios por parte das políticas públicas, as empresas de reciclagem têm dificuldade em assegurar a sua sobrevivência.”
Gestão em evolução
Com o estabelecimento da Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), em 2009, a cidade inaugurou uma nova era nesta área. Até então, os temas ambientais estavam espalhados por diferentes organismos.
Um novo salto ocorreu em Dezembro de 2017, com a publicação do documento “Planeamento de Gestão de Resíduos Sólidos de Macau (2017-2026)”. Foram estabelecidas metas de redução da produção de resíduos urbanos, assim como enfatizada a promoção da reciclagem. Em 2025, o Governo anunciou que o plano iria entrar em fase de revisão, de forma a ajustar-se às novas realidades sociais e ambientais da cidade.
Nos últimos anos, a DSPA acelerou os trabalhos no campo da reciclagem e gestão de resíduos. A rede de pontos de recolha de resíduos já ultrapassa os 4000 postos, abrangendo materiais como papel, plástico, vidro, alumínio, pilhas, electrodomésticos e até cápsulas de café. Foram instaladas estações inteligentes de recolha de resíduos em zonas de elevada densidade habitacional, tornando a reciclagem mais acessível.
A taxa de recolha de resíduos recicláveis tem-se mantido acima dos 20 por cento ao longo dos últimos cinco anos. A DSPA tem apostado em projectos-piloto para recolha de resíduos alimentares, em estações móveis que circulam pelos bairros comunitários para recolha selectiva de resíduos e em parcerias com escolas, hotéis e associações civis. O novo contrato de concessão de serviços de limpeza urbana, recolha e transporte de resíduos de Macau, válido para os próximos dez anos, contempla, de resto, a expansão constante da rede de reciclagem local.

Em paralelo, está em curso a introdução de medidas de restrição ao uso de plástico e outros materiais. Estas cobrem já a proibição da importação de utensílios de mesa e bandejas descartáveis feitos de esferovite, assim como de palhinhas e agitadores de bebidas, facas, garfos, colheres, copos e pratos descartáveis de plástico não-biodegradável. A partir do início de 2026, passa a ser também proibido importar cotonetes, varas para balões e bastões insufláveis de plástico descartáveis.
A aposta na utilização de água reciclada é outra política do Governo para promover a reutilização de recursos. A primeira fase da Estação de Água Reciclada de Coloane tem conclusão prevista para o primeiro trimestre de 2026. Esta unidade terá capacidade diária de processamento de 2500 metros cúbicos e fornecerá água reciclada, como prioridade, às habitações públicas de Seac Pai Van e à Universidade de Macau, para descarga de sanitas e irrigação de espaços verdes.
Em 2024, os gastos do Governo da RAEM relativos à protecção ambiental foram cerca de 1,9 mil milhões de patacas, representando 2,0 por cento do total das despesas públicas. Tal incluiu investimentos ao nível de instalações de reciclagem e tratamento de resíduos sólidos, bem como instalações de tratamento de materiais recicláveis.
Estadias verdes
Com os valores de entrada de turistas em Macau a regressarem aos níveis pré-pandemia de COVID-19, cresceu o volume total de resíduos recicláveis produzidos em Macau. Os operadores hoteleiros, em particular, têm procurado aumentar a eficiência ambiental das suas operações, de forma a reduzir a “pegada ambiental” per capita de cada hóspede – algo bom para o ambiente e também para os relatórios de contas.
Um desses casos é o Hotel Artyzen Grand Lapa Macau. O estabelecimento é um dos 58 actualmente com um “Prémio Hotel Verde Macau” (o galardão tem validade de três anos). Trata-se de uma iniciativa da DSPA para promover a gestão ambiental junto das empresas do sector.
O director-geral do hotel, Rutger Verschuren, sublinha o compromisso da unidade para com práticas ambientais inovadoras e integradas. A sustentabilidade começa nos bastidores: o hotel tem programas de reciclagem em curso em todas as áreas operacionais, separando papel, plástico, vidro e até pilhas provenientes de pequenos equipamentos electrónicos, como fechaduras de porta e comandos televisivos.
Mais do que um dever, a sustentabilidade tornou-se uma rotina partilhada por funcionários e hóspedes, garante Rutger Verschuren. Entre outras medidas adoptadas no Hotel Artyzen Grand Lapa Macau, está a utilização de tecnologia de filtração Nordaq, que transforma, directamente no local, água da torneira em água de elevada qualidade e própria para consumo, contribuindo para diminuir o uso de garrafas de plástico. Além disso, o hotel tem vindo a substituir, nos quartos, artigos de higiene pessoal descartáveis por versões mais sustentáveis.
“Já não pensamos em fazer. Simplesmente, fazemos”, resume o director-geral. No entanto, a experiência do hóspede permanece prioritária. “Não podemos simplesmente desligar o ar condicionado para economizar energia”, nota Rutger Verschuren. A sustentabilidade, reforça, deve ser acompanhada por padrões elevados de serviço.
No Artyzen Grand Lapa Macau, segundo o responsável, os clientes – especialmente os mais jovens – estão cada vez mais atentos às práticas ambientais: elogiam o uso de garrafas reutilizáveis, de menus à base de plantas ou de dispensadores de gel de banho em substituição de embalagens de plástico descartáveis.
“Sustentabilidade não é uma tendência; é uma mentalidade”, assegura Rutger Verschuren. “E, embora sejamos um hotel com mais de 40 anos de história, o nosso coração continua jovem.”



