Sustentabilidade

Água reciclada, um recurso verde para o quotidiano

Água reciclada já começou a ser usada em Macau
Desde o dia 1 de Março de 2026 que, pela primeira vez, a água reciclada passou a integrar a rede pública de abastecimento de Macau, marcando um avanço no aproveitamento dos recursos hídricos. Por agora, o sistema serve o complexo de habitação pública de Seac Pai Van e o campus da Universidade de Macau, estando prevista a sua expansão gradual a outras zonas da cidade

Texto Emanuel Graça

A cor roxa tem um objectivo: permitir uma identificação clara. Dentro daquelas tubagens corre água, sim, mas não água potável, cujos tubos são usualmente de cor branca, cinza prateada ou latão.

O uso do roxo é o padrão internacional para canalização ligada a sistemas de água reciclada e agora já faz parte do quotidiano da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Com a chegada de Março, as tubagens – roxas, lá está – de água reciclada do complexo de habitação pública de Seac Pai Van e do campus da Universidade de Macau passaram a ser abastecidas com este tipo de recurso hídrico, para fins de descargas de autoclismo e rega de espaços verdes.

A água reciclada refere-se a águas residuais domésticas tratadas profundamente de forma a poderem ser reaproveitadas exclusivamente para utilização em fins não potáveis. O respectivo abastecimento é feito em condutas independentes das que transportam a água potável.

Os projectos ligados à água reciclada pretendem contribuir para a reutilização dos recursos hídricos e a redução do consumo de água bruta. Visam igualmente o reforço da estabilidade do sistema de abastecimento de água de Macau e o aumento da capacidade de salvaguardar a sua segurança.

A água reciclada deve ser incolor e inodora. Em Macau, a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau, S.A. – também conhecida por Macao Water – realiza testes diários a esta água e divulga publicamente os respectivos resultados, sendo garantidas a segurança pública e a higiene, sublinha a Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA), a entidade governamental encarregue de supervisionar o projecto de adopção de água reciclada na cidade.

Expansão já nos planos

A primeira fase da Estação de Água Reciclada de Coloane entrou em funcionamento na RAEM no dia 1 de Março de 2026. Tendo em conta que a matéria-prima para a produção de água reciclada é o produto das estações de tratamento de águas residuais (ETAR) da cidade, a primeira fase da Estação de Água Reciclada de Coloane foi construída junto da ETAR naquela parte da RAEM.

Por agora, a capacidade de abastecimento da primeira fase da estação de água reciclada é de 2500 metros cúbicos por dia. Os trabalhos de elaboração dos planos para a segunda fase da Estação de Água Reciclada de Coloane serão iniciados em 2026. Com a conclusão da segunda fase, a capacidade passará para 15 mil metros cúbicos por dia, estando previsto que o sistema de abastecimento de água reciclada passe a abranger também os lotes junto da Avenida Wai Long, na Taipa, e o Cotai. A data concreta do início do abastecimento será determinada conforme o andamento das obras de beneficiação da ETAR de Coloane.

Para o futuro, está prevista a construção de uma outra estação de água reciclada, desta feita na Ilha Artificial da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, cujo planeamento também será iniciado em 2026. A sua capacidade será de 25 mil metros cúbicos por dia, assegurando o abastecimento de água reciclada às Zonas A, B, C, D e E dos Novos Aterros Urbanos e à habitação para alojamento temporário do lote P da Areia Preta. A data concreta do início do fornecimento será determinada em função do andamento da construção da ETAR da Ilha Artificial da Ponte.

No caso da Zona A dos Novos Aterros Urbanos, a rede de abastecimento de água reciclada está já a ser assentada em simultâneo com os respectivos arruamentos.

Os planos visam um desenvolvimento gradual do sistema, mas com a meta de, até 2030, o consumo de água reciclada representar 5 por cento do consumo total de água de Macau, ultrapassando os 10 por cento até 2035.

Em sintonia com o País

A adopção da utilização da água reciclada em Macau surge como uma das iniciativas incluídas nas “Linhas de Acção Governativa para o Ano de 2026”, com diversos projectos associados integrados no plano de trabalhos do Governo da RAEM. Tal segue a política nacional a este respeito, que tem como prioridades a conservação de água, a segurança do abastecimento e o reforço da utilização de fontes de água não convencionais.

No Interior da China, diversas províncias e municípios têm vindo a desenvolver e implementar com sucesso projectos de aproveitamento de fontes de água não convencionais, como é o caso das cidades de Pequim ou Shenzhen. Hong Kong é outro exemplo de adopção deste tipo de iniciativas.

No plano de segurança da água na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, datado de Dezembro de 2020, definem-se como metas aumentar a exploração de água de fontes não convencionais e incorporar estas fontes na alocação unificada de recursos de água. É também referida a necessidade de acelerar a renovação e construção de instalações de esgotos urbanos e reciclagem de água, dando prioridade ao uso de água reciclada em zonas verdes urbanas. O objectivo é que, até 2035, o uso de água de fontes não convencionais possa representar mais de 10 por cento do abastecimento total de água na Grande Baía.

Estação de água reciclada de Coloane

Os planos de desenvolvimento de um sistema de água reciclada em Macau começaram, de resto, a ser preparados há mais de uma década. A iniciativa está também mencionada no “Segundo Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socioeconómico da Região Administrativa Especial de Macau (2021-2025)”. No documento, é mencionada a promoção da recolha, reciclagem e reuso de resíduos, incluindo de águas residuais.

Para concretizar a utilização da água reciclada, o Governo da RAEM promulgou, em Agosto do ano passado, o “Regulamento técnico de abastecimento e de drenagem de águas”, que inclui as “Disposições técnicas sobre sistema de distribuição pública de água reciclada”, as “Disposições técnicas sobre sistema predial de distribuição de água reciclada” e as “Regras referentes aos critérios e fiscalização de qualidade de água reciclada”. Estes instrumentos normativos estabelecem os requisitos técnicos aplicáveis à concepção, instalação, identificação, teste e qualidade da água dos sistemas de abastecimento de água reciclada.

Olhando para o futuro, o objectivo passa por criar maior valor no que toca à água reciclada, promovendo o desenvolvimento sustentável da RAEM. A meta governamental a longo prazo é construir uma cidade de Macau mais orientada para a poupança de água. 

Habitação pública de Seac Pai Van

  • Edifício Koi Nga
  • Edifício Lok Kuan
  • Edifício Ip Heng
  • Escola Oficial de Seac Pai Van
  • Centro de Actividades Pedagógicas de Línguas
  • Centro de Actividades do Ensino Técnico-Profissional
  • Complexo Comunitário de Seac Pai Van
  • Edifício de Serviços Sociais e de Saúde de Seac Pai Van

Campus da Universidade de Macau

  • Universidade de Macau
  • Posto Operacional do Corpo de Bombeiros da Ilha de Hengqin
  • Posto do Corpo de Polícia de Segurança Pública do Novo Campus da Universidade de Macau