Prestes a completar quatro décadas e meia em Macau, Rui Cunha é um nome incontornável do Direito, mas também um exemplo incomum de dedicação ao interesse público. Com um percurso ímpar, e depois de exercer funções em paragens tão distintas como Inhambane, Díli ou Moçâmedes, fixa-se em Macau, terra com a qual construiu a mais duradoura das afinidades e onde encontrou a maior das dádivas: dar sem nada esperar em troca
Texto Marco Carvalho
Nasceu, quase por casualidade, sob o sol equatorial de Bombaim, já a Segunda Guerra Mundial flagelava o mundo. Rui José da Cunha é fundamentalmente como português, talhado nas sete partidas do mundo, que se vê e se entende a si mesmo.
Estudava em Lisboa – cidade onde o sonho do Direito se entrelaçou com a paixão pela fotografia e pelo cinema. Em 1975, encontra-se no sul de Angola onde desempenha o cargo de juiz, depois de ter exercido funções como magistrado do Ministério Público em Portugal, Moçambique e em Timor-Leste.
Depois da experiência angolana, julgou o capítulo além-fronteiras encerrado, mas um telefonema às quatro da madrugada de um longínquo domingo de 1981 tudo mudou. Do outro lado da linha estava Stanley Ho Hung Sun, com quem viria a trabalhar 29 anos. É pela mão do magnata que se fixa em Macau e presencia, em 1999, a suave transferência da administração de Macau para a China. Impávido e sereno, Rui Cunha já há muito tinha feito da cidade parte fundamental da sua vida.

Caprichoso, o destino empurra Rui Cunha para Macau 12 anos depois do percurso do então jovem magistrado se ter cruzado pela primeira vez com a cidade. Em 1969, uma breve paragem em Hong Kong, no âmbito da longa e demorada viagem que o levou a Timor-Leste, proporciona-lhe um efémero vislumbre da cidade onde acabaria por se radicar.
Na intensa década que se seguiu, o mundo transfigurou-se, mas o vendaval da mudança ignorou Macau. Quando regressa, no Verão de 1981, Rui Cunha encontra uma cidade confrangida pela irrefreável marcha do tempo, à margem da modernidade. Nos anos que se seguiram, então na qualidade de consultor jurídico da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), Rui Cunha torna-se testemunha privilegiada dos processos de decisão que transformaram e modernizaram a cidade. A partir do Hotel Lisboa, onde Stanley Ho tinha o seu quartel-general, a empresa assume, em meados da década de 1980, um papel insofismável na modernização e no desenvolvimento económico de Macau.
“Diria que os dois centros de poder em Macau seriam o Palácio da Praia Grande e o Hotel Lisboa. O Stanley Ho dizia, ‘Logo à tarde vou lanchar com o governador’. Juntava os assistentes, levava uma série de questões e quando voltava dizia ‘Eis o que temos de fazer e o que não podemos fazer’. Todas as grandes mudanças em Macau saem do Hotel Lisboa e do Palácio da Praia Grande”, assinala o advogado.
O Hotel Lisboa e o Grand Lisboa, argumenta ainda, são também – e inquestionavelmente – exemplos perfeitos do vanguardismo de Stanley Ho que se tornaram ícones de Macau por mote próprio.
Os dois edifícios dividem opiniões, mas não deixam ninguém indiferente. A estreita língua de asfalto que os separa tornou-se ponto de romagem obrigatória para quem desagua em Macau. “O Hotel Lisboa é um ícone estranho, diferente, como o Stanley gostava de fazer e veio a fazer depois, ainda com maior magnitude, com o Grand Lisboa. São edifícios que fazem parar multidões naquela esquina, um mar de gente entre os dois prédios”, salienta o causídico. “Goste-se ou não da arquitectura, o Grand Lisboa marca Macau. É um ícone da cidade. Toda a gente que por aqui passa o fotografa”, acrescenta Rui Cunha.
Na penumbra do Grand Lisboa, indiferente às hordas de visitantes que assomam a Macau, o Clube Militar de Macau permanece um refúgio, sereno e acolhedor, no coração da cidade. Mas se ainda hoje é um incontornável ponto de encontro da comunidade é porque três mãos cheias de associados se uniram, em meados da década de 1980, para o resgatar de uma sorte anunciada. Rui Cunha fazia parte desse grupo.
“Em 1983, o Almirante Almeida e Costa, influenciado pelo então Chefe de Estado-Maior, quis fazer retornar o clube à sua vocação original. Quis acabar com o Clube e fazer com que o espaço regressasse às Forças de Segurança, para que servisse como cantina das Forças de Segurança. Era no Clube Militar que quem vinha de Portugal travava os primeiros conhecimentos e a decisão criou muitos pruridos”, recorda o veterano advogado.
“Se tal não bastasse, o Clube acumulava dívidas, perdia dinheiro e o Governador, naturalmente, fechou a torneira a eventuais subsídios”, conta Rui Cunha. Num ano, esse grupo de 15 pessoas deu a volta à situação. De largos milhares de dívida passámos a 120 mil patacas de lucro. O Clube Militar, ao qual estou ligado desde 1982, tem para mim uma relevância muito especial”, reconhece o causídico, ainda hoje presidente do Conselho Fiscal da organização.

Depois de percorrer as extensas savanas de Moçambique, de desbravar as íngremes montanhas de Timor-Leste e as dunas cor-de-ouro do Namibe, Rui Cunha não conseguiu iludir a consternação que as ruas estreitas e o casario compacto de Macau lhe causaram. A adaptação a Macau, reconhece, não foi fácil, nem expedita.
“Um dos grandes choques que senti foi a sensação de que estava fechado entre muros de betão. As paredes representavam a essência da cidade e aquilo a que eu estava habituado em África e, em certa medida, em Portugal, era muito diferente. Lá encontrávamos verde por todo o lado. Eu sentia a falta disso”, admite.
Em Macau, Rui Cunha combateu a angústia que a ausência de grandes espaços lhe causava com incursões regulares a Coloane: “Muitas vezes, depois de um dia muito atarefado, se chegasse a casa cansado, era capaz de pegar no carro, atravessar a Ponte [Nobre de Carvalho] e dar uma volta pelas ilhas. Ia até Coloane, parava em dois ou três sítios, a olhar, a ver, a sentir a Natureza.”
A maior das ilhas de Macau manteve-se como um lenitivo para o cansaço do corpo e para as ânsias da alma durante a década de 1980 e a primeira metade da década de 1990, altura em que os grelhados do ex-polícia Albino dos Reis Pirão atraíam ao alto da Estrada do Campo parte significativa da comunidade portuguesa de Macau.
“Em Coloane, onde está agora a antiga prisão de alta segurança, havia um barracão onde funcionava o Pirão. O Pirão era um polícia reformado que fazia grelhados à moda antiga, com a carne a ser preparada sobre um grande braseiro. A certa altura – meio a brincar, meio a sério –, dizia-se que o Pirão tinha mudado de nome para ‘Ilegal’, porque ele não tinha licença para ocupar aquele espaço. Mas comia-se muito bem”, conta Rui Cunha.
“Aos domingos, as pessoas iam lá em peso. Olhávamos para o lado e estava o chefe de Estado-Maior, o juiz, fulano e sicrano”, recorda. “A determinado momento, acabaram por convencer o homem a sair dali e ele abriu um espaço mais pequeno no bairro do Iao Hon, mas acabou por desaparecer pouco depois.”
Estreitada entre arranha-céus, a ténue curvatura da avenida remete, sem que muitos disso se apercebam, para uma realidade esbatida, com tanto de inimaginável, como de longínquo. O nome – Praia Grande – é hoje um equívoco consentido e já o era parcialmente quando Rui Cunha se radicou em Macau. No dealbar da década de 1980, a orla há muito tinha sido empurrada para longe das arcadas clássicas do que fora outrora a margem da cidade.
Elo inequívoco entre a Macau antiga e a urbe moderna, a artéria pulsa com uma centralidade indesmentível, ponto de passagem e de convergência para milhares de almas em transumância que partem à descoberta do casco antigo da cidade. É lá, a meio termo entre a Rua do Campo e a desembocadura da Avenida de Almeida Ribeiro, que Rui José da Cunha instala, em 2012, a sua maior obra.
“Em 2011, concluímos a aquisição do edifício onde o C&C Advogados estava instalado e foi essa compra que me permitiu idealizar tudo aquilo em que a Fundação se tornou: uma zona que agora é um centro de educação e a parte da galeria, com um espaço muito aberto para o exterior, de maneira a chamar a atenção. Fomos, desde então, adaptando as nossas actividades para que a Fundação se mantenha uma estrutura ao serviço das pessoas”, refere.
Instituída há quase uma década e meia, a Fundação Rui Cunha é uma referência incontornável do panorama artístico e cívico de Macau. É também um reflexo vibrante do rumo que o seu fundador procurou, desde cedo, incutir ao seu percurso.
“Quando avançámos para a criação da Fundação, decidimos fazer ao contrário de todas as outras fundações. Desde logo, decidimos que não íamos mendigar subsídios. Em vez de organizar eventos de três em três meses, decidimos promover diferentes iniciativas de três em três dias. Por fim, decidimos direccionar as nossas actividades para aqueles que mais necessitavam delas, os jovens de Macau”, elenca o veterano advogado. “A Fundação será, porventura, aquilo que melhor reflecte a minha personalidade, de às vezes ser mais dedicado aos outros do que a mim mesmo”, remata Rui Cunha.


