Após uma temporada de silêncio, as muralhas da Pousada de São Tiago estão de novo a receber visitantes. A reabertura oficial do hotel-boutique deu-se no ano passado: entre os azulejos minuciosamente restaurados e as experiências gastronómicas, a gerência do espaço quer (re)inaugurar um novo capítulo no turismo patrimonial local
Texto Vitória Man Sok Wa
Fotografia Cheong Kam Ka
Localizada na zona da Barra, junto ao Templo de A-Má e ao Museu Marítimo, a Pousada de São Tiago ergue-se como testemunho vivo da história de Macau. Outrora fortaleza militar, o espaço procura de novo afirmar-se como hotel de charme, após um interregno que incluiu obras de renovação e um processo de reabertura que se concluiu no ano passado.
Numa altura em que a cidade procura diversificar a oferta turística, a gerência da Pousada de São Tiago diz à Revista Macau querer providenciar valor acrescido aos visitantes: a aposta de longo prazo é que o espaço se afirme como marco incontornável do turismo histórico e cultural de Macau. Num mercado hoteleiro cada vez mais competitivo, a singularidade da unidade de cinco estrelas reside na sua verdadeira “aura histórica”, é defendido.
Acresce a isso a exclusividade do espaço, com apenas 12 suítes. “Aqui não há o bulício dos centros comerciais, nem a pressa das avenidas modernas; há, sim… um espaço que convida ao afastamento da agitação quotidiana e a mergulhar na contemplação da cultura, da memória e do descanso da alma”, afirma a gerência.
Quatro séculos de história
O complexo militar que alberga hoje a Pousada de São Tiago foi construído em 1629, no local onde se encontrava anteriormente uma fortificação erigida em 1622. Situada no extremo sul da península de Macau, no sopé da Colina da Barra, o mar ficava-lhe em frente: no século XX, este afastou-se, devido à implantação de um aterro, no qual seria edificado há menos de uma década o Centro Modal de Transportes da Barra, onde está integrada uma estação do Metro Ligeiro.
Dotada com 16 canhões, a Fortaleza de São Tiago da Barra era uma das edificações militares mais importantes de Macau em termos estratégicos, pois controlava o acesso marítimo ao Porto Interior, formando uma importante barreira defensiva. Não por acaso, o seu comandante era nomeado directamente pelo Rei de Portugal, sendo a única fortaleza em Macau erigida por ordem régia.
No interior, além das instalações militares, destaca-se a Capela de São Tiago, construída em 1740. Ali repousa uma imagem do santo homónimo, patrono dos militares, envergando farda, espada e escudo em punho. A tradição oral acrescenta-lhe uma lenda: dizia-se que a estátua patrulhava a cidade durante a noite, regressando ao amanhecer, pois todas as manhãs as suas botas estavam enlameadas. Havia assim um soldado de serviço à imagem, para limpar-lhe a lama. Um dia, o militar terá faltado à incumbência e o castigo aplacou-se sobre ele, com a espada que o santo empunhava a cair-lhe na cabeça.

Com o passar do tempo, a fortificação foi gradualmente sendo reduzida na sua dimensão, para dar lugar a arruamentos na zona da Barra. Em 1976, a Fortaleza de São Tiago deixou de ser utilizada para fins militares. Poucos anos depois, em 1981, conheceu nova vida: adaptada a hotel-boutique de gestão privada, tornou-se uma referência local no campo da hospitalidade. O projecto de reconversão foi então distinguido pela Pacific Asia Travel Association (PATA) como um caso exemplar de reutilização de um edifício histórico.
A propriedade passou para a alçada do império empresarial do magnata Stanley Ho Hung Sun em 2004. Mais tarde, ficou sob o controlo de Angela Leong On Kei, quarta consorte de Stanley Ho e actual proprietária do espaço.
Em 2017, após mais de três décadas de funcionamento, a Pousada de São Tiago encerrou temporariamente e foi depois alvo de um projecto de renovação. O silêncio prolongou-se até ao fim de 2023, quando voltou a operar, ainda que a título experimental. Finalmente, em Janeiro do ano passado, as portas abriram-se em definitivo.
Património vivo, missão moderna
Segundo a gerência da Pousada de São Tiago, esta nova vida do espaço não se limita a devolver ao público um ícone patrimonial, mas vem antes acompanhada de uma estratégia, é dito em resposta escrita à Revista Macau: “Conservar a essência do património arquitectónico e, através de um design cuidado e de um serviço atento, conquistar o coração de uma nova geração de visitantes.”
A unidade ambiciona criar uma experiência inédita a nível local de turismo cultural, até porque não há em Macau qualquer outro edifício histórico do género reconvertido em hotel. “A Pousada preserva a autenticidade da sua arquitectura original, ao mesmo tempo que integra elementos de design contemporâneo, permitindo que os viajantes sintam a densidade da história, sem abdicar do conforto das comodidades modernas”, é sublinhado pela gerência.


A unidade hoteleira pretende oferecer uma experiência de turismo histórico e cultural aos seus hóspedes
Um dos objectivos é voltar a contar com os muitos clientes internacionais – maioritariamente oriundos de Hong Kong, Japão e Coreia do Sul – que ficavam alojados no espaço antes do encerramento temporário em 2017.
A renovação da Pousada de São Tiago foi um processo complexo. A Fortaleza de São Tiago da Barra está classificada pelas autoridades da Região Administrativa Especial de Macau como monumento, pelo que as obras exigiram um delicado equilíbrio entre a protecção do património e a resposta às exigências crescentes de conforto por parte dos turistas contemporâneos.
Neste percurso, foi essencial a colaboração com as autoridades locais, em particular com o Departamento do Património Cultural do Instituto Cultural. “Muitos detalhes da obra só puderam avançar graças às recomendações técnicas de especialistas, assegurando que a autenticidade da fortaleza não fosse comprometida”, sublinha a gerência da unidade hoteleira.
Sabores a passado e futuro
Se as muralhas contam histórias de batalhas passadas, na cozinha da Pousada trava-se hoje a batalha da criatividade gastronómica. À frente desse combate está o chef executivo Jonathan Dominguez, italiano com mais de 20 anos de experiência internacional – incluindo passagem por Portugal – e radicado em Macau há uma década. É a ele que cabe o comando culinário, com uma filosofia que resume o espírito da Pousada: “Honrar a herança do passado, guiando cada criação para a promessa do futuro.”

A seu cargo está o La Paloma, restaurante que cruza a herança portuguesa e influências macaenses com sabores mediterrânicos, sobretudo italianos, como o faz notar o forno exterior para confecção de pizzas artesanais. “Nunca confie em alguém que não gosta de pizza”, brinca Jonathan Dominguez, citando o avô.
O património gastronómico que o “La Paloma” construiu em Macau ao longo das últimas décadas não é esquecido. O chef recuperou a famosa “paella”, considerada por muitos o prato mais emblemático do restaurante antes de a Pousada ter encerrado em 2017. “A tradição dá-nos identidade; a inovação dá-nos direcção”, explica.
Para lá da cozinha, o chef diz gostar de desempenhar o papel de cicerone, particularmente a clientes que regressam, guiados pelas suas memórias do local. “Quase todos os visitantes locais trazem uma recordação de infância ligada a São Tiago – refeições em família, risos, momentos de felicidade. Saber que a cozinha que hoje criamos se inscreve nessa memória colectiva é algo que me inspira diariamente.”
Como anteriormente, a atmosfera serena da Pousada de São Tiago continua a ser procurada para a celebração de casamentos. “Quando um casal escolhe este espaço para o seu dia mais importante, inscreve o seu amor numa história que já dura há séculos. É como se o casamento se tornasse parte de algo eterno. Imagina poder dizer às novas gerações: ‘A tua trisavó casou aqui, neste jardim da Pousada de São Tiago.’ Só de pensar nisso, sinto arrepios de emoção”, diz o chef Jonathan Dominguez.


