O novo Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola quer provar que “um mais um” pode resultar em três. Aproveitando o sistema jurídico de Macau e a pujança industrial de Guangdong, o centro pretende acelerar a internacionalização das empresas chinesas para os países de língua portuguesa e espanhola e vice-versa. No seu arsenal, conta com um fundo de mil milhões de renminbi
Texto Viviana Chan
Fotografia Ng Yuk Lin
No coração de Hengqin, onde modernas torres de vidro e aço servem de traves-mestras para um novo paradigma de cooperação entre Macau e o Interior da China, ergue-se o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola (CECPS), cuja operação arrancou na segunda metade do ano passado. No interior deste complexo de quase 250 mil metros quadrados, distribuídos por nove torres, procura-se contribuir para a materialização da estratégia “Macau + Hengqin”.
O centro nasceu com o propósito de aprofundar as relações comerciais entre a China e os países de língua portuguesa e espanhola, oferecendo uma plataforma de serviços integrados “one-stop”. Devido à sua localização na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, o CECPS beneficia de um conjunto de políticas especiais, únicas no Interior da China, visando aproveitar as vantagens disponibilizadas pela província de Guangdong e pela Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).
O CECPS destina-se a empresas chinesas que pretendam expandir-se para os países de língua portuguesa e espanhola, bem como a companhias desses países que procurem entrar na China. Em ambos os casos, o objectivo é assegurar às empresas apoiadas uma maior eficiência no seu processo de expansão, reduzindo o risco e menorizando os custos.
A estrutura de funcionamento do CECPS distingue-se pelo modelo de “orientação governamental e operação de mercado”. Ng In Cheong, directora adjunta dos Serviços de Assuntos Jurídicos da Zona de Cooperação e uma das responsáveis pelo centro, explica que esta filosofia é vital para a estratégia seguida pelo CECPS.
“Sob o contexto governamental, podemos utilizar os nossos recursos para contactar governos no Interior da China e no estrangeiro, bem como associações comerciais e consulados”, afirma a responsável. Esta chancela oficial pode acelerar processos complexos, como a facilitação de vistos de negócios ou a articulação com embaixadas, exemplifica.

“O nosso centro oferece um serviço ‘pés no chão’; se uma empresa tem um pedido concreto, nós fornecemos assistência personalizada“
NG IN CHEONG
DIRECTORA ADJUNTA DOS SERVIÇOS DE ASSUNTOS JURÍDICOS DA ZONA DE COOPERAÇÃO APROFUNDADA ENTRE GUANGDONG E MACAU EM HENGQIN
Ng In Cheong esclarece que o CECPS funciona em complementaridade com o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum de Macau), com sede na RAEM. Enquanto o Fórum de Macau, assente no seu Secretariado Permanente, é uma organização de cariz governamental baseada em relações diplomáticas de alto nível entre as nações participantes, o CECPS foca-se no apoio directo e individualizado ao sector privado, diz.
“O Fórum de Macau não trata de consultas específicas para empresas individuais. O nosso centro oferece um serviço ‘pés no chão’; se uma empresa tem um pedido concreto, nós fornecemos assistência personalizada”, sublinha a responsável.
Efeito multiplicador
A vantagem estratégica do CECPS, segundo os seus responsáveis, reside no aproveitamento e maximização das diferentes políticas e realidades providenciadas pela RAEM e Hengqin. Enquanto Macau faculta a sua herança cultural e linguística, bem como um sistema jurídico similar ao dos países de língua portuguesa, Hengqin proporciona acesso ao mercado de Guangdong e a uma infra-estrutura industrial robusta.
“A união de Macau e Hengqin não é apenas ‘1+1=2’; pode ser ‘1+1=3’ – ou mais”, afirma Ng In Cheong. O aproveitamento destas sinergias permite que as empresas utilizem a RAEM como porto franco, ao mesmo tempo que usufruem dos incentivos fiscais disponibilizados por Hengqin, que incluem uma taxa reduzida de 15 por cento para o imposto sobre o rendimento de pessoas colectivas e singulares, aplicável a sectores considerados prioritários. Essa taxa está abaixo do valor padrão de 25 por cento aplicável no resto do Interior da China.

O CECPS proporciona um suporte físico excepcional às empresas apoiadas. O complexo dispõe de escritórios de classe 5A (o padrão mais elevado no Interior da China), além de centros de convenções, apartamentos de qualidade internacional e até infra-estruturas de lazer como ginásios e piscinas exteriores.
As empresas que se estabeleçam no centro podem beneficiar de subsídios de arrendamento significativos, facultados pela Zona de Cooperação: de acordo com uma política que entrou em vigor em Janeiro deste ano e com duração até ao final de 2028, os apoios podem ascender até 80 renminbi por metro quadrado de espaço de escritório.
Além das infra-estruturas, o CECPS actua como uma plataforma de serviços especializados. Através de uma rede que integra mais de 50 instituições profissionais, o centro providencia consultoria jurídica, contabilística, fiscal e ao nível dos recursos humanos, além de serviços de tradução e interpretação. Este “pacote” de apoio visa reduzir drasticamente os custos e riscos de entrada para as empresas da China que pretendam apostar nos mercados dos países de língua portuguesa e espanhola, bem como para companhias dessas nações que desejem expandir-se para solo chinês. “Criámos um ecossistema onde a empresa pode ter residência e operações e prosperar num único local”, sublinha Ng In Cheong.
Entre os parceiros, está a PortugalFoods – Associação para a Internacionalização e Inovação Agroalimentar, plataforma empresarial ligada ao sector agroalimentar português. O grupo e o CECPS assinaram um protocolo de colaboração em Outubro do ano passado, quando elementos da PortugalFoods se deslocaram às instalações do centro.
O CECPS tem sido alvo de visita por diversas delegações empresariais de países de língua portuguesa: por exemplo, no último trimestre de 2025, 30 representantes de 24 empresas tecnológicas, instituições de ensino superior, incubadoras e associações empresariais do Brasil e de Portugal estiveram no local, no âmbito de uma visita de estudo organizada pela Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico da RAEM.
Pontes de capital e talento
Um dos pilares estratégicos do trabalho do CECPS é a construção de uma base de dados de recursos humanos qualificados, a qual já conta com os contactos de mais de 600 profissionais bilingues em chinês e português ou espanhol. Este ano, o centro pretende continuar a focar-se na capacitação prática de quadros, através de parcerias com universidades de Macau e do Interior da China.
“Queremos dar aos estudantes formação em operações reais”, revela a directora adjunta Ng In Cheong, acrescentando que o centro está em fase de negociações para viabilizar oportunidades de estágio em empresas nacionais de renome como as tecnológicas Beijing ByteDance Technology Co. Ltd., responsável pela rede social de partilha de vídeos curtos TikTok, e Meituan, uma das principais plataformas electrónicas de comércio e serviços de consumo no Interior da China. O objectivo é permitir que estudantes universitários participem directamente nas operações destas empresas, potenciando as suas futuras carreiras.
Actualmente, o centro já conta com cinco portadores de Bilhete de Identidade de Residente de Macau na sua equipa, com a entrada de um sexto elemento prevista para breve. Além disso, acolhe dois estagiários de universidades de Macau.

Para lá do capital humano, o CECPS dispõe de um potente motor de financiamento empresarial: o Fundo de Desenvolvimento Económico e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola, com uma dotação inicial de mil milhões de renminbi. Este fundo destina-se a apoiar projectos em sectores estratégicos como a saúde e a produção industrial avançada.
Um exemplo do trabalho levado a cabo pelo centro prende-se com o apoio disponibilizado à TowardPi (Beijing) Medical Technology Ltd., uma empresa de dispositivos médicos oftalmológicos de ponta, nascida numa incubadora de negócios ligada à Universidade de Tsinghua, na capital chinesa. Com a ajuda do CECPS, a TowardPi Medical conseguiu progredir na implementação de uma base em Portugal, gerindo com eficácia todo o processo desde a escolha do local até ao recrutamento de recursos humanos, além do cumprimento das regras de conformidade com as normas europeias.
Para este ano, o centro tem prevista a organização de missões empresariais ao Brasil, Espanha e México, com especial enfoque nas áreas tecnológicas.
Simplificação de formalidades
No ecossistema proposto pelo CECPS, a sua eficácia operacional depende de parceiros que compreendam as nuances dos mercados dos países de língua portuguesa e espanhola. Um desses parceiros é o IEST Group, fundado em São Paulo em 2012 e que, desde então, já apoiou mais de 400 companhias, em especial empresas chinesas, na estruturação, expansão e consolidação das suas operações no Brasil.
Tian Bin, director executivo do IEST Group e contabilista certificado no Brasil, destaca que a força da empresa de serviços de consultoria de negócios reside na sua escala e na especialização dos seus quadros. “Temos uma equipa no Brasil com cerca de 40 profissionais bilingues que falam português e chinês, além de mais de 200 colaboradores locais. Actualmente, em todo o Brasil, somos provavelmente a única empresa com esta escala e capaz de oferecer este nível de serviço”, afirma.
Entre os clientes do grupo estão empresas de topo no Interior da China, como as tecnológicas Alibaba, ByteDance, Kuaishou e JD.com, além de conglomerados estatais como a CRRC, China Railway, China Unicom e China Mobile. A parceria entre o CECPS e o IEST Group visa também permitir ao centro aceder a esta rede de elevado valor.

“Muitas vezes, a dificuldade de comunicação e as diferenças culturais tornam a ‘aterragem’ das empresas chinesas no Brasil muito penosa. Nós funcionamos como facilitadores desse processo“
TIAN BIN
DIRECTOR EXECUTIVO DA CONSULTORA IEST GROUP
Para Tian Bin, a parceria do IEST Group com o centro traz benefícios à consultora brasileira. “Como somos uma empresa nascida no Brasil, as empresas na China viam-nos por vezes com alguma preocupação ou desconfiança devido à distância física e ao desconhecimento do mercado brasileiro. A parceria com o CECPS dá-nos mais credibilidade; quando as empresas vêem que somos parceiros do centro, sentem que somos confiáveis.”
A complexidade do mercado brasileiro exige um elevado nível de especialização técnica, considera Tian Bin. “O sistema tributário do Brasil é talvez o mais complexo do mundo”, exemplifica. “Muitas vezes, a dificuldade de comunicação e as diferenças culturais tornam a ‘aterragem’ das empresas chinesas muito penosa. Nós funcionamos como facilitadores desse processo, garantindo que a execução seja eficiente.”
A colaboração com o CECPS já resultou num caso de sucesso: uma empresa que hesitava em entrar no mercado do Brasil devido à complexidade de procedimentos associada ao país conseguiu, após consultoria conjunta proporcionada pelo centro e pelo IEST Group, assegurar a abertura da sua filial em solo brasileiro em apenas dois meses.
“Se o fizéssemos sozinhos, o nosso trabalho seria limitado. Mas com os recursos e o apoio governamental do centro, podemos fazer muito mais. O cliente sente-se seguro para nos confiar projectos de grande escala”, conclui Tian Bin.
Conectar start-ups à Grande Baía
O CECPS pretende também funcionar como um acelerador para start-ups tecnológicas de países de língua portuguesa e espanhola que procurem entrada no mercado da Grande Baía. A SleepUp Tecnologia em Saúde Ltda. é um exemplo: a start-up brasileira escolheu o binómio Macau-Hengqin como porta de entrada para a China.

“O CECPS chamou-me a atenção porque me pareceu bastante completo. A receptividade e a velocidade de execução foram excelentes“
RENATA REDONDO BONALDI
DIRECTORA EXECUTIVA DA START-UP BRASILEIRA SLEEPUP
Especializada no diagnóstico e tratamento de distúrbios do sono através de uma plataforma digital e dispositivos vestíveis – também conhecidos como “wearables” –, a empresa já operava na Europa antes de abordar o mercado chinês. Renata Redondo Bonaldi, directora executiva da SleepUp, encontrou no CECPS o “lugar perfeito” para a expansão do negócio, com base na disponibilidade de infra-estruturas integradas e facilidade de comunicação, sem barreiras linguísticas.
“O CECPS chamou-me a atenção porque me pareceu bastante completo. A receptividade e a velocidade de execução foram excelentes, porque consegui em dois dias abrir a empresa”, revela Renata Redondo Bonaldi. Esta eficiência permitiu que regressasse ao Brasil já com a documentação necessária para gerir a operação remotamente durante a fase inicial.
Para a SleepUp, o CECPS funciona como uma plataforma centralizadora de serviços – desde a consultoria jurídica e tributária até ao apoio na obtenção de vistos. Além das facilidades administrativas, a executiva destaca o valor estratégico de a SleepUp estar inserida num hub que projecta a empresa para novos horizontes. “A região tem ganhado bastante visibilidade fora da China, em países como o Brasil, Portugal e o Reino Unido”, afirma.
A trajectória de entrada no Interior da China da start-up brasileira pode servir de modelo para outras empresas de países de língua portuguesa e espanhola que vêem o mercado chinês como distante ou de difícil acesso. “Tenho esse compromisso de explicar e incentivar outras empresas a fazerem este movimento de internacionalização”, diz Renata Redondo Bonaldi, cujos planos incluem uma equipa alargada em Hengqin e aproveitar os incentivos facultados pela Zona de Cooperação.


