A obra da artista contemporânea portuguesa Helena Almeida, falecida em 2018, está em grande destaque no Museu de Arte de Macau, numa retrospectiva inédita na Ásia dedicada ao seu trabalho. Patentes estão alguns dos seus trabalhos mais icónicos, onde é explorada a relação entre arte e corpo
Texto Cherry Chan e Emanuel Graça
Fotografia Oswald Vas
Na amplidão das salas do Museu de Arte de Macau (MAM), explora-se por estes dias a relação entre corpo e espaço e entre performatividade e auto-representação. A guiar os visitantes, está a obra de Helena Almeida (1934-2018), considerada uma das mais relevantes artistas portuguesas e europeias da sua geração.
Num percurso artístico que se iniciou na pintura abstracta durante os anos 1960 e se centrou posteriormente no uso da fotografia como forma de captar imagens de si mesma em trabalhos performativos, a artista usa o corpo para registar, ocupar e definir o espaço. Por vezes, nessas imagens, surge o seu colaborador e parceiro de vida, o escultor e arquitecto português Artur Rosa (1926-2020).

“Estou aqui – Helena Almeida: Presença e Ressonância” é a primeira exposição individual da artista na Ásia, sendo apresentada como uma das mais abrangentes retrospectivas do seu trabalho. Organizada por ordem cronológica, inclui as suas primeiras pinturas e prossegue com os trabalhos fotográficos performativos que marcaram a sua prática criativa, além de alguns vídeos.
Uma peculiaridade da mostra é que o percurso sugerido pela curadoria começa no terceiro piso do MAM. Os visitantes são depois convidados a percorrer as várias salas até ao primeiro piso, acompanhando a vivência artística de Helena Almeida até aos seus últimos trabalhos: ao todo, estão patentes 42 conjuntos, num total de 190 obras originais.
A exposição é organizada pelo Instituto Cultural, em parceria com a Escola de Arte Intermédia da Academia de Arte da China, e realizada pelo MAM. Inaugurada em Janeiro, está patente ao público até 26 de Abril. A entrada é gratuita.
Artista como nós
Em entrevista à Revista Macau, o curador principal, o português Delfim Sardo, conceituado estudioso de arte que conheceu a artista ainda em vida, afirma estar “muito satisfeito” com o formato da mostra. “A exposição cumpre completamente aquilo que nós tínhamos definido como objectivo: a apresentação do trabalho da Helena Almeida de uma forma ampla, indo desde peças mais recuadas do seu percurso até às últimas obras, correndo momentos essenciais do seu trabalho.”
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Delfim Sardo afirma estar confiante que, num mundo crescentemente intercultural e multicultural, a obra de Helena Almeida seja capaz de suscitar interesse junto dos diferentes públicos que visitam o MAM, incluindo do Interior da China. “O trabalho de Helena Almeida tem uma tal universalidade que muito facilmente as pessoas compreendem as suas grandes temáticas”, diz. “Todos temos corpo, todos habitamos espaços, todos lidamos com o outro. Estas são questões que fazem parte da existência humana, seja aqui, seja noutro sítio qualquer. Portanto, é muito comunicável o trabalho de Helena Almeida.”
O curador principal reconhece que preparar uma mostra desta dimensão exigiu esforço, até porque as obras patentes vieram de diversas proveniências, incluindo de museus portugueses e de colecções privadas. “É a primeira vez que esta exposição é montada. Ela foi concebida para o espaço do MAM”, sublinha.

Nas palavras de Delfim Sardo, ainda que a mostra permita ver “um reflexo da afirmação das segundas vanguardas na arte portuguesa durante a década de 1970”, o trabalho de Helena Almeida “é tão original e idiossincrático que, embora participando dos movimentos artísticos do seu tempo, tem especificidades que são únicas e que merecem ser vistas só por si”.
Promover paralelos
Margarida Saraiva, co-curadora da exposição e representante do MAM, explica que, desde 2017, o museu tem vindo a desenvolver um programa dedicado à visibilidade das mulheres na arte. Embora a colecção do MAM já inclua criações de grandes artistas portuguesas – como Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), cuja obra é a mais antiga de uma mulher artista presente no acervo do museu –, a inexistência de trabalhos de Helena Almeida no espólio do MAM “é particularmente significativa”, refere. “Esta exposição resulta, no fundo, da identificação dessa grande ausência.”
A co-curadora explica que a mostra se enquadra também numa nova filosofia para o MAM, procurando-se “produzir conteúdos originais” para o museu e estimular “um aprofundamento do diálogo entre a arte que trazemos cá, vinda de países europeus ou ocidentais, e a própria realidade local, não só de Macau, mas também do Interior da China”.
No seguimento desse diálogo intercultural, Margarida Saraiva revela que o MAM está a trabalhar numa outra retrospectiva de larga escala de uma artista portuguesa, desta feita Vieira da Silva, que será apresentada em diálogo com a obra da pintora chinesa Pan Yuliang (1895-1977), sua contemporânea. “A ideia é criar paralelos”, sublinha a representante do museu.
Usando a obra de Helena Almeida como pretexto, foram encomendadas obras inéditas a três artistas contemporâneas de Macau – Pang Yun, Wong Weng Io e Angel Chan On Kei – e a outras três do Interior da China – Min Han, Gao Fuyan e Sun Xiaoyu. Os 14 conjuntos artísticos concebidos surgem na secção “Ressonância” da exposição.

O co-curador Song Zhen, artista e docente na Escola de Arte Intermédia da Academia de Arte da China, desempenhou um papel de relevo na preparação dessa parte da exposição. Segundo explica, as obras comissariadas dão continuidade à reflexão de Helena Almeida sobre a relação “entre corpo, espaço e identidade”.
As artistas não foram seleccionadas ao acaso, nota Song Zhen. No caso do trio proveniente do Interior da China, trata-se de mulheres em cuja exploração artística anterior já eram visíveis ecos de aspectos também abordados por Helena Almeida. “Além disso, estavam disponíveis para novas explorações, para novos avanços nos seus percursos artísticos, o que valorizámos bastante.”
O co-curador refere o caso de Sun Xiaoyu. No vídeo que produziu para a exposição, decidiu incluir, pela primeira vez na sua obra, o próprio corpo, numa ressonância da prática artística desenvolvida por Helena Almeida.
Olhando para o conjunto da exposição, incluindo o contributo das artistas convidadas, Song Zhen afirma que “excedeu” as expectativas da equipa de curadores. “Esta exposição é, além de um tributo, também um diálogo.”


