Director dos Serviços de Turismo, vice-presidente do então Leal Senado de Macau, coordenador da Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau, dirigente associativo. Nas mais de quatro décadas que leva no Oriente, João Manuel Costa Antunes vestiu um sem-fim de peles e exerceu variadas funções e, em todas elas, fez da eficácia predicado e mandamento. A cidade mudou, cresceu e transformou-se e, mais do que testemunha, o engenheiro civil foi protagonista. A Macau que mais lhe fala ao coração é a Macau que ajudou a melhorar
Texto Marco Carvalho
Macau irrompeu no quotidiano de João Manuel Costa Antunes com a inesperada inquietude de um tufão, um incalculado safanão na precisa e metódica direcção que desde cedo procurou incutir ao seu percurso de vida. Não fora, de resto, a primeira vez que a incerta mecânica do destino lhe trocara as voltas.
Nascido e criado em Lisboa, filho, neto e bisneto de profissionais com alicerces firmados nos ofícios da construção, começou a trabalhar antes ainda de concluída a licenciatura em Engenharia Civil, em 1974, no Instituto Superior Técnico.
Deslocado para fora da capital, para a coordenação de um dos recém-instituídos Gabinetes de Apoio Técnico, foi nas Caldas da Rainha que o apelo para rumar ao outro lado do mundo o encontrou. O ano era o de 1983 e o convite válido para duas sucintas Primaveras, mas o trânsito das estações multiplicou-se primeiro por dez, depois por vinte e a cidade facilmente se tornou casa.
Mais do que pela contagem dos anos, o antigo director dos Serviços de Turismo baliza, porém, a passagem do tempo por pequenos e grandes projectos, propostas que tanto transformaram Macau, como o mudaram a ele mesmo.

Então com 32 anos, o jovem engenheiro civil chega a Macau para exercer a função de assessor do secretário-adjunto para o Ordenamento, Equipamento Físico e Infra-Estruturas, mas, menos de um ano depois, uma proposta irrecusável do governador Almeida e Costa coloca-lhe nos braços um novo projecto e um novo desafio. Nomeado vice-presidente do Leal Senado, assume os Pelouros Técnicos da autarquia e a missão de incutir um sopro de modernidade a uma cidade esmorecida.
“Foi-me confiada a componente técnica do Leal Senado, que naquela altura era bastante alargada. Tinha competência sobre as vias, as águas, os esgotos. Abrangia os jardins, os mercados, a limpeza urbana. Foi durante esse período que foi implementado o primeiro sistema de limpeza da cidade”, recorda Costa Antunes. “Foi por causa desse sistema pioneiro de recolha do lixo que conheci a cidade. Entre as minhas incumbências estava também a verificação e a inspecção dos serviços. Fui a inúmeros locais que não conhecia e não imaginava sequer que pudessem existir em Macau. Comecei a perceber que Macau era um local extraordinariamente especial, cheio de recantos característicos”, acrescenta.
No mais excepcional de todos eles, pulsava, frenético, o coração da metrópole. Pelo Largo do Senado transitavam, à época, carros, autocarros, bicicletas e gente, ao ponto de um outro cenário se afigurar quase impossível. É por lá, porém, que começa a inevitável transformação da cidade. “Foi durante a nossa estadia no Leal Senado que se iniciou o encerramento do largo ao trânsito. Acolhida inicialmente com desconfiança, a proposta foi aceite, com uma única condição: não proibir totalmente a circulação”, revela Costa Antunes.
“O encerramento ficou marcado para uma sexta-feira à noite. Usámos potes com flores e bancos de jardim para cortar o Largo do Senado pela metade. No sábado de manhã, estava um dia de sol e o espaço estava cheio de gente: uns sentados, outros a brincar com as crianças. Percebemos, desde logo, que a aposta estava ganha”, argumenta.
Macau é, no início da década de 1980, uma região presa entre o esplendor do passado e uma imprescindível necessidade de modernização. Vergados ao peso de décadas de desmazelo e ao beijo corrosivo das monções, os edifícios, um pouco por toda a cidade, preservam alguns rasgos da imponência de outrora, mas alguns não iludem o pungente abandono a que foram condenados: os telhados abaulados ameaçam ruína; nas paredes, despontam flores de lodo do tamanho de janelas; nos beirais, árvores e arbustos. Das torneiras, jorra água barrenta, amarelada.
É esta a cidade que acolhe Costa Antunes e que o jovem engenheiro civil é incumbido de ajudar a regenerar. Na qualidade de vice-presidente do Leal Senado, reorganiza serviços e lança projectos de infra-estruturas. O esforço traduz-se, desde logo, pela criação de um sistema moderno e abrangente de recolha do lixo, mas também por uma outra forma de encarar a gestão, a jusante, dos resíduos urbanos. A preocupação está na origem de uma das maiores áreas verdes da península de Macau.
“Quando cheguei ao Leal Senado, o lixo era depositado num aterro sanitário que ia crescendo para o lado da China, ocupando o Canal dos Patos. Fomos sensibilizados para o problema, visitámos a zona e compreendemos que nem podíamos insistir na mesma solução, nem podíamos continuar a invadir a linha de fronteira com a China. Decidimos encerrar de imediato aquela zona”, reconhece Costa Antunes.
Em 1983, ao fim de três décadas e meia de funcionamento, o aterro sanitário do Canal dos Patos deixou de receber detritos. No seu lugar nasceu, três anos depois, o Parque Municipal Dr. Sun Yat Sen, o maior jardim multifuncional da zona norte da cidade. “O Parque Sun Yat Sen é um espaço no qual tenho muito orgulho. Foi pensado, projectado e começado enquanto estive no Leal Senado. Orgulho porquê? Porque transformámos um aterro de lixo num parque belíssimo, que recebe muita gente. É um espaço que visitei muitas vezes com o meu filho mais novo, quando ele era pequeno”, realça.

Método, organização e objectividade. Em todas as funções que exerceu e em todos os lugares que ocupou, João Manuel Costa Antunes fez do rigor um mantra. Fiel à metodologia que adquiriu nos anos em que trabalhou como engenheiro civil, abordou com pragmatismo e assertividade os desafios que Macau lhe lançou. “Sou engenheiro e é assim que me entendo. Procurei sempre abordar todos os trabalhos numa perspectiva metódica, organizada, constituindo equipas com gente o mais competente possível, delegando e ouvindo”, assevera.
Foi essa a filosofia que Costa Antunes procurou aplicar durante os 24 anos em que liderou a Direcção dos Serviços de Turismo e, antes disso, também nos então Serviços de Marinha de Macau, onde exerceu brevemente as funções de assessor técnico. Apesar de fugaz, a ligação ao organismo que antecedeu a agora Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água revelou-se frutífera e marcante pelo impacto que teve numa outra zona nobre da cidade, o Largo da Barra.
“Ajudei a redigir a proposta para a criação do Museu Marítimo. Então responsável pela Capitania dos Portos, o Comandante Martins Soares queria criar um espaço museológico, mas as comissões de serviço têm duração limitada e uma obra dessa natureza nunca estaria pronta antes de o comandante deixar Macau. Sugeri, com o apoio dele, uma solução intermédia, que abriu caminho para a criação do actual Museu”, conta Costa Antunes.
“Do lado esquerdo do Templo de A-Má, existem umas casas verdes, do início do século XX. Estas moradias estavam na altura ocupadas por sargentos da Marinha, mas estavam bastante degradadas, a precisar de obras. Havia muitas queixas, nós colocámos a questão aos Serviços de Finanças e comprometemo-nos a recuperar os imóveis se as famílias que lá moravam fossem realojadas noutro local. Foi o que aconteceu”, refere.
“Os edifícios foram recuperados e reestruturados para acolher o que se denominou de Centro de Estudos Marítimos de Macau. O Comandante Martins Soares deixou a cidade com património recuperado, um novo centro de estudos e o projecto de um Museu em andamento, e eu ganhei uma estima muito especial por aquela zona”, confidencia Costa Antunes.
O Museu Marítimo não foi nem o primeiro, nem o último espaço permanente de exposições que o engenheiro civil, mais habituado à robusta textura do betão do que ao acrílico nas telas, ajudou a criar. Em 1985, as instalações até então ocupadas pela Polícia Municipal no edifício do Leal Senado dão lugar a uma galeria de exposições e mais tarde surgem duas outras valências museológicas criadas por iniciativa da Direcção dos Serviços de Turismo: o Museu do Grande Prémio, em 1993, e o Museu do Vinho, dois anos depois. Ao organismo, então liderado por Costa Antunes, pertenceu também a iniciativa de recuperar e reabilitar aquela que é, hoje, uma das áreas mais atractivas da ilha da Taipa, a Avenida da Praia.
“Outro local ao qual eu me sinto ligado é às Casas-Museu da Taipa. No início dos anos 90, as moradias da Avenida da Praia estavam ocupadas pelos oficiais superiores das ilhas, mas, tal como sucedia na Barra, as cinco casas estavam em condições muito precárias. Abordámos os Serviços de Finanças e sugerimos que quem viesse substituir as famílias que lá viviam passasse a residir em imóveis com condições mais condignas. Ficou estipulado que os Serviços de Turismo ficassem responsáveis pela gestão deste processo”, diz Costa Antunes.
“As moradias foram-se esvaziando progressivamente ao longo de quatro anos e, em meados da década, o Turismo lançou um concurso público para desenvolver, com fundos próprios, aquela área. Recebemos três propostas e é a arquitecta Maria José de Freitas quem ganha o projecto, por ter sido quem melhor interpretou aquilo que pretendíamos”, acrescenta o antigo director dos Serviços de Turismo.
Os planos originais previam a instalação de um restaurante numa das moradias reabilitadas e abertura de um piano-bar ao fundo da Avenida, mas razões externas obrigaram os Serviços de Turismo a abrir mão do projecto: “O Leal Senado, primeiro, e o Instituto para os Assuntos Municipais assumiram a responsabilidade de desenvolver aquela zona. Fizeram uma maior aposta na parte floral e criaram um ambiente fantástico. Toda aquela zona é lindíssima e fico muito satisfeito por ver que, mais de duas décadas depois, o restaurante está a funcionar e aquela zona fervilha com vida”, considera Costa Antunes.



