Entre o som ritmado da bola e o entusiasmo dos jovens atletas, o ténis de mesa assume-se como uma paixão que atravessa gerações em Macau. O desporto, profundamente enraizado nas escolas locais, tem vindo a ganhar dimensão graças ao investimento em formação, torneios internacionais e à chegada de estrelas como Zhu Yuling
Texto Vítor Rebelo
Popularmente conhecido como “pingue-pongue”, pelo som característico da pequena bola branca a saltar de um lado ao outro da mesa, o ténis de mesa é hoje um dos desportos mais praticados em todo o mundo. A sua popularidade deve-se, em grande parte, à simplicidade: basta uma mesa, duas raquetes, uma bola e vontade de jogar. Pode praticar-se em quase qualquer lugar – em pavilhões, garagens, recreios escolares ou mesmo ao ar livre – e talvez por isso a modalidade continue a conquistar geração após geração.
Em Macau, poucas serão as escolas que não contam com, pelo menos, uma mesa de ténis de mesa. É usualmente nos intervalos das aulas, entre risos e reflexos rápidos, que muitos jovens descobrem a paixão pela modalidade e, em alguns casos, o talento que mais tarde os levará às competições federadas.
Ao contrário de muitos outros desportos, que lutam por espaço nas escolas e por novos praticantes, o ténis de mesa já faz parte do quotidiano escolar, estando enraizado como uma actividade de lazer acessível e, ao mesmo tempo, uma excelente forma de exercício físico. E é essa presença natural nas escolas que acaba por funcionar como uma ponte para o alto rendimento, com os futuros campeões a começarem muitas vezes a sua viagem num simples jogo entre colegas que desperta o gosto pela competição e abre caminho à descoberta de novos valores.
É também com base nesta realidade que a Associação Geral de Ping-Pong de Macau consolidou uma política de formação voltada para os mais jovens. A criação da Escola de Ténis de Mesa Juvenil, apoiada pelo Instituto do Desporto (ID) do Governo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), deu novo impulso à modalidade.
Lançado em 2003, o programa de “escolas de formação” na área do desporto – que conta com a participação de associações locais – pretende identificar talentos e oferecer condições de treino adequadas para transformar promessas em atletas de elite. O ténis de mesa integrou o plano em 2007, juntando-se a outras modalidades, como o futebol, o ténis, o wushu e o karaté. Desde então, o crescimento tem sido sustentado.
Formar para competir
O programa de “escolas de formação” tem como principal objectivo descobrir e desenvolver jovens talentos. A iniciativa, que nasceu para reforçar a base do desporto local, aposta numa estratégia progressiva: primeiro, a selecção dos jovens com maior potencial; depois, a sua integração em programas de treino mais estruturados.
Segundo os planos delineados, após a fase inicial de captação, os participantes iniciam um período de treino regular e sistemático, que pode variar entre uma e três sessões por semana, consoante a modalidade.
No caso do ténis de mesa, a selecção dos atletas promissores é conduzida por um grupo de treinadores experientes nomeados pela Associação Geral de Ping-Pong de Macau. O Departamento de Treino integra jogadores seniores e equipas de diferentes escalões etários – sub-19, sub-15 e sub-12 –, além de atletas mais novos oriundos das escolas de ténis de mesa e dos programas de férias.
Actualmente, o universo de praticantes ronda os 600 a 700 membros registados, de acordo com dados fornecidos pela mesma associação. A aposta na formação de base e na continuidade do treino técnico visa garantir uma nova geração de atletas capazes de representar Macau em competições regionais e internacionais.
O staff técnico das equipas de treinamento engloba actualmente quatro treinadores, enquanto a escola de ténis de mesa tem oito monitores no seu quadro de pessoal.

A formação de jovens atletas em Macau continua a ser um dos pilares para o fortalecimento do ténis de mesa. O processo de orientação dos praticantes mais novos baseia-se não apenas na resistência física e psicológica, mas também na sensibilidade e capacidade técnica de cada candidato.
Antes de chegarem às mesas de treino, os futuros atletas passam por um rigoroso processo de selecção. Os candidatos são agrupados e submetidos a testes de avaliação que aferem velocidade, reacção e flexibilidade. A partir desses resultados, os treinadores identificam os jovens com maior potencial e seleccionam os mais qualificados para programas de treino metódicos, intensivos e regulares.
A aposta na formação visa garantir, a longo prazo, o desenvolvimento sustentado da modalidade. Segundo disse à Revista Macau o treinador principal das equipas de ténis de mesa, Wong Chong Fan, “com a cooperação e apoio do ID, o número de alunos tem aumentado gradualmente e no momento actual integra mais de 200 praticantes, recrutados nas provas de selecção que a Escola de Ténis de Mesa Juvenil leva a efeito todos os anos”.
Wong Chong Fan acrescenta que a faixa etária para a selecção é entre os sete e os 14 anos, sublinhando que anualmente se inscrevem “várias centenas de candidatos”. Estes são depois seleccionados pelos técnicos ao serviço da associação, sendo que os treinos para cada escalão são realizados às terças, quintas, sábados e domingos, em recintos como o Centro Desportivo Lin Fong ou nas instalações do Centro Desportivo Olímpico do Estádio da Taipa.
Palco privilegiado
A RAEM tem tido o privilégio de acolher, nos últimos anos, algumas das mais prestigiadas competições internacionais de ténis de mesa, o que tem despertado um notório aumento de interesse pela modalidade entre os jovens locais.
Provas de grande destaque, como as Taças Mundiais, masculina e feminina, e os torneios da série World Table Tennis (WTT) – ambos supervisionados pela Federação Internacional de Ténis de Mesa (ITTF, na sigla em inglês) –, assim como a mais recente edição dos Jogos Nacionais em Novembro de 2025, trouxeram a Macau alguns dos melhores mesatenistas a nível internacional.
“O ténis de mesa de Macau tem registado um desenvolvimento significativo nos últimos anos”, afirma Wong Chong Fan, sublinhando que, “desde 2020, Macau tem acolhido consistentemente a série WTT, evoluindo do inicial WTT Macau para o WTT Champions Macau, estabelecendo-se como uma paragem fundamental no circuito internacional”.
O WTT Champions é uma série de torneios de elite que engloba os 32 melhores jogadores do mundo – nas categorias masculinas e femininas – em eventos individuais separados.
Desde o primeiro torneio WTT organizado na RAEM, em 2020, a ITTF tem vindo a organizar também o “Dia do Ténis de Mesa” em simultâneo com as finais da competição, aproveitando a presença das estrelas mundiais da modalidade para reforçar o impacto do evento.
O objectivo da ITTF passa por aproximar o público local deste desporto, dando a conhecer as suas virtudes e incentivando a prática da modalidade, mostrando as oportunidades que o ténis de mesa pode oferecer a todas as gerações.
Instalações que garantem qualidade
O ténis de mesa em Macau vive um dos períodos mais vibrantes da sua história. Segundo o técnico das selecções de Macau e antigo jogador, nas últimas duas décadas o Governo da RAEM “melhorou substancialmente as instalações desportivas, ao mesmo tempo que, ao recrutar treinadores do Interior da China e enviar atletas locais para treinar no Interior da China, elevou significativamente os padrões competitivos”.

“O ténis de mesa de Macau tem registado um desenvolvimento significativo nos últimos anos“
WONG CHONG FAN
TREINADOR PRINCIPAL DAS EQUIPAS DE TÉNIS DE MESA
Para Wong Chong Fan, “está a surgir uma nova geração de jogadores locais, enquanto o recrutamento de atletas de classe mundial, como Zhu Yuling, contribuiu fortemente para o avanço histórico que Macau registou na 15.ª edição dos Jogos Nacionais”.
O treinador reconhece que as provas internacionais organizadas na cidade têm “contribuído substancialmente para o desenvolvimento do ténis de mesa na região”, sublinhando que esses eventos anuais “atraem os melhores jogadores do mundo para competir na RAEM, permitindo aos residentes assistir de perto a jogos de nível mundial e aumentando consideravelmente a visibilidade de Macau na comunidade internacional do ténis de mesa”.
Ao mesmo tempo, “os torneios proporcionam aos jogadores locais oportunidades inestimáveis de competir contra adversários de elite”. O técnico recorda, a título de exemplo, a presença de Ho Chun Fai e Koon Cheuk Lam na edição de 2025 do WTT Champions Macau. Destaca ainda que os atletas locais conseguiram entradas wildcard para a Taça Mundial de 2025 e para o WTT Champions, “o que motiva directamente os jovens atletas e eleva o nível da competição local”.
O técnico, contudo, sublinha que o progresso só é possível com uma rotina competitiva sólida. “Eles têm a possibilidade de participar anualmente em várias provas e intercâmbios internacionais”, explicou, referindo-se, entre outras, ao Campeonato de Ásia Oriental de Ténis de Mesa – Taça de Esperança.
“Estamos empenhados em facilitar os intercâmbios entre os jovens de Macau e os atletas estrangeiros, promovendo assim o ténis de mesa entre as gerações mais jovens”, realça o responsável.
Segundo Wong Chong Fan, Macau acolhe mais de dez torneios locais de ténis de mesa por ano, incluindo singulares seniores masculinos e femininos, provas por equipas acima dos 19 anos, singulares juniores e juvenis, campeonatos sub-19, competições infantis, a Taça de Comemoração de Ho Yin e a Taça da Associação de Ténis de Mesa, bem como outros eventos por faixas etárias. “Os atletas de Macau têm oportunidades de intercâmbio internacional durante todo o ano”, acrescenta.
Campeões e motivação extra
A nível interno, o impacto de figuras de renome mundial também tem sido decisivo. Wong Chong Fan destaca que “a chegada da atleta chinesa Zhu Yuling a Macau exerceu uma influência significativa e positiva na comunidade local de ténis de mesa”.
A atleta subiu para a quinta posição no ranking mundial da ITTF após a vitória no WTT Champions Doha, em Janeiro do corrente ano.
Zhu Yuling, que durante vários anos representou a China, passou a defender as cores de Macau em 2023. Natural da cidade de Mianyang, na província de Sichuan, a atleta de 31 anos mudou-se para Macau ao abrigo do Regime jurídico de captação de quadros qualificados da RAEM, em vigor desde Julho de 2023.
O sector do desporto passou assim a integrar a estratégia das autoridades locais para “elevar a capacidade de inovação, a competitividade e o prestígio internacional de Macau”, recorrendo às “capacidades técnicas e experiência profissional dos quadros qualificados”, conforme se lê no diploma.
A chegada de Zhu Yuling marcou, assim, uma nova etapa no desenvolvimento do desporto em Macau, enquadrada na política de recrutamento de talentos de “elevada qualidade”.

Sob o lema “Cidade do Desporto”, esta política tem atraído atletas que optam por continuar as suas carreiras na RAEM. Zhu Yuling tornou-se, assim, uma verdadeira estrela do desporto local, com potencial para inspirar as gerações mais jovens e, no futuro, contribuir para o desenvolvimento da modalidade também fora das competições.
O seu palmarés fala por si: várias medalhas de ouro em Taças Mundiais e Jogos Asiáticos, tendo, em 2017, alcançado o topo do ranking internacional, depois de vencer a compatriota Liu Shiwen na final da Taça Mundial, realizada no Canadá.
O técnico da selecção de Macau fala com entusiasmo sobre Zhu Yuling, frisando que o impacto da atleta se manifesta “principalmente em três áreas”. A primeira diz respeito às “conquistas inovadoras”, uma vez que a jogadora alcançou o quarto lugar na prova individual feminina dos Jogos Nacionais, estabelecendo um novo recorde como “o melhor desempenho de sempre” de Macau neste evento nacional.
A segunda prende-se com “a transferência de conhecimentos técnicos”. Como atleta de elite, “o seu envolvimento elevou directamente a proficiência técnica e táctica geral da equipa de Macau, a par da experiência em competições importantes”, sublinha o responsável.
Por fim, o treinador destaca “o papel motivacional e exemplar” de Zhu Yuling, salientando que “a sua ética profissional e desempenhos de alto nível estabeleceram um modelo tangível para os jogadores locais, particularmente a geração mais jovem, aprenderem de perto, galvanizando grandemente a comunidade local de ténis de mesa”.
Resultados e benefícios
Ao lado de Zhu Yuling, observa o técnico, os jogadores de Macau “estão a deixar a sua marca no cenário asiático e internacional”. Entre os exemplos dessa “geração emergente”, estão os irmãos Zhang Zijun e Zhang Zicheng – conhecidos como os “irmãos do pingue-pongue” –, que já começaram a competir em provas internacionais. O mais velho, Zhang Zijun, chegou mesmo a defrontar o consagrado Fan Zhendong – actual campeão olímpico – no WTT Champions Macau de 2022. “Eles são considerados uma nova força em crescimento”, nota Wong Chong Fan.
Falando sobre a política desportiva local, e no contexto das vantagens do princípio “um país, dois sistemas”, o treinador defende que Macau pode integrar-se “profundamente” no sistema nacional de desenvolvimento desportivo, “facilitando o acesso a recursos de treino, apoio técnico e oportunidades de intercâmbio no Interior da China”.
Por outro lado, impulsionada pela chamada “economia de eventos”, a RAEM tem vindo a acolher “regularmente eventos de primeira linha”, como os Jogos Nacionais e as provas WTT. Estes eventos, afirma Wong Chong Fan, não só “elevam o perfil internacional de Macau, mas também integram modalidades competitivas com iniciativas de desporto para todos, fomentando assim o desenvolvimento do desporto local”.
O responsável não tem dúvidas de que a 15.ª edição dos Jogos Nacionais – organizada conjuntamente por Guangdong, Hong Kong e Macau, e cujas provas de ténis de mesa decorreram na cidade – “teve um impacto positivo no futuro imediato” da modalidade. Aclamada como “a competição mais difícil do mundo”, a realização do torneio na RAEM “aumentou significativamente a visibilidade da modalidade”.
Wong Chong Fan enalteceu também os “amplos benefícios físicos e psicológicos” da prática do ténis de mesa. Com base em “pesquisas académicas abrangentes e recursos acessíveis”, as suas principais vantagens incluem a “melhoria da função neurológica, aumentando a velocidade de reacção, a coordenação motora e a agilidade mental”, realça o técnico.
Como actividade que “envolve todo o corpo”, o ténis de mesa “fortalece a aptidão cardiovascular e estimula o metabolismo”, afirma o responsável, acrescentando que “os movimentos frequentes e os golpes com a raquete fortalecem os músculos e os ossos, melhorando a condição física”.
Além disso, “acompanhar o movimento da bola tem um impacto positivo na prevenção da miopia e alivia a fadiga ocular”, explica.
No campo psicológico, o técnico destaca que esta prática estimula a libertação de “substâncias químicas do bem-estar” pelo cérebro, “auxiliando na redução do stress e promovendo uma visão positiva”.


