Pouco mais de seis meses após assumir a presidência do Conselho de Administração do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento (IPIM), Che Weng Keong traça um panorama ambicioso para o futuro. Da diversificação industrial à integração regional, passando pelo reforço da cooperação entre a China e os países de língua portuguesa e pela internacionalização da indústria das convenções e exposições, o IPIM aposta em consolidar o papel de Macau como plataforma estratégica
Texto Cherry Chan e Tiago Azevedo
Quais são actualmente as prioridades e os objectivos para o IPIM?
O IPIM tem três funções principais: atrair investimentos; promover a indústria de convenções e exposições; e promover a cooperação, o intercâmbio e o comércio entre a China e os países de língua portuguesa (PLP).
Em termos de atracção de investimentos, o novo executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) adoptou várias medidas importantes para acelerar os esforços de diversificação adequada da economia. Tais esforços incluem a criação do Parque Industrial de Investigação e Desenvolvimento das Ciências e Tecnologias de Macau (Parque das Ciências e Tecnologias) e a criação do fundo governamental para as indústrias e do fundo de orientação [para a transformação dos resultados científicos e tecnológicos]. A criação do Parque das Ciências e Tecnologias é uma tarefa crucial para o IPIM, incluindo a atracção de investimentos em indústrias emergentes, como a saúde, as tecnologias digitais e o sector aeroespacial.
Em termos de convenções e exposições [MICE, na sigla em inglês], Macau é uma cidade que tem recebido inúmeros elogios. No entanto, a questão fundamental para o futuro é como é que esta indústria poderá capacitar outros sectores e a comunidade. Alcançar uma maior internacionalização e profissionalização são também tarefas importantes para nós.
Em termos de cooperação entre a China e os países de língua portuguesa, temos colaborado nas áreas da cultura, sociedade e tecnologia. Olhando para o futuro, temos de pensar como podemos apoiar as empresas do Interior da China na sua internacionalização para estes mercados, enquanto impulsionamos as indústrias locais – incluindo as dos sectores das finanças, contabilidade e direito – para participarem em actividades comerciais.
O IPIM tem realizado várias actividades no Interior da China para ajudar as empresas na expansão para os países de língua portuguesa. Que tipo de apoio é que estas empresas – especificamente as da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau – procuram?
As empresas do Interior da China desenvolveram capacidades consideráveis em termos de dimensão e a expansão é um passo crucial para o seu futuro. No entanto, devido à barreira linguística e à falta de familiaridade com sistemas jurídicos e fiscais, as empresas da Grande Baía enfrentaram anteriormente desafios na expansão para mercados de língua portuguesa.
Portanto, pretendemos prestar serviços às empresas que procuram expandir tanto para o mercado chinês como para os países de língua portuguesa através de uma “abordagem conjunta” de “serviços + actividades”.
Nos últimos anos, tem-se verificado um aumento no número de empresas do Interior da China, dos países de língua portuguesa e de Macau que recorrem a este serviço. Notavelmente, o número de empresas brasileiras que tem utilizado o serviço tem crescido significativamente. O número de projectos de cooperação facilitados através deste serviço também aumentou, com as colaborações envolvendo o mercado brasileiro a apresentarem o crescimento mais pronunciado.
Desde a sua criação até ao final de 2025, o serviço “Conduta do Comércio China-PLP” prestou, cumulativamente, apoio a 1709 projectos de 944 empresas do Interior da China, dos países de língua portuguesa e de Macau.
Em 2025, este serviço prestou apoio a 320 projectos de mais de 190 empresas do Interior da China, dos países de língua portuguesa e de Macau, um aumento de quase 12 por cento em comparação com 2024. Projectos relacionados com o Brasil aumentaram de 51, em 2024, para 74, no ano passado, um crescimento de quase 45 por cento.
O IPIM também facilitou a implementação de vários projectos através de uma abordagem abrangente, incluindo o incentivo às principais empresas de materiais de construção e mobiliário da lista das 500 maiores empresas da China a estabelecerem fábricas em países de língua portuguesa, bem como apoiando empresas de cereais e óleos, classificadas entre as dez maiores do país, a adquirirem produtos agrícolas a granel.
Além de organizarmos algumas exposições emblemáticas, também participámos em sessões de bolsas de contactos e organizámos visitas de delegações de empresários do Interior da China e de Macau a Angola, Brasil, Portugal, Guiné Equatorial e Timor-Leste.
Quais os esforços adicionais que têm sido feitos para aprofundar a cooperação entre a China e os países de língua portuguesa?
Estabelecemos equipas dedicadas em países de língua portuguesa, não só para ajudar as empresas do Interior da China a identificar canais de distribuição, mas também para encontrarem produtos alimentares especializados de alta qualidade ou oportunidades de investimento.
Por outro lado, além de operarmos uma plataforma dedicada à informação sobre produtos alimentares e serviços, também colaboramos com várias plataformas do Interior da China para estabelecer sinergias, nomeadamente o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola, localizado na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin (Zona de Cooperação).
Paralelamente, algumas das províncias do Interior da China, incluindo Guangdong, Jiangsu e Zhejiang, estabeleceram plataformas de colaboração e assinaram acordos de cooperação, permitindo-nos estabelecer ligações precisas com as suas empresas.

Qual a importância de Macau neste contexto?
Deixe-me dar um exemplo para referência: digamos que uma empresa do Interior da China quer estabelecer uma parceria com uma empresa brasileira. Se o acordo estiver redigido em chinês, a empresa brasileira terá reservas; mas se for escrito em português, a parte chinesa também terá reservas. Ao utilizarem determinados serviços ou instituições em Macau, que funciona como uma ponte para os sistemas jurídicos dos países de língua portuguesa, as empresas do Interior da China têm mais garantias sobre o quadro jurídico que Macau proporciona para as suas operações. Na verdade, Macau desempenha um papel muito relevante na cooperação comercial entre a China e os países de língua portuguesa, envolvendo serviços jurídicos e financeiros, entre outros.
Como é que a Zona de Cooperação e a Grande Baía podem criar mais oportunidades para empresas do exterior e que papel pode Macau desempenhar?
Em primeiro lugar, operamos numa relação complementar. As empresas do Interior da China precisam de expandir para o exterior e procuramos prestar apoio através das plataformas que estabelecemos no estrangeiro.
Macau possui vantagens históricas únicas. Desde a transferência de administração, Macau tem-se desenvolvido como “um centro, uma plataforma e uma base” – especificamente, como uma plataforma entre a China e os países de língua portuguesa. Os laços estreitos que cultivámos com as nações de língua portuguesa têm um valor significativo para as entidades do Interior da China.
Em 2026, iremos envidar esforços para que empresas de Macau e da Zona de Cooperação participem em sessões de intercâmbio com nações de língua portuguesa e espanhola. Isto irá centrar-se particularmente na expansão para os mercados de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. Simultaneamente, iremos dar resposta às necessidades de expansão para o exterior das empresas chinesas, nomeadamente de províncias como Guangdong, Jiangsu e Zhejiang.
Temos como objectivo estabelecer equipas profissionais de consultoria em promoção de investimentos através de modelos de colaboração em projectos específicos. Aproveitando recursos como o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola na Zona de Cooperação, prestaremos às empresas serviços abrangentes de apoio antes da entrada em determinados mercados.
O IPIM organizou em Dezembro de 2025 o evento “Vamos Desfrutar” em Guangzhou, visando promover produtos dos países de língua portuguesa. Qual foi o feedback e que outras cidades do Interior da China serão abrangidas por esta iniciativa?
O evento “Vamos Desfrutar” tem sido uma iniciativa altamente eficaz e envolvente para a promoção de produtos, sendo o nosso objectivo apresentar produtos de alta qualidade dos países de língua portuguesa aos consumidores de Macau e do Interior da China. Até à data, esta iniciativa já se realizou em 12 locais, atraindo um total de 299 empresas e mais de 350.000 visitantes.
O evento tem sido tradicionalmente realizado em Macau, mas já chegou a Hengqin e teve a sua estreia em Dezembro de 2025 em Guangzhou, uma das quatro principais cidades da Grande Baía. Os expositores que participaram no evento em Guangzhou ficaram, em termos gerais, satisfeitos, referindo que ajudou a promover os produtos dos países de língua portuguesa junto do público local, permitindo também estabelecer ligações com entidades da Grande Baía. Em 2026, planeamos realizar um evento semelhante em Zhongshan.

“Macau desempenha um papel muito relevante na cooperação comercial entre a China e os países de língua portuguesa“
CHE WENG KEONG
PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO IPIM
O IPIM e o Gabinete de Apoio ao Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa foram objecto de fusão em Julho de 2024. De que forma é que isso contribuiu para melhorar a eficiência dos serviços?
O nosso compromisso para com os serviços que prestamos permanece o mesmo. Como organização internacional estabelecida em Macau pelo Ministério do Comércio da China, o Fórum de Macau tem um duplo significado: em primeiro lugar, servir os esforços diplomáticos e de cooperação externa do País; e, em segundo lugar, o facto de Macau acolher esta organização traz inúmeras oportunidades para a cidade através da realização de vários eventos e sessões de intercâmbio.
O IPIM sempre se manteve fiel à missão de ajudar o Secretariado Permanente do Fórum de Macau na realização dos seus objectivos.
O corrente ano será desafiante, uma vez que a 7.ª Conferência Ministerial do Fórum de Macau terá lugar em 2027. Os nossos colegas estão, por isso, empenhados em ajudar o Secretariado Permanente a avançar com os trabalhos relevantes.
Como é que o Serviço “One-Stop” ao Investidor tem sido optimizado ao longo dos anos para ajudar a atrair mais investidores para Macau?
O Serviço “One-Stop” ao Investidor está disponível para todas as empresas que visam o mercado de Macau. Ao longo dos anos, temos vindo a aperfeiçoar este serviço continuamente – por exemplo, no segundo trimestre de 2025, concluímos restruturações internas, reduzindo significativamente o tempo necessário para a constituição de uma empresa em Macau.
Temos de estar alinhados com a estratégia do Governo da RAEM para uma diversificação económica moderada, particularmente nos sectores da tecnologia e da “big health”. Os nossos colegas estão a aprofundar os seus conhecimentos em torno das políticas relevantes, bem como no que toca a iniciativas de integração regional – incluindo com Hengqin –, reforçando assim as nossas capacidades profissionais.
Quantos projectos foram apoiados em 2025 pelo Serviço “One-Stop” ao Investidor do IPIM?
O Serviço “One-Stop” ao Investidor está em estreita consonância com a estratégia governamental “1+4” para a diversificação económica moderada. Entre os 343 novos projectos de investimento recebidos ao longo de 2025, mais de metade envolveu as indústrias abrangidas pela estratégia “1+4”. Notavelmente, 27 desses projectos eram apoiados por empresas cotadas em bolsa ou empresas líderes de mercado, representando um aumento anual de mais de 90 por cento.
Tem-se notado um maior interesse por parte de empresas ligadas aos sectores da “big health”, tecnologia e finanças?
Em comparação com 2024, o número de planos de investimento de empresas dos sectores tecnológico e financeiro aumentou 20 por cento em 2025, indicando que há um maior interesse em Macau por parte destas empresas.
No geral, as três exposições realizadas em 2025 – a 2.ª Exposição Económica e Comercial China-Países de Língua Portuguesa (Macau), a 30.ª Feira Internacional de Macau e a Exposição de Franquia de Macau 2025 – registaram a assinatura de 13 acordos de cooperação, entre os quais alguns que envolveram empresas na lista da Fortune Global 500, empresas tecnológicas líderes de mercado e fundos de investimento.
Estes passos ajudarão a impulsionar a expansão de indústrias-chave para Macau, incluindo o sector da “big health”, indústrias de alta tecnologia e finanças modernas. Por outro lado, permitirá cultivar recursos empresariais de elevada qualidade para o Parque das Ciências e Tecnologias, ajudando a formar um ecossistema industrial mais abrangente.
O novo Governo da RAEM tem vindo a avançar diligentemente com projectos relevantes para o futuro da região, incluindo a criação do Parque das Ciências e Tecnologias, o estabelecimento do fundo para as indústrias e fundo de orientação, sendo que 2026 marca também a 3.ª edição dos “Programas de Captação de Quadros Qualificados da RAEM”.
Em conjunto com os esforços promocionais realizados pelo IPIM ao longo dos últimos anos, é evidente que um número crescente de empresas do Interior da China está a adquirir um conhecimento aprofundado sobre Macau e as vantagens que a região oferece.
Macau é consistentemente reconhecida como um destino MICE de excelência. Como é que o IPIM está a aperfeiçoar as suas medidas para atrair mais eventos?
Macau recebeu inúmeros elogios de publicações de renome no sector MICE e estas conquistas são o resultado de esforços conjuntos da comunidade e do Governo. Macau tem algumas das melhores infra-estruturas e serviços de apoio ao sector, o que resultou em avanços bastante positivos.
Em 2025, Macau acolheu 1861 eventos MICE, um aumento de 22,1 por cento face a 2024, os quais atraíram mais de 1,4 milhões de participantes e visitantes, um crescimento homólogo de 10,7 por cento. As receitas geradas pelos eventos MICE cifraram-se em cerca de 6,28 mil milhões de patacas em 2025, um aumento de 16,4 por cento face a 2024. Simultaneamente, a despesa per capita dos visitantes que participaram em eventos MICE em Macau no ano passado atingiu as 4572 patacas, um valor superior a 2024.
Porém, dada a dimensão de Macau, não podemos continuar a perseguir o crescimento em termos de quantidade de eventos MICE, mas sim em termos de qualidade. Isso inclui o objectivo de receber mais exposições internacionais, ampliando o perfil internacional de Macau, procurando também impulsionar o desenvolvimento de outros sectores.
A nossa meta é receber eventos mais especializados, que irão, eventualmente, fomentar indústrias novas e emergentes. Um exemplo disso ocorreu no ano passado, quando acolhemos a 18.ª Convenção Mundial dos Empresários Chineses. Empresários chineses de elite de todo o mundo estiveram em Macau, o que foi uma grande ajuda aos nossos esforços de promoção.

Quais são as vantagens do modelo “Um Evento, Dois Locais” em termos de promoção de Macau como destino internacional de MICE?
O nosso objectivo é colaborar com Hengqin para explorar abordagens, medidas ou estratégias para promover uma única exposição em duas cidades ou uma única convenção em dois locais. Através da coordenação com entidades da Zona de Cooperação e de Zhuhai, procuramos estabelecer um modelo distinto que integre a plataforma de convenções e exposições de Macau no âmbito da colaboração com a Zona de Cooperação e no contexto de desenvolvimento da Grande Baía.
Ao mesmo tempo que se expande a escala e a influência dos eventos, esta abordagem também visa integrar as redes internacionais e as vantagens de Macau como porto franco com as cadeias industriais da Grande Baía. Isto elevará o posicionamento de Macau para um destino MICE insubstituível que liga a China aos mercados globais, particularmente aos países de língua portuguesa.
Tomemos como exemplo a primeira Exposição Global de Máquinas e Produtos Electrónicos de Inteligência Artificial em 2025, realizada conjuntamente em Macau e Zhuhai. O evento reuniu mais de 1200 empresas participantes, numa área de exposição combinada de 70.000 metros quadrados em ambos os locais, tendo facilitado mais de 4200 sessões de intercâmbio entre fornecedores e potenciais compradores.
O “ICCA Asia Pacific Business Events Development Forum & Asia Pacific Business Events Youth Challenge 2026” será realizado em Macau pela primeira vez. Qual é a importância deste duplo evento?
A International Congress and Convention Association (ICCA) é a organização líder mundial no sector de reuniões internacionais, contando com mais de 1100 membros de quase 100 países. A candidatura bem-sucedida da indústria de Macau para acolher o “ICCA Asia Pacific Business Events Development Forum & Asia Pacific Business Events Youth Challenge 2026” demonstra plenamente o reconhecimento e a afirmação da indústria MICE de Macau. Além disso, este evento reunirá em Macau os líderes globais do sector, o que elevará ainda mais o perfil internacional da cidade, podendo contribuir para atrair mais eventos para Macau. Impulsionada pelo reconhecimento internacional e pelo talento local excepcional, Macau está a afirmar-se progressivamente como um destino MICE regional de referência.


