Diz o povo português que há mil e uma maneiras de fazer bacalhau. Serão, pelo menos, mais uma ou duas, à conta da imaginação de Cristiano Tavares, o chef que colocou o emblemático peixe no minchi macaense e que o quer agora a navegar na mesa das sobremesas
Texto Margarida Vidinha
Fotografia Oswald Vas
É um segredo mal escondido que a antiga Vila da Taipa é o sítio da cidade com maior variedade gastronómica por metro quadrado. A contribuir para essa diversidade há quase três anos, está um estabelecimento que dá ao bacalhau o papel de protagonista: o Macalhau é um projecto do chef português Cristiano Tavares, radicado em Macau desde 2012.
Nascido e criado em Vila do Conde, no norte de Portugal, Cristiano Tavares é um empreendedor de mão-cheia: surge agora associado a uma gelataria – à portuguesa, claro –, além de ter assumido recentemente a posição de chef executivo no hotel Rocks, na Doca dos Pescadores, a propósito de uma segunda unidade do Macalhau.
“Tudo começou em 2007, quando decidi estudar cozinha”, conta. “Como no interior [de Portugal] é onde se come bem, encontrei a Escola de Hotelaria e Turismo do Fundão.”
Ainda estudante, arregaça as mangas, coloca o avental e realiza estágios curriculares em vários hotéis conceituados. Nesse percurso, destaca duas experiências: no Sheraton Porto Hotel & Spa e no Mercure Porto Centro Santa Catarina.
Findo o percurso académico, volta à terra natal para começar a vida profissional a sério. Porém, pouco depois, em Dezembro de 2012, já está a rumar a Macau para trabalhar no restaurante António, também na antiga Vila da Taipa. “Apareceu a oportunidade, para a qual enviei o currículo, fui à entrevista e fui seleccionado”, recorda.
Após alguns anos a trabalhar com o icónico chef António Neves Coelho, falecido em 2025, surgiram novos desafios, que o levaram a largar a gastronomia portuguesa e a lançar-se para novos saberes e sabores. Liderou a cozinha de um restaurante que se dedicava exclusivamente à confecção de lagostas – “um conceito novo” em Macau na altura, diz – e pisou as cozinhas de complexos hoteleiros como o Grand Hyatt Macau e o MGM Macau. Virou-se depois para a cozinha alemã e liderou duas cervejarias associadas à marca germânica Paulaner: uma em Macau e a outra no lado de lá da fronteira, em Hengqin.
Com um currículo já cheio, faltava-lhe a concretização de um sonho. “Sempre foi um objectivo abrir um espaço próprio. É muito difícil sairmos do conforto de um bom emprego num hotel ou numa grande empresa, mas era algo que tencionava fazer o mais cedo possível e não adiar para quando fosse mais velho”, conta. Foi do sonho que nasceu o Macalhau.
Filho de peixe sabe cozinhar
Cristiano Tavares vem de uma família de pescadores, da zona de Caxinas, em Vila do Conde, terra de onde partiam tradicionalmente muitos homens para a apanha do bacalhau, nos mares frios do norte da Europa. Esse foi o caso do seu avô, antes de amealhar poupanças suficientes para comprar o próprio barco de pesca.
“O meu avô ia para a pesca, ainda era eu muito novo. Tenho muitas memórias com ele à mesa, a comer um género de uma ‘desfeita’ que ele fazia, onde passava o bacalhau só na brasa”, partilha. “Depois, desfiávamos o bacalhau, cortávamos umas rodelas de cebola e regávamos tudo com muito azeite.” Dessas memórias, ganhou corpo o conceito do Macalhau. “É um tributo ao meu avô”, afirma o chef.
O nome do estabelecimento surgiu em forma de ode às gentes da terra que o adoptou. Bacalhau é oralmente conhecido em cantonense como “maa gaai yau”; além disso, o nome “Macalhau” é também “um jogo de palavras entre Macau e bacalhau”, refere Cristiano Tavares.

No menu, os clientes podem encontrar bacalhau com todos: o peixe é o ingrediente estrela, seja nos pratos principais ou nos petiscos, das pataniscas aos bolinhos ou folhados. Não faltam os “clássicos”, seja o bacalhau com natas, o bacalhau à lagareiro ou o bacalhau à Brás.
Para apreciadores de novidades e de gastronomia de fusão, sobressai no cardápio o minchi de bacalhau. “É um prato de autor e um tributo a esta terra. Já é um dos mais famosos” do restaurante, assegura Cristiano Tavares. Se, na versão mais consensual desta iguaria tradicional da culinária macaense, os principais componentes são um refogado de carne picada – vaca, porco ou mistura – com batatas cortadas em cubos pequenos e fritos, servido com um ovo estrelado por cima e arroz branco, no Macalhau, a proteína, claro está, é bacalhau.
“Os macaenses acham piada, depois provam e vêem que é um prato que está bem pensado e bem confeccionado”, afirma o chef.
O bacalhau não é actor único. Para os amantes de carne e de pratos do norte de Portugal, há duas opções no Macalhau que não passam despercebidas: a francesinha à moda do Porto e a francesinha poveira. Esta última é uma variação da francesinha original que é feita com pão de cacete e que não apresenta ovo no topo.
Cristiano Tavares garante que é um adepto de novas ideias na sua cozinha, desde que o resultado final “saiba bem e que os chefs respeitem o produto”. Em lume brando na panela da inovação, está uma sobremesa de bacalhau, que pretende lançar em breve.
Dos gelados à península
Junto ao Macalhau nasceu, recentemente, a gelataria “Gelados de Portugal”, também um projecto de Cristiano Tavares. “É uma casa dedicada a estes famosos gelados artesanais de Aveiro”, diz.
Na vitrine da gelataria, a oferta vai da castanha com vinho do Porto ao pastel de nata, da banana da Madeira ao chocolate com suspiros e à bolacha Maria. Tudo para fazer crescer água na boca.
Cristiano Tavares explica que, “pelo nome e pelo tipo de produto”, sentiu que “era muito interessante” trazer a marca “Gelados de Portugal” para Macau. “Os gelados são feitos em fábrica, por causa da elevada procura, com respeito pelos métodos artesanais”, e depois importados para este lado do mundo.
O chef acredita que o facto de a gelataria na Taipa estar bem localizada, numa zona com muito tráfego pedonal, não só vai atrair turistas como muitos portugueses residentes em Macau que já ouviram falar da “Gelados de Portugal” original. Não é de estranhar que, por isso, já haja planos para expandir o conceito para novas localizações.
Em expansão está definitivamente o Macalhau, rumo à península de Macau, tomando conta do restaurante Vic’s, no hotel Rocks, na Doca dos Pescadores.
“É um espaço emblemático em Macau. Tem uma vista fantástica para o terminal marítimo e para a Ponte da Amizade”, diz Cristiano Tavares.
Com tantos projectos em mãos, o chef explica que o segredo passa por uma gestão apurada. Na base de tudo, sublinha, está a equipa que o acompanha. “Tenho tido a sorte de me rodear de bom pessoal ao qual delego responsabilidades: só em equipa é que conseguimos crescer.”


