Através do “Ano Cultural China-Brasil”, a decorrer ao longo de 2026 e marcado por intercâmbios académicos, festivais de cinema, iniciativas literárias e programas institucionais, os dois países procuram aprofundar o relacionamento bilateral. Especialistas ouvidos pela Revista Macau destacam o papel da iniciativa na consolidação da confiança mútua e na construção de uma parceria mais sustentável entre a China e o Brasil
Texto Viviana Chan
Já arrancou oficialmente o “Ano Cultural e Turístico China-Brasil 2026”, iniciativa promovida por ambos os países ao mais alto nível. Através de um programa diverso, as autoridades das duas nações esperam que a cooperação bilateral nos domínios da cultura, do turismo e do intercâmbio entre povos ganhe novo dinamismo.
A ideia de designar 2026 como “Ano Cultural e Turístico China-Brasil” – também conhecido por “Ano da Cultura e Turismo China-Brasil” ou “Ano Cultural China-Brasil” – surgiu na sequência do 50.º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre a República Popular da China e o Brasil, assinalado em 2024, num contexto em que a parceria bilateral evoluiu para uma “comunidade de futuro compartilhado Brasil-China por um mundo mais justo e um planeta mais sustentável”. A iniciativa prevê a realização de um vasto leque de actividades promovidas por cada um dos países.
Especialistas e observadores ouvidos pela Revista Macau sublinham a importância crescente da diplomacia cultural no aprofundamento das relações entre as duas nações. Isto para acompanhar as áreas do comércio e do investimento: a China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009 e uma das maiores fontes de investimento estrangeiro directo no país.
Para lá da cooperação tradicional
Segundo Pedro Steenhagen, analista atento às relações sino-brasileiras, o aprofundamento dos contactos entre os dois países tem contribuído para mudanças positivas na percepção mútua ao nível das respectivas sociedades. “A diplomacia cultural ocupa um lugar de crescente relevância no ecossistema mais amplo do relacionamento entre Brasil e China”, diz o director de desenvolvimento e coordenador do grupo de trabalho sobre as relações China-Brasil e a lusofonia no “think tank” brasileiro Observa China.

“A diplomacia cultural ocupa um lugar de crescente relevância no ecossistema mais amplo do relacionamento entre Brasil e China“
PEDRO STEENHAGEN
COORDENADOR DO GRUPO DE TRABALHO SOBRE AS RELAÇÕES CHINA-BRASIL NO “THINK TANK” BRASILEIRO OBSERVA CHINA
Pedro Steenhagen considera que, apesar dos múltiplos acordos nas áreas do comércio, da tecnologia e das infra-estruturas assinados durante as visitas oficiais do Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, à China, em 2023 e 2025, e do Presidente chinês, Xi Jinping, ao Brasil, em 2024, a interacção entre as duas sociedades continua a ser relativamente insuficiente. Nesse sentido, defende que “a diplomacia cultural é uma excelente ferramenta para actuar precisamente onde a cooperação considerada mais tradicional e estruturada – ou seja, aquela que envolve áreas como o comércio, os investimentos, as infra-estruturas, a ciência e a tecnologia – encontra os seus limites”.
Para o analista, o “Ano Cultural China-Brasil” deve ser entendido menos como uma iniciativa isolada e mais como um marco de maturação da relação bilateral. “Ele não necessariamente sinaliza a entrada da cooperação bilateral numa nova fase”, afirma; antes “contribui substancialmente e dá continuidade para a solidificação da fase em que os dois países já se encontram”.
Apesar da distância geográfica, Pedro Steenhagen reconhece sinais de aproximação simbólica ao longo dos últimos anos entre as duas sociedades. “A sensação é que a distância imaginada entre o Brasil e a China começou a diminuir.”
Na sua opinião, o programa do “Ano Cultural China-Brasil” reflecte “a diversificação de áreas e, no bom sentido, o aumento da complexidade” da parceria, tornando-a “mais multissectorial e socialmente enraizada”. Trata-se, segundo afirma, de uma oportunidade para os dois países ampliarem o conhecimento mútuo por meio de eventos culturais variados e do incentivo ao fluxo de visitantes.
Do ponto de vista institucional, o analista salienta os planos para que o “Ano Cultural China-Brasil” inclua a promoção de intercâmbios académicos e artísticos, a valorização dos patrimónios culturais e naturais, o fortalecimento da cooperação cinematográfica e o estabelecimento de rotas turísticas integradas. Contudo, sublinha, “o desafio é tirar tudo do papel”.
Para Pedro Steenhagen, o sucesso do “Ano Cultural China-Brasil” não deve ser medido apenas pelos resultados tangíveis obtidos em 2026, mas também pela capacidade da iniciativa de “estabelecer as bases para trocas mais profundas nos anos seguintes”. Como áreas com maior potencial de cooperação estruturada, destaca a educação, as indústrias criativas, a tradução e circulação de obras literárias e o turismo cultural e sustentável, além do desporto, em especial o futebol.
Aqui, refere Pedro Steenhagen, pode entrar Macau, com papel estratégico enquanto elo entre o Brasil e a China no âmbito da lusofonia e para lá dela. “Eu torço fervorosamente, e espero contribuir activamente, para que os olhos brasileiros, dos governos aos indivíduos, se abram mais para todas as potencialidades de Macau”, diz.
Construir para o futuro
“O principal legado esperado é a consolidação de redes permanentes de cooperação cultural e institucional.” É assim que Thomas Law, fundador e presidente do Instituto Sociocultural Brasil–China (Ibrachina), sintetiza o impacto que antevê do “Ano Cultural China–Brasil”.
Com sede na cidade brasileira de São Paulo, o Ibrachina apresenta como missão promover o intercâmbio sociocultural entre os dois países. Nos últimos anos, a instituição tem organizado uma série de iniciativas voltadas para o reforço do diálogo bilateral, através do ensino da língua chinesa, da promoção artística e de actividades culturais.

Na perspectiva de Thomas Law, o “Ano Cultural China-Brasil” representa “um passo qualitativo na relação bilateral, ao colocar a cultura no centro do diálogo entre os dois países”. Mais do que uma agenda comemorativa, afirma, trata-se de um reconhecimento de que a aproximação cultural é fundamental para consolidar uma parceria estratégica de longo prazo. “Esta iniciativa permite aprofundar o conhecimento recíproco entre as sociedades chinesa e brasileira”, contribuindo para relações “mais sólidas, equilibradas e sustentáveis, para além do campo estritamente económico”, diz.

“O principal legado esperado do ‘Ano Cultural China–Brasil’ é a consolidação de redes permanentes“
THOMAS LAW
FUNDADOR E PRESIDENTE DO INSTITUTO SOCIOCULTURAL BRASIL–CHINA (IBRACHINA)
No âmbito do “Ano Cultural China-Brasil”, o Ibrachina está a desenvolver, em conjunto com a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa da Prefeitura de São Paulo e a São Paulo Turismo – a empresa oficial de turismo e eventos da cidade –, um plano plurianual de actividades. O acordo estabelece uma agenda orientada para o intercâmbio cultural, artístico e institucional entre os dois países. Segundo Thomas Law, a proposta “vai além de eventos pontuais e busca estruturar uma programação integrada”, incluindo exposições, espectáculos, concertos, actividades educativas, acções em museus e ocupação de espaços públicos.
A título de exemplo, o responsável menciona um recente espectáculo de música tradicional chinesa realizado na Praça das Artes, em São Paulo, nas vésperas das celebrações do Ano Novo Chinês. A iniciativa levou ao espaço instrumentos tradicionais chineses como a pipa e o guzheng, numa apresentação executada por docentes do Conservatório de Música da China.
Thomas Law destaca que São Paulo “reúne características únicas” para promover o diálogo intercultural. A inclusão do Ano Novo Chinês no calendário oficial de eventos da cidade reforça, segundo afirma, o papel da metrópole como ponte entre as culturas chinesa e brasileira.
Olhando para lá de 2026, o também empresário reitera que, “se bem estruturado, o ‘Ano Cultural China-Brasil’ poderá marcar o início de uma nova etapa” nas relações culturais sino-brasileiras. Isso pode originar um círculo virtuoso: “Iniciativas culturais bem estruturadas ajudam a construir um ambiente mais favorável à cooperação económica”, ao promoverem a compreensão mútua e a confiança, refere.
Calendário intenso
No quadro do “Ano Cultural China-Brasil”, a China tem vindo a promover diversas iniciativas a nível doméstico destinadas à divulgação da cultura brasileira, com especial destaque para o cinema, a literatura e as actividades culturais urbanas. Entre o final de Janeiro e o início de Fevereiro, Pequim acolheu a mostra de cinema “Amazónia: Uma Floresta na Tela”, que apresentou sete filmes abordando temas relacionados com a ecologia, a sociedade e a diversidade cultural da floresta amazónica brasileira.
Paralelamente, foi organizada na capital chinesa a série “Diálogo da Literatura Contemporânea China-Brasil”, que reuniu escritores dos dois países. No sector empresarial, marcas como a cadeia chinesa de cafés Luckin Coffee lançaram campanhas promocionais temáticas inspiradas na cultura do Brasil.
Em sentido inverso, o Museu Nacional da República, na capital brasileira, Brasília, recebeu, em Fevereiro, um evento organizado pelo China Media Group para celebrar o Ano Novo Chinês. A iniciativa, que contou com a presença do embaixador chinês no Brasil e de representantes oficiais brasileiros, incluiu a tradicional dança do dragão, apresentações de wushu, um workshop de roupas tradicionais e uma oficina de caligrafia chinesa.
Para a investigadora Sofia Hou Xiaoying, da Faculdade de Estudos Europeus e do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Estudos Internacionais de Xi’an, estes eventos ajudam a uma mudança estrutural na cooperação bilateral. “O actual ‘Ano Cultural’ reflecte inovação e aprofundamento tanto nos métodos como nos objectivos de cooperação”, evidenciando a transição de um modelo baseado em projectos isolados para uma abordagem mais sistemática e integrada, defende a académica. Sofia Hou destaca, no caso do turismo – outra das vertentes a promover no âmbito do “Ano Cultural China-Brasil” –, a criação de rotas turísticas integradas e o desenvolvimento de novos segmentos, como o turismo desportivo, inserindo gradualmente a cooperação bilateral em quadros mais amplos.

“O actual ‘Ano Cultural’ reflecte inovação e aprofundamento tanto nos métodos como nos objectivos de cooperação“
SOFIA HOU XIAOYING
INVESTIGADORA DO CENTRO DE ESTUDOS LATINO-AMERICANOS DA UNIVERSIDADE DE ESTUDOS INTERNACIONAIS DE XI’AN
Quanto às modalidades de implementação, destaca projectos, como a iniciativa “Ligar Culturas: Brasil-China”, que recorrem a plataformas digitais para aproximar o público chinês da realidade brasileira.
Reduzir assimetrias
“A China e o Brasil já têm uma relação muito densa no comércio, investimentos e coordenação em fóruns diversos; o ponto frágil costuma ser a assimetria de conhecimento mútuo”, afirma Alexandre Coelho, docente de Relações Internacionais ligado à Fundação Armando Alvares Penteado, no Brasil. Na sua perspectiva, isso favorece a formação de estereótipos.

Segundo o académico, a parceria China-Brasil possui conteúdo estratégico em campos tradicionais, mas necessita de um “tecido social” capaz de sustentar a relação. Nesse contexto, cultura, educação, turismo e media funcionam como pilares de legitimidade e estabilidade, nota.
“Quando a relação é percebida apenas como ‘minério, soja e tecnologia’, ela fica politicamente vulnerável” e pode enfrentar resistência ao nível da opinião pública, do parlamento ou dos governos subnacionais, observa Alexandre Coelho. Para o académico, os intercâmbios culturais ampliam a compreensão entre os vários actores sociais.
“A cultura é um canal de ‘public diplomacy’ [diplomacia pública]: não substitui poder material, mas reduz custo reputacional”, explica, acrescentando que a diplomacia cultural ajuda a mitigar percepções externas desfavoráveis.

“A cultura é um canal de ‘public diplomacy’ [diplomacia pública]: não substitui poder material, mas reduz custo reputacional“
ALEXANDRE COELHO
DOCENTE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS LIGADO À FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO
No plano institucional, Alexandre Coelho salienta que, ao contrário da diplomacia presidencial ou ministerial, mais concentrada nos governos centrais, a cooperação cultural beneficia de maior capilaridade. “A agenda cultural ‘desce’ para o nível estadual, das cidades, universidades, museus, festivais, escolas”, afirma, permitindo a formação de redes interinstitucionais mais duradouras e menos dependentes da volatilidade política.
Na sua opinião, o “Ano Cultural China-Brasil” pode, assim, representar uma fase de aprofundamento societal da parceria. No entanto, adverte que o impacto da iniciativa dependerá das raízes que deixar. “Um ‘Ano’ só se torna numa ‘nova fase’ se produzir instituições permanentes”, frisa.


