O nome de Camilo Pessanha ainda ecoa pelas ruas de Macau, passado um século sobre a sua morte. Naquele que é um possível roteiro dedicado ao poeta português, a Revista Macau revisita os locais da cidade ligados ao autor de “Clepsydra” e nome maior do simbolismo luso, que aqui viveu a partir de 1894 e até ao seu falecimento, em Março de 1926
Texto João F. O. Botas*
Quando Camilo Pessanha desembarcou em Macau, em 1894, tinha 26 anos e um destino algo incerto. Trazia consigo pouco mais do que a promessa de um emprego no sector do ensino. A cidade tornar-se-ia o seu lar definitivo e, paradoxalmente, o lugar onde se afastaria lentamente do mundo literário português que o viria a consagrar.
Após a chegada ao Oriente, e até à sua morte, Pessanha voltou a Portugal apenas quatro vezes, para usufruir de períodos de licença, particularmente por causa de doenças.
Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra, no centro de Portugal, a 7 de Setembro de 1867, filho ilegítimo de Francisco António de Almeida Pessanha, então estudante de Direito, e de Maria do Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua criada, natural da Beira Alta. Ainda criança sofreu uma paralisia hemifacial que lhe causou um ligeiro estrabismo no olho direito. Por essa razão, colocava-se de perfil quando fotografado.
Frequentou o Colégio de Lamego – cidade para onde a mãe se mudara pouco depois de o pai ter sido nomeado juiz nos Açores – e, aos 17 anos, foi aprovado nos exames finais no Liceu Central de Coimbra, garantindo o acesso à universidade em 1884, ano em que foi, enfim, perfilhado. Formou-se em Direito em 1891, estando longe de ser um aluno brilhante.
Nova vida a Oriente
Após uma curta carreira ligada às leis em Portugal, Pessanha foi nomeado professor de Filosofia no Liceu de Macau. Posteriormente, desempenharia na cidade também profissões ligadas ao Direito, incluindo advogado, conservador e juiz. No ensino, seria ainda responsável por outras disciplinas, incluindo História, Economia Política, Direito Comercial e História da China.
O autor que, em Portugal, chegou a conviver com nomes como Eugénio de Castro e António Nobre – que ulteriormente inaugurariam novos caminhos na poesia portuguesa –, acabaria por granjear a admiração de novas gerações de poetas seus contemporâneos, a começar por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Isto apesar das décadas numa espécie de quase-silêncio criativo, interrompido apenas por cartas, traduções e raros poemas.
Pessanha nunca constituiu família nos moldes convencionais, embora tenha tido uma relação com uma mulher chinesa, muitas vezes identificada como sua concubina. Desta, teve João Manuel, único filho reconhecido pelo poeta.
O consumo de ópio, prática relativamente difundida entre europeus no Oriente, contribuiu para o progressivo afastamento de Pessanha da vida pública. Apesar do seu silêncio editorial, a reputação do poeta crescia em Portugal, onde os seus poemas circulavam entre amigos e admiradores. A recusa em organizar e publicar a sua própria obra contribuía para a aura de mistério que o rodeava.
Foi apenas em 1920, graças à iniciativa da escritora Ana de Castro Osório e do seu filho João de Castro Osório – também ele poeta e homem das artes –, que a única colectânea de Pessanha, “Clepsydra”, viu a luz do dia. O livro, publicado quando o poeta já vivia há mais de duas décadas em Macau, foi preparado durante a sua última estadia em Portugal, entre 1915 e 1916, e tornou-se uma das obras fundamentais da poesia portuguesa moderna.
Ironicamente, seria Ana de Castro Osório – considerada por alguns especialistas literários como a razão pela qual Pessanha decide inicialmente vir para Macau, após uma proposta de casamento rejeitada em termos amistosos – que lhe garantiria a eternidade no mundo das letras. Uma versão revista de “Clepsydra” seria publicada por João de Castro Osório em 1969, após outras em 1945 e 1956.
A 3 de Março de 1926, dois dias após a morte de Pessanha em Macau, a notícia chega a Portugal. O Diário de Lisboa refere-se-lhe como a morte do “mais bizarro, o mais complexo, o mais extraordinário temperamento lírico do seu tempo”, um nome “sagrado para os raros que o conheciam”.
* Jornalista, autor de vários livros sobre a história de Macau e criador do blogue Macau Antigo (macauantigo.blogspot.com)

1. Largo de São Agostinho

As instalações do antigo Convento de Santo Agostinho, na origem do nome do largo adjacente, onde se mantém a Igreja de Santo Agostinho, foram das primeiras paragens recorrentes de Camilo Pessanha em Macau. Foi aí que ficou inicialmente sediado o Liceu de Macau, sendo Pessanha professor e autor do regulamento da instituição.
Após um breve período de advocacia em Óbidos, ainda em Portugal, Pessanha rumou a Macau para ser docente no novo liceu. Foi um dos professores seleccionados através de concurso aberto em Agosto de 1893 pela Secretaria do Ministério da Marinha e Ultramar. Desembarcou, assim, em Macau a 10 de Abril de 1894.
Numa carta dirigida ao pai, datada de Maio, pouco após a chegada, declara: “Quase estou animado a escrever sobre coisas do Oriente. A vida, por aqui, é cheia de impressões novas cada dia, ou eu me finjo que é, em um delírio artificial de grandezas, que me serviu de coragem para partir, e ainda me vai servindo para não esmorecer de todo.”
Em Setembro de 1894, começam as aulas. Pessanha lecciona Filosofia e exerce o cargo de secretário do Liceu de Macau.
2. Praia Grande

Uma das poucas fotografias de Camilo Pessanha tiradas em Macau mostra-o, como quase sempre, de perfil, no Hotel Hing Kee. Estamos em 1895, e tem a seu lado, entre outros, o também escritor português Wenceslau de Moraes – que considerava Pessanha “uma inteligência da mais fina têmpera, literato subtilíssimo, embora pouco produtor (por circunstâncias diversas)”.
Localizado junto ao cruzamento das actuais avenidas da Praia Grande e de Almeida Ribeiro, o Hotel Hing Kee, já demolido, foi a primeira morada de Pessanha em Macau. Pagava 40 patacas por mês por quarto e refeições, excluindo o vinho, como relata numa outra carta enviada ao pai.
Na imagem que temos de Pessanha na fotografia, o seu rosto esquivo é marcado por barbas negras e um olhar distante. Teve desde sempre uma saúde débil, sublinhada pela instabilidade psíquica – que atribuía, em cartas que escreveu, a origem genética – e pela fragilidade física, com o amigo Alberto Osório de Castro a descrevê-lo como “esqueleto ambulante, só com os nervos a viver”.
Nos boletins médicos da época, é diagnosticado com “astenia geral” e “anemia” ou, como o próprio descreveu, “uma abulia sem remédio”.
Diz Pessanha: “Nada verdadeiramente para mim tem realidade no mundo, por onde tenho passado como um sonâmbulo”, uma “vida demente, sem intuitos, nem disciplina, nem utilidade, com largos períodos de embrutecimento apático e intermitentes agitações de furor desconexo, entre visões, delirantes – fantasmas de outras raças e de outras idades”.
Ainda entre as ligações à Praia Grande, destaca-se, em 1915, a exposição de parte da riquíssima colecção de arte chinesa de Pessanha no Palácio do Governo, sito naquela artéria e actualmente denominado de Sede do Governo. É Pessanha quem organiza a mostra, escolhendo 125 peças, uma centena das quais apresentada no respectivo catálogo. Esta colecção é depois oferecida ao Estado Português, seguindo-se uma outra, de 60 peças, doada em 1926, ainda em vida, ao Museu Machado de Castro, em Coimbra.

Parte do espólio coleccionado por Pessanha acaba vendido pouco tempo depois da morte do poeta, naquela que foi a sua última residência, também na Praia Grande. O edifício – já inexistente – ficava no número 75.
Na edição de 10 de Junho de 1926 do jornal “O Combate”, é publicado o seguinte anúncio: “Na casa onde faleceu o Dr. Camilo Pessanha (Praia Grande, 75) estão em exposição, para venda, os objectos chineses por ele coleccionados durante a sua vida. As pessoas e os seus amigos e admiradores que desejem adquirir alguns desses objectos, poderão ali dirigir-se a seu filho, todos os dias das 11 às 19 horas.”
3. Hospital de São Rafael

No tempo de Pessanha, o edifício que alberga actualmente o Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong funcionava como Hospital de São Rafael, sendo a actual Rua Pedro Nolasco da Silva conhecida então como Rua do Hospital. Nessa artéria, estava o escritório de Pessanha enquanto advogado. Isso o comprovam as edições de 20 e 27 de Dezembro de 1913 do Boletim Oficial, onde é publicado um raro anúncio em português e chinês dos advogados Camilo Pessanha e Luiz Nolasco.

Sublinhando a ligação do poeta ao local, no jardim do consulado de Portugal está, desde o final de 2016, um mural com o retrato de Pessanha, da autoria do artista plástico português Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils.
4. Clube Militar


Fundado em 1870, o Grémio Militar – actual Clube Militar de Macau – foi palco de palestras proferidas por Camilo Pessanha. A 28 de Maio de 1910, abordou aí a temática da estética chinesa, numa sessão que durou duas horas, a qual seria publicada sob a forma de ensaio no jornal “A Verdade” a 2 de Junho desse ano. A 13 de Março de 1915, profere uma outra palestra no mesmo local, esta dedicada à literatura chinesa.
5. Hotel Boa Vista


No hotel Boa Vista – actual Residência Oficial do Cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong –, Pessanha não só foi hóspede e comensal, como também foi professor. Isto porque as instalações serviram, entre 1917 e 1923, como “casa” ao Liceu de Macau.
No Verão de 1912, o amigo Alberto Osório de Castro visita Pessanha em Macau e o hotel surge nas descrições que faz o visitante. “O Camilo fumava a longos haustos caladamente, e reanimava-se pouco a pouco como se o tocara vara de condão. Ficou outro, cheio de vida, de alegria expansiva. Rapidamente se vestiu e viemos ambos almoçar com minha mulher ao Hotel da Boa Vista de que também era comensal. Voltámos a sua casa todos os três, ainda na animação esfuziante, na euforia física que lhe dera o ópio da manhã; e foi-nos mostrando, uma por uma, as suas inumeráveis maravilhas, que enchiam salas e corredores, desde os painéis enroláveis dos séculos XV a XVII, às pinturas… da China; as porcelanas de inestimável valor, as delicadíssimas e frágeis preciosidades de jade, de ágata, de cristal de rocha lapidado, de alabastro, de prata, de charão, de marfim, de ébano, de nácar, de sândalo.”
O ópio causava em Pessanha, segundo o próprio, um “delírio lúcido, característico, dizem, da intoxicação pelos hipnóticos, em que, sem se perder a consciência da situação em que se está, se evoca no espírito com absoluta fidelidade e perfeita nitidez, uma outra situação, em outro lugar ou em outro tempo, como se se vivessem simultaneamente duas vidas, muito distantes uma da outra”.
6. Jardim e Gruta de Camões

O maior testemunho pessoal de Pessanha sobre Macau está nas cartas que escreveu, mas também na comunicação que dedicou ao grande poeta português Luís de Camões numa conferência em 1924, posteriormente publicada no jornal “A Pátria” nesse ano.
“Em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal, menos frequentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas, destacando a cada canto em rectângulos de papel vermelho, das águas amarelas do rio e da rada, onde deslizam as lentas embarcações chinesas de forma extravagante, com as suas velas de esteira fantasmáticas, e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa”, salienta.
Na sua intervenção, Pessanha defende que “seria verdadeira loucura” negar que tenha sido escrita ou concebida em Macau uma parte considerável da obra poética de Camões. “Há-de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte, o seu poema imortal.” É também nessa palestra que Pessanha se refere à Gruta de Camões como “lugar sobre todos prestigioso, dedicado ao culto” ao poeta épico português.
E é junto à gruta que Pessanha, em Junho de 1920, se deixa fotografar com os restantes fundadores do efémero Instituto de Macau, criado com demais ilustres intelectuais locais da época, entre eles Manuel da Silva Mendes e José Vicente Jorge.
7. Tap Seac

No edifício que alberga actualmente a sede do Instituto Cultural, viveu Camilo Pessanha os seus últimos momentos como professor do Liceu de Macau: a instituição mudara-se para esse novo local em 1924.
Ao lado, fica actualmente a Biblioteca Central, onde pode ser consultada a primeira edição da “Clepsydra” em língua chinesa – tradução de Chen Yong Yi – publicada em 1997 pelo Instituto Cultural. Já os livros outrora pertencentes à vasta e rica biblioteca de Pessanha, que o próprio deixa em testamento – redigido em 1921 – à então Repartição do Expediente Sínico, estão hoje na histórica Biblioteca do Leal Senado.
A facilitar o reconhecimento das obras outrora pertença de Pessanha está o “ex-libris” pessoal do poeta. Feito num tradicional carimbo chinês de formato quadrangular com caracteres arcaicos, a vermelho e em três colunas, apresenta a representação fonética chinesa do nome “Pessanha” seguida da expressão “Ramos entrelaçados de flores de ameixoeira”.
8. Antigo Mercado do Tarrafeiro

Num tempo em que a poesia chinesa era ainda praticamente ignorada no Ocidente, Camilo Pessanha foi dos primeiros ocidentais a procurar “descodificar” estes textos de enorme complexidade. Um dos alvos da sua atenção foi um manuscrito com poemas chineses da dinastia Ming (1368-1644): a tarefa demorou seis anos a estar concluída, “tirando dêsse esforço (em boa verdade se diga) horas de um tão suave prazer espiritual que dele o não esperava tamanho”, dirá. O resultado será publicado sucessivamente no jornal local “O Progresso” em 1910, sob o título “Oito Elegias Chinesas”.
Não se sabe ao certo que domínio da língua chinesa escrita possuía Camilo Pessanha – há autores que referem um conhecimento de cerca de 3500 caracteres –, mas, pelo menos, teria alguma capacidade de ler. “Imperfeitas noções de simples estudioso amador, adquiridas ao acaso das horas vagas”, segundo o próprio. Por isso, na tradução, contará com a ajuda do seu amigo José Vicente Jorge, mais habilitado em língua chinesa.
O manuscrito alvo de tradução fora comprado, segundo Pessanha, “pelo preço vil de duas patacas, em uma casa de prego, ali ao Tarrafeiro”.
O topónimo “Tarrafeiro” em Macau data de, pelo menos, meados do século XIX e ainda hoje existe – estará relacionado com as artes de pesca com tarrafa, um tipo de rede. Durante os tempos de Pessanha, está activo o Mercado do Tarrafeiro, localizado na confluência da Rua de Cinco de Outubro com a Rua do Guimarães, junto ao Porto Interior.
9. Cemitério de São Miguel Arcanjo

Camilo Pessanha morreu em casa, às 8 da manhã de 1 de Março de 1926, vítima de tuberculose pulmonar e outras complicações ligadas ao consumo de ópio. Um dia após a morte, é publicado no jornal “The Hong Kong Telegraph” um obituário, identificando-o como um “distinto advogado e professor”.
Falecido aos 58 anos, teve um funeral simples, não religioso, sem música nem coroas, como solicitado em testamento: o caixão foi transportado num armão militar, coberto pela bandeira portuguesa. Foi enterrado às 17 horas de 2 de Março no Cemitério de São Miguel Arcanjo, onde ainda hoje se encontra a sua sepultura.
Entre a multidão presente no funeral, contaram-se o governador Maia de Magalhães e o reitor do liceu, Borges Delgado, que o descreveu como um “espírito altamente filosófico e amplamente liberal, alma aberta a todas as dores e infortúnios, encarava a vida desprendidamente, sem os preconceitos vãos que por aí pululam, a contaminar tudo e todos”.
Na mesma sepultura, modesta, estão ainda o filho e a nora. Na vertical, uma lápide colocada posteriormente inclui fotografias dos três.
10. Rua de Camilo Pessanha

A 8 de Março de 1926, poucos dias após a morte de Pessanha, numa sessão do Leal Senado, o presidente, Luiz Gonzaga Nolasco da Silva, que fora aluno de Pessanha, propôs um voto de profundo pesar e que fosse dado o seu nome a uma das vias públicas de Macau. Desta forma, a Rua do Mastro passou a chamar-se Rua de Camilo Pessanha.
Outras homenagens públicas se seguiriam. Na década de 1980, a efígie de Pessanha foi incluída numa emissão de notas com valor facial de 100 patacas.
11. Jardim das Artes

Desconhecida de muitos, Macau homenageou Camilo Pessanha também em estátua. Inaugurada em 1999 no Jardim das Artes, a obra, da autoria do arquitecto macaense Carlos Marreiros, retrata Pessanha a caminhar de bengala sobre a calçada à portuguesa: a estátua “saiu” do pedestal, que ficou atrás e onde pontua o seu fiel cão, Arminho.
Figura assim para a posteridade o poeta português numa cidade que, na sua excentricidade, definiu como “remoto exílio”, mas também “o mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente”.


