Moçambique

A China à distância de um prato

O restaurante MingYuan abriu portas há mais de 30 anos
Em Maputo, o perfume do gengibre e do alho salteado mistura-se com o calor húmido da cidade, atraindo curiosos e habituais para um destino onde cada prato é uma viagem. O MingYuan, um dos mais antigos restaurantes chineses na capital moçambicana, guarda nas suas mesas histórias de encontros e descobertas. Mais do que um espaço para comer, o estabelecimento é um ponto de partida: um lugar onde o paladar serve de intérprete entre dois mundos e onde cada refeição se transforma num diálogo cultural

Texto Jaime Álvaro

O crescimento da comunidade chinesa em Moçambique, especialmente na capital, Maputo, trouxe consigo novas cores, aromas e sabores. Entre as muitas expressões dessa presença, os restaurantes chineses surgiram como pontes culturais, convidando moçambicanos e estrangeiros a descobrirem um mundo de tradição e sabor. Ainda que muitos tenham fechado ao longo dos anos, alguns resistem e, entre eles, o MingYuan é considerado um ícone.

Não há números oficiais sobre quantos restaurantes chineses existem actualmente na capital moçambicana. Uns contam cinco, outros sete. Mas, mesmo que fossem dez, não dariam conta da vastidão, diversidade e riqueza da gastronomia chinesa.

Se, no início, os restaurantes chineses em Maputo nasciam sobretudo para matar as saudades dos conterrâneos, actualmente o exotismo dos aromas e o encanto dos sabores conquistam também os locais. Além de acompanhar o aumento da comunidade chinesa na capital moçambicana, o fenómeno revela um apetite cada vez mais aberto às experiências que unem duas culturas à mesa.

Localizado na Avenida Mao Tsé-Tung, rua que homenageia um dos fundadores da República Popular da China, o MingYuan é o reflexo de toda uma cultura milenar.

“É um dos primeiros restaurantes em Maputo. Surgiu na década de 1990 e acompanhou o crescimento da cidade”, contou o proprietário, Deng Tianning, em português fluente. Vivendo há mais de 30 anos em Moçambique – mais de metade da sua vida –, Deng Tianning é a alma por trás da casa que se tornou uma referência em Maputo.

Sob a liderança de um autêntico chef chinês, o MingYuan oferece uma experiência genuína. O cardápio é uma verdadeira viagem gastronómica pela China: um mosaico de sabores, cores e aromas que convidam o paladar à descoberta.

“Aqui [no restaurante] preparamos os pratos mais populares da culinária chinesa, como o pato à Pequim, o porco agridoce e os dumplings”, explica o proprietário.

Os dumplings, segundo Deng Tianning, “são bastante consumidos durante as celebrações do Ano Novo Chinês”. Feitos com massa fina recheada de carne ou vegetais, podem ser fervidos, cozidos a vapor ou fritos — e já conquistaram os clientes moçambicanos. “O macarrão e o arroz, frito ou refogado, são outros pratos favoritos dos nossos clientes”, acrescenta.

Para Deng Tianning, o MingYuan “é uma janela que aproxima as pessoas da experiência de ir até à China sem sair de Maputo”.

Entre o talento e criatividade

No comando da cozinha está o chef Zang Wu, que, com a sua perícia, lidera há uma década uma equipa que inclui cozinheiros moçambicanos. “Tentamos sempre inovar em termos dos pratos que servimos aos nossos clientes, sejam nossos compatriotas ou moçambicanos, mas sem deixar de manter a essência da nossa rica culinária”, afirma.

Zang Wu, natural da província de Guangdong – considerada um dos principais centros gastronómicos da China –, combina ingredientes nobres e técnicas refinadas para criar pratos que encantam todos os sentidos. No seu cardápio, brilham clássicos como a carne de porco à moda de Sichuan, o chao min e o frango Kung Pao, às vezes reinventados com ingredientes moçambicanos, como a castanha de caju.

O menu, servido ao estilo familiar, apresenta uma variedade de pratos das diversas regiões da China, do suave ao agridoce, com toques aromáticos e cores vibrantes. Há opções para todos os gostos: carnes grelhadas, pratos vegetarianos, marisco e massas, naquela que é uma verdadeira celebração da confeitaria oriental.

Sob o olhar atento e criativo do chef Zang Wu, o cardápio também ganha vida com uma selecção irresistível de sobremesas que cruzam fronteiras e contam histórias. São pequenas obras-primas: das suaves bolinhas de arroz glutinoso recheadas com pasta de feijão aos delicados dim sum doces, cada prato é pensado como uma viagem sensorial que desperta curiosidade e conquista paladares.

“Todos os produtos utilizados no restaurante são frescos e preparados diariamente de modo a garantir a qualidade e o sabor dos pratos”, sublinha o mestre dos tachos.

Deng Tianning à mesa com clientes do restaurante

Mas o espaço também se sabe adaptar aos gostos locais e à mudança do tempo, conta o chef. “Inicialmente, servíamos apenas porco agridoce, mas para dar resposta à procura que aqui existe, o prato foi adaptado. Actualmente, podemos substituir a carne de porco por outros ingredientes, como vitela ou frango”, explica.

Ponto de encontro

Na partilha de um prato, nasce mais do que uma refeição, brota um entendimento mútuo. A cozinha torna-se uma linguagem sem fronteiras, capaz de traduzir o respeito, a curiosidade e a amizade entre povos, como atestam alguns dos clientes habituais do MingYuan.

Para estes comensais, é à mesa que se constroem pontes invisíveis, onde cada sabor carrega um pouco da história de quem o prepara e de quem o prova. Nesse sentido, cada refeição servida no MingYuan é também um gesto de diplomacia cultural: uma celebração da convivência e da empatia entre Moçambique e a China.

“Estar neste restaurante é quase como estar na China. A decoração do lugar lembra-me muito o país asiático. Desde que tomei coragem de provar a comida chinesa, tornei-me fã”, conta Marcela Alfredo, importadora de produtos chineses para Moçambique.

Outro cliente fiel, Américo António, frequenta o local há mais de um ano e não tem dúvidas: “Se as pessoas procuram uma experiência gastronómica chinesa, o MingYuan é um lugar perfeito.”
“A China fica perto pela comida que aqui é servida […] é como ter a experiência completa, viajando sem sair do lugar”, refere Sarita Macamo, outra cliente habitual e residente em Maputo.

No MingYuan, a experiência vai além do sabor, começando nos próprios gestos: os fai chi (pauzinhos) substituem os talheres e cada refeição transforma-se num ritual de respeito e imersão cultural.

“Aprender a comer com os pauzinhos é a parte mais interessante da experiência. Comer estas comidas típicas com um garfo ou uma colher é totalmente diferente”, explica Alberto Ndove, um dos clientes que diz ter aprendido a apreciar as tradições chinesas à refeição.

Entre o mandarim e o português, o que realmente se entende é o sabor. À mesa, as palavras tornam-se desnecessárias, pois os pratos falam por si, traduzindo emoções e celebrando a diversidade.