A icónica fachada cor-de-rosa na esquina da Avenida de Almeida Ribeiro com a Avenida da Praia Grande não passa despercebida a quem se prepara para entrar no Centro Histórico de Macau. O edifício sede do BNU – que hoje mescla o complexo original com um moderno prédio de escritórios – está a celebrar um século de existência
Texto João F. O. Botas*
Desde a abertura da primeira agência em Macau do que é hoje o Banco Nacional Ultramarino, S.A. (BNU), a 20 de Setembro de 1902, que a construção de um edifício de raiz que servisse de sede local à instituição era uma aspiração. No entanto, tal só viria a ser realidade quase um quartel de século depois, materializando a importância do banco enquanto peça essencial no desenvolvimento económico da cidade, que não possuía então qualquer outra instituição bancária equiparável às existentes na vizinha Hong Kong.
O complexo que hoje recebe quem entra na Avenida de Almeida Ribeiro vindo da parte sul da península é uma metáfora da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM): reflecte a coexistência entre o moderno e o antigo, sendo um exemplo de sucesso de preservação de uma fachada histórica. O edifício original foi concluído em 1926, tendo sido alvo em 1997 de uma renovação profunda, que incluiu a construção em altura de um moderno prédio de escritórios, mas com a manutenção da fachada e colunatas da edificação inicial.
Pela sua relevância histórica e patrimonial, a sede do BNU faz parte da lista de bens imóveis classificados da RAEM, como “edifício de interesse arquitectónico”.
Entrada em Macau
A chegada do BNU a Macau no início do século XX confunde-se com as origens da moeda local, a pataca. O banco, fundado em Lisboa em 1864, estava já presente em Portugal e em diversos territórios sob administração portuguesa.
A 30 de Novembro de 1901, foi assinado um acordo entre o Estado português e o BNU, que levou à criação da filial de Macau no ano seguinte. Foi o primeiro e, durante várias décadas, único banco de cariz europeu na cidade.
Por esta altura, Macau não tinha moeda própria oficial. As trocas comerciais internas e externas realizavam-se em notas e moedas de prata e cobre chinesas e estrangeiras. Para alterar a situação, o BNU inicia, em 1905, a sua função como instituição emissora de notas em patacas, designação que se terá ido buscar à pataca mexicana, então muito popular como forma de pagamento no Extremo Oriente. As notas da primeira emissão, de 1906, tinham os valores de 1, 5, 10, 20, 50 e 100 patacas.

O BNU funcionou inicialmente no n.º 9 da Rua da Praia Grande (só “elevada” a avenida em 1994), próximo do Palácio do Governo. A agência seria transferida, em 1906, para o antigo Palácio das Repartições, igualmente na Rua da Praia Grande, no local onde está hoje o Edifício do Antigo Tribunal. Aí se manteria até à inauguração do edifício sede do banco.
De hipoteca a sede
Lam Lin, Lam Ham Lin ou Lam Sin San: são várias designações para a mesma pessoa, um dos homens de negócios mais prósperos de Macau na transição do século XIX para o século XX. Entre os vários interesses comerciais que possuía, era proprietário de uma das maiores casas cambistas locais, a Si Fung, na Rua dos Mercadores. Era ainda dono de vários prédios e – importantemente – de um terreno localizado na Rua da Praia Grande, onde mandou construir em 1907 um prédio para habitação, que recebeu o n.º 67.
Reza a história que o vício do ópio foi a perdição do negociante, fazendo com que perdesse o controlo sobre a sua fortuna, nomeadamente sobre a actividade da casa cambista, onde alguns empregados terão desviado quantias avultadas. Os rumores depressa se espalharam pela cidade, dando aso a uma corrida aos depósitos por parte dos clientes. Com falta de liquidez, a Si Fung foi encerrada e, por acção judicial, o outrora afluente empresário foi declarado falido em 1910.
Para liquidar parte das dívidas, Lam Lin vendeu propriedades e hipotecou o prédio n.º 67 da Rua da Praia Grande a favor da agência do BNU. Na sequência da sua morte, em Abril de 1920, e face à dificuldade dos herdeiros em assegurar os compromissos financeiros assumidos, foi determinada a expropriação de vários bens. Na listagem, estava incluído o edifício na Rua da Praia Grande, sendo mencionado nas “observações” da execução a expropriação de “parte do corpo principal da casa, quási todo o jardim e outras dependências (…) com a área de 450 metros quadrados”.
O imóvel passou a ser propriedade do BNU em 1923, sendo declarada extinta a dívida e cancelada a hipoteca. Em meados de 1924, o edificado existente no local seria demolido para ali nascer a sede do banco.
Linhas arquitectónicas
O edifício original da sede do BNU, que incluía a residência do respectivo gerente, foi projectado por Artur Rocha Schiappa Monteiro de Carvalho: militar de carreira, era formado em engenharia civil e viria, mais tarde, a ser director das Obras Públicas de Macau. Foi ainda projectista do Lar de Nossa Senhora da Misericórdia, outro complexo actualmente classificado como “edifício de interesse arquitectónico” pelas autoridades da RAEM.
As obras da sede do BNU ficaram a cargo do empreiteiro Ho-Loy, num contrato no valor de 130 mil patacas. A empreitada teve a supervisão de Manuel Monteiro Lopes, gerente do BNU de 1922 a 1927 e grande impulsionador do projecto.
Exemplo da arquitectura neoclássica da década de 1920, o edifício de dois andares foi denominado na época como “Casa da Agência”, apresentando linhas sóbrias, com uma fachada imponente marcada por colunas e elementos decorativos que transmitiam solidez e confiança, características essenciais para uma instituição bancária da época.
As marcas do revivalismo clássico estão, por exemplo, nas vergas das grandes janelas, nos frontões triangulares e cornijas e nas grandes colunas redondas e balaustradas em estilo romano. Um traço local do projecto foi a construção de arcadas ao longo do piso térreo, solução amplamente seguida em Macau para fazer face à chuva das monções.

O alçado principal estava virado para a recém-concluída Avenida de Almeida Ribeiro, “com três portas que dão acesso ao rez-do-chão (…) e um portão que dá acesso a um páteo e comunicação para o primeiro andar e dependências”, pode ler-se em documento do registo predial. No relatório final da obra, datado de Janeiro de 1926, Schiappa Monteiro de Carvalho salienta a “satisfação de afirmar que todos os trabalhos executados no edifício (…) estão feitos com bons materiais e têm bom acabamento”.
Com uma localização excepcional, a sede do BNU em Macau depressa se tornou uma “âncora” entre as duas principais artérias da cidade em mudança, a Rua da Praia Grande e a Avenida de Almeida Ribeiro. Do outro lado da esquina – onde está hoje o Edifício Comercial Nam Tun –, erguia-se o New Macao Hotel, que rivalizava na oferta hoteleira do tipo ocidental com o Hotel Boa Vista (depois Hotel Bela Vista e actualmente Residência Oficial do Cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong). Dois hotéis era mais do que oferta suficiente para uma pacata cidade que em 1926 tinha em circulação apenas 122 veículos motorizados, segundo registos oficiais.
Inauguração com pompa
Às 10h00 da manhã de 1 de Março de 1926, uma segunda-feira, a nata da sociedade local compareceu para a inauguração do edifício sede do BNU, numa cerimónia que contou com a presença do governador de Macau, Maia de Magalhães, do bispo D. José da Costa Nunes, “e tudo quanto Macau conta de mais distinto”, segundo notícia do jornal “A Pátria”, que acrescentava: “Impossível nos é, dar uma resenha dos nomes dos convidados, podendo afirmar que era quási todo Macau.”
Ausente estava o poeta português Camilo Pessanha, que, em Macau, fora durante muitos anos advogado, juiz, professor do liceu e coleccionador de obras de arte. Duas horas antes, tinha morrido na sua residência, não longe da nova “casa” do BNU. Mas a notícia ainda não se espalhara e não ensombrou a inauguração.
Na altura, Macau estava em grande efervescência, com as obras do Porto Exterior a decorrerem a todo o vapor. Na imprensa da época, escrevia-se: “É grande e febril o movimento e azáfama do pessoal da companhia encarregada das obras (…). Não há dúvida e cremos não estar longe da verdade, se afirmarmos que antes de um ano o porto estará quási concluído, se a actividade de agora se mantiver.”
O cinema sonoro era a grande novidade que atraía multidões ao Teatro Victoria, nas imediações da sede do BNU. Nos dias 1 e 2 de Março de 1926, tinha em exibição várias películas com duas sessões, às 19h00 e às 21h30.
Na sua edição de dia 1 de Março de 1926, o jornal “A Pátria” informava: “Será hoje inaugurado o novo edifício da agência dêste banco em Macau (…) e o seu bom acabamento muito deve ao incansável gerente actual, Sr. Manuel Monteiro Lopes, que, com a sua pertinaz e assídua fiscalização, conseguiu alcançar o fim que tinha em vista, com o que muito se deve honrar. Fica, pois, aberto ao público desde hoje o novo e modelar edifício onde a referida agência passa a funcionar com a regularidade que sempre tem caracterizado tão acreditada instituição.”
O jornal voltaria ao tema a 3 de Março, com uma notícia publicada na primeira página: “Conforme estava anunciado, realizou-se, no dia 1 do corrente, a inauguração do belo edifício da Filial do B. N. Ultramarino nesta cidade, edifício este que, pela sua arquitectura e simplicidade, muito honra o seu arquitecto e a fiscalização superiormente dirigida pelo nosso simpático amigo e digno gerente, Sr. Monteiro Lopes. E se vários cabelos brancos lhe cresceram na sua constante fiscalização, com as arrelias havidas, a prova de simpatia que anteontem recebeu por parte [de quem] ali acorreu à inauguração, [deve tê-lo] compensado bem dos dissabores próprios em quem superiormente dirige uma obra daquele vulto.”
A notícia continua, notando que, após discursos do governador e do gerente, “os convidados visitaram as magníficas instalações do banco, sendo nesta ocasião servido profusamente o tradicional champagne”. Completada a visita, “os convidados espalharam-se pelo amplo átrio e salas do banco, tendo o nosso simpático amigo, Sr. Monteiro Lopes, recebido inúmeras felicitações… Quando nos retirámos, cerca das 11h30, cá fora crepitavam os panchões”.
O semanário “O Combate” noticia a inauguração na edição de 4 de Março: “É um esplêndido edifício de que muito pode orgulhar-se o seu arquitecto nosso prezado amigo Sr. tenente-coronel Schiappa Monteiro e cuja construção foi com inexcedível carinho fiscalizada pelo digno gerente nosso bom amigo Sr. Monteiro Lopes.”
Só em 1934 serão dados ao imóvel, em definitivo, os números de porta 2 e 2A da Avenida de Almeida Ribeiro. Mais tarde, a numeração será alterada e hoje este ostenta como morada o número 22.
Preparado para o futuro
Em 1997, a sede do BNU foi objecto de profundas remodelações. A fachada e colunatas originais foram cuidadosamente preservadas, mantendo a integridade visual, enquanto o interior foi completamente renovado para as exigências do século XXI. Seguindo o projecto do arquitecto português Bruno Soares, há muito radicado em Macau, foi construído um moderno prédio de escritórios, com 17 andares, cuja fachada remete para o mastro de uma caravela, elemento-chave no logótipo original do banco.

Entre 2022 e 2023, o interior da agência bancária foi alvo de renovação, tarefa a cargo do estúdio local de arquitectura e design Impromptu Projects. Mais uma vez, a história não foi esquecida, com a simbologia da caravela presente na utilização de cascos de madeira em cor branca no design do átrio.
Hoje, o edifício não é apenas a sede da filial de Macau do BNU, mas do próprio banco. Isto porque, desde 2001, quando em Portugal o BNU foi incorporado no grupo Caixa Geral de Depósitos, Macau passou a ser o único local onde a entidade se manteve como marca própria.
* Jornalista, autor de vários livros sobre a história de Macau e criador do blogue Macau Antigo (macauantigo.blogspot.com)


