O Museu de Arte é palco de uma exposição onde o papel histórico de Macau enquanto plataforma entre a China e Portugal é visto a partir das trocas comerciais entre as duas nações ao longo dos séculos XVI a XIX, com enfoque na porcelana
Texto Cherry Chan
Fotografia Cheong Kam Ka
O que pode conter uma singela peça de porcelana? Para lá da sua materialidade, pode contar estórias sobre a história, reflectir universos estéticos, dar a provar culturas distantes e até mesmo servir de ponto de contacto entre reis e imperadores de nações separadas por mares e oceanos. Isso mesmo prova a exposição “Reflexos das Ligações Marítimas: O Intercâmbio Cultural Sino-Português entre os Séculos XVI e XIX”, patente no Museu de Arte de Macau até dia 8 de Março.
A ambição da mostra reflecte-se no espólio patente. Trata-se de um total de 177 peças provenientes não apenas de unidades sob a tutela do Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau – incluindo o Museu de Arte e o Museu de Macau –, mas também do Museu do Palácio, em Pequim, bem como de três prestigiadas instituições culturais portuguesas, nomeadamente o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu do Oriente e a Biblioteca da Ajuda. Revisitando o papel singular de Macau como centro de comércio internacional durante a fase final da dinastia Ming (1368-1644) e a dinastia Qing (1644-1911), a exposição ilustra o diálogo político, económico e cultural sino-português ao longo desse período.
Durante os séculos XV e XVI, navegadores portugueses, motivados pelo interesse em expandir os contactos comerciais com o Oriente, começaram a traçar, de forma pioneira, rotas marítimas ligando a Europa à Ásia. Eventualmente, tal promoveu o desenvolvimento do comércio marítimo entre a China e Portugal, destacando-se nessas trocas a porcelana chinesa, muito valorizada pela nobreza europeia.
Com a abertura do seu porto aos mercadores do exterior, Macau tornou-se rapidamente um centro de relações comerciais, impulsionando a divulgação global da porcelana chinesa. As peças acabaram por começar a integrar elementos europeus, numa fusão de estilos e técnicas do Oriente e do Ocidente.
Lou Tai Seng, curador da mostra, inaugurada em Novembro passado, explica que o projecto nasceu como forma de assinalar o 20.º aniversário da parceria estratégica global entre a China e Portugal, estabelecida em Dezembro de 2005. “Esperamos que, através desta exposição, os visitantes possam conhecer as primeiras formas como Portugal e a China estabeleceram relações”, explica, e como os dois locais “se influenciaram mutuamente ao longo do tempo”.
De acordo com o curador, a mostra apresenta diferentes momentos e aspectos dessas conexões: desde uma fase inicial, de relações comerciais baseadas em vínculos pessoais, passando depois por laços estabelecidos entre as cortes chinesa e portuguesa, até a intercâmbios culturais de âmbito mais alargado.
O desafio da logística
A ambição projectada para a exposição levou o Museu de Arte a estabelecer contactos com diferentes instituições, de forma a assegurar o empréstimo de peças que garantissem a riqueza da mostra e a dotassem de uma perspectiva histórica e cultural abrangente. Especialistas e académicos, entre outros profissionais ligados às várias instituições parceiras, colaboraram para assegurar que o significado histórico de cada peça fosse transmitido com precisão.

“O Museu do Palácio possui muitos itens da corte [chinesa], os quais evidenciam o intercâmbio imperial entre a China e Portugal”, exemplifica Lou Tai Seng. “No caso de Macau, existem aqui fragmentos arqueológicos que testemunham a presença de portugueses para fazer comércio.”
Os preparativos para a exposição prolongaram-se por quase um ano e beneficiaram da parceria de longa data entre o Museu de Arte e o Museu do Palácio. “Trabalhamos em conjunto há 25 anos, promovendo uma exposição a cada ano”, nota Lou Tai Seng. “Actuamos de modo bastante harmonioso em aspectos como a comunicação, o transporte das peças e questões relacionadas.”
No caso das instituições portuguesas que se associaram à exposição, a logística foi uma das questões essenciais, revela o curador. “Como não temos voos directos entre Macau e Portugal, o transporte das peças cedidas teve de ser feito através de Hong Kong. Houve um atraso num voo, que, embora de apenas algumas horas, obrigou toda a equipa a ficar no aeroporto por mais um dia”, acrescenta.
Porcelana para todos
A exposição divide-se em três partes. A secção “Aurora da Rota da Porcelana” cobre o comércio entre o Interior da China, Macau e Portugal ao longo dos séculos XVI a XIX. Já a secção “Intercâmbio Cultural em Porcelana” reflecte a forma como os encontros entre o Ocidente e o Oriente influenciaram a produção de porcelana em cada um dos lados.
Em “Diálogos entre Cortes”, o foco recai sobre os laços entre a corte Qing e a família real portuguesa: no século XVII, a corte chinesa estabeleceu relações diplomáticas directas com a coroa lusa. Tal resultou numa variedade de refinados presentes entre ambos os lados, incluindo artefactos fundindo as ciências e culturas da China e do Ocidente.

Lou Tai Seng salienta aspectos da exposição que considera essenciais, ligados respectivamente a Macau, ao Interior da China e a Portugal. No caso de Macau, destaca os fragmentos de cerâmica desenterrados na Rua dos Mercadores, relativos à dinastia Ming e de uma riqueza histórica e cultural significativa.
Durante a dinastia Ming, o acesso por terceiros à porcelana produzida para uso imperial era rigorosamente proibido. Peças que apresentavam defeitos após a cozedura eram destruídas, impedindo que a porcelana destinada à corte chegasse ao público em geral. Contudo, registos históricos mostram que essas regras se tornaram menos rígidas nas fases mais tardias da dinastia. “Descobertas de porcelana imperial Ming em escavações realizadas em Macau confirmam essas mudanças históricas”, enfatiza Lou Tai Seng.
No que se refere ao Interior da China, os visitantes encontram peças intactas e de elevado valor, provenientes de fornos imperiais que outrora serviam a corte. Isto permite uma apreciação da aparência original dos artefactos.
Já sobre Portugal, o curador destaca a relação com a porcelana de estilo “kraak”. A partir do século XVII, este tipo de porcelana, produzida na China para exportação, tornou-se imensamente popular em toda a Europa. A paleta cromática e o estilo “kraak” de porcelana chinesa azul e branca foram imitados com diligência pelos ceramistas portugueses, inspirando a produção local de cerâmica azul vidrada a estanho e motivos decorativos de azulejos.
“Nesta exposição, apresentamos porcelana ‘kraak’ e pratos em faiança portuguesa para demonstrar a semelhança entre os dois tipos de artesanato, mostrando o intercâmbio cultural da época”, indica Lou Tai Seng.
De resto, entre os séculos XVII e XIX, a produção de porcelana chinesa para satisfazer encomendas provenientes da Europa atingiu o seu apogeu, com os artesãos chineses a incorporarem as suas interpretações do Ocidente nos designs da porcelana para exportação. A porcelana Guangcai, desenvolvida no século XVIII, exemplifica esta fusão: criada com base nas necessidades dos mercadores estrangeiros, combinava técnicas de pintura de Cantão com a porcelana branca de Jingdezhen, localidade na província de Jiangxi, conhecida na China como a “capital da porcelana”.
Uma peça muito especial patente na mostra, que pode ser descrita como fruto de uma combinação do Oriente e do Ocidente, é um bule octogonal esmaltado com ilustrações de paisagens, flores e pássaros, parte da colecção do Museu do Palácio. “Há apenas dois no mundo”, explica o curador.

Conforme Lou Tai Seng, combinando metalurgia, esmalte e arte vidreira, este bule imita estilos ocidentais, mas ostenta paisagens chinesas tradicionais e detalhes florais e aves, provavelmente elaborados por um mestre da corte Qing.
“Este bule foi fabricado durante o período Qianlong (1736-1795) da dinastia Qing. O imperador Qianlong envolveu-se na criação das ilustrações do bule, participando nas revisões relativas ao que deveria ser desenhado e ao design, o que é algo muito singular”, conta o curador.
Entre muitas outras peças de destaque, inclui-se um “kendi” – vaso de beber em porcelana chinesa – com decoração pintada a azul sob um vidrado em forma de fénix, proveniente do Museu Nacional de Arte Antiga. Trata-se de uma peça da dinastia Ming, datada da segunda metade do século XVI.
Mostrar para educar
A exposição “Reflexos das Ligações Marítimas” destina-se ao público em geral, independentemente do seu nível de conhecimento histórico ou de arte e cultura. “Também temos em consideração aqueles que possuem mais interesse nesta área, pelo que organizámos alguns seminários, convidando especialistas de Portugal e do Museu do Palácio”, revela o curador. No início de Fevereiro, haverá mais uma palestra, em mandarim, subordinada ao tema “Factores Culturais de Influência Estrangeira na Porcelana Chinesa Antiga”, a cargo de um investigador do Museu do Palácio. Segue-se mais um seminário em Março. Também para Fevereiro, está previsto um workshop para famílias.
Lou Tai Seng mostra-se satisfeito com o interesse gerado pela exposição. “Há visitantes de gerações mais jovens, bem como alguns que têm mais conhecimento sobre o tema”, diz, acrescentando que a iniciativa tem atraído um número considerável de visitantes portugueses.
De acordo com o curador, a exposição transcende uma mera retrospectiva do intercâmbio cultural sino-português, procurando inspirar os públicos contemporâneos a reflectirem sobre a globalização e a influência mútua. “Esperamos que a população de Macau reconheça a posição central da cidade, que ao longo da história desempenhou um papel essencial no intercâmbio cultural entre o Oriente e o Ocidente”, enfatiza Lou Tai Seng, sublinhando que tal ajuda a melhor compreender o posicionamento actual de plataforma entre a China e os países de língua portuguesa atribuído a Macau.

