À mesa com Rui Rocha

Conversar à mesa é uma arte aprimorada ao longo de anos e que em Macau também se cultiva. Convidámos Rui Rocha, versão poeta, para um almoço japonês

 

 

Texto Hélder Beja

Fotos Carmo Correia

 

As línguas prestam-se aos melhores trocadilhos. Se não vejamos: tacho é uma palavra portuguesa que todos conhecemos e da qual sabemos o significado. Itacho, por sua vez, significa chefe de cozinha em japonês e é parte do nome do restaurante onde estamos para almoçar com Rui Rocha, director do Instituto Português do Oriente e poeta recentemente publicado.

É o Rui Rocha poeta que queremos sentar à mesa, para falar de livros, do seu livro, A Oriente do Silêncio, para falar do que lhe apetecer menos de trabalho. O Itacho Sushi, no piso térreo da Torre Macau, foi a escolha do convidado. “A comida é boa, o restaurante é barato e o lugar é óptimo.” Estávamos convencidos.

Comer num japonês faz todo o sentido neste caso – não só a cultura daquele país é um dos grandes interesses de Rui Rocha, a par da cultura chinesa, como o livro de poemas que acaba de publicar pela Esfera do Caos tem claras influências do haiku, a mais popular forma poética japonesa.

“Muitas vezes as pessoas julgam que a comida japonesa é só sushi e sashimi, mas há muito mais”, aponta Rocha. Depressa percebemos que o muito popular peixe cru não é o forte do nosso convidado. A comida, mesmo japonesa, vai melhor cozinhada. O okonomiyaki, uma “espécie de tortilha japonesa”, e o yakitori, o grelhado japonês, são duas alternativas apontadas por Rui Rocha. Desta vez a escolha acaba por ser uma sopa mizu, seguida de bife com gengibre, pickles japoneses, salada e arroz branco. Por agora.

Estamos servidos e depressa a conversa vai parar aos livros. Rui Rocha é um leitor de carreira, um homem que sempre viveu perto das bibliotecas. Hoje não tem muito tempo para dedicar à ficção, mas foi exactamente por aí que começou, ao ler O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, quando tinha apenas 12 anos. “Esse livro foi a primeira descoberta da Ásia”, diz. Não desta Ásia mas da Índia e de todo um território exótico.

Aos 15 anos, Rocha leu Le Bouddhisme Zen, de Alan Watts. Era um livro que haveria de influenciar de forma decisiva a beat generation de Jack Kerouack, Allen Ginsberg e companhia. Era o tempo da sua formação enquanto homem, o tempo da filosofia mas também da política e de aprender a ler a realidade. O Oriente ajudava-o a encontrar um certo equilíbrio, apesar de Rui Rocha não ser dado a misticismos.

Já vamos saboreando o bife bem temperado, com chá a acompanhar, quando o nosso convidado começa a falar da Dinastia Tang (618-907), de todas a que mais o fascina na História da China. A poesia Tang, em especial o poeta Wang Wei, foi também decisiva para o livro de Rui Rocha, que abre precisamente com um poema de Wang que não vem traduzido e que deixa propositadamente curiosos todos os que não sabem ler caracteres.

É certo que o período Tang foi de uma enorme riqueza no que toca à artes e à cultura. Mas isso também se reflectia na organização social. O código jurídico dos Tang, conta Rui Rocha, foi usado dos séculos VII ao XIV, sem nunca perder actualidade. A civilização chinesa estava então muitos passos à frente do mundo ocidental.

Do passado milenar da China, passamos para a vida portuguesa, viajando entre os dois mundos que preenchem as várias gerações da família de Rui Rocha e o seu próprio imaginário. Paramos em Miguel Real, escritor, pensador, homem que esmiúça os vazios da política quando a política é vazia. Nova Teoria do Mal (Dom Quixote) é o novo livro do autor e Rui Rocha recomenda o prefácio, por ser uma análise profunda da política lusa durante as últimas décadas.

A meio da refeição pensamos: como é que um homem tão dedicado aos factos, das origens da linguagem à História dos homens, consegue depois coser linhas poéticas como esta? “escrevi o teu nome / tantas vezes sobre o mar que, / exausto de tanto azul, ali ficou / deitado nas areias da praia / onde ainda repousa ao sol”. Porque a poesia vem de outro lugar, do lugar onde o hábito de escrever nunca desapareceu.

A Oriente do Silêncio é o primeiro livro de poemas que Rui Rocha publica mas “há muito mais coisas na gaveta”. Os que saíram da privacidade para as mãos dos leitores são poemas sobre a vida, sobre o que nos rodeia, sobre o amor. “Há uma parte do livro, os ‘contos da lua vaga’, que identifico com um segmento da minha vida privada, que é a minha vida afectiva.” A obra, assume o autor, tem “marcas dessa parte mais desconhecida” da sua vida.

O almoço prossegue com um sashimi de polvo, que Rui Rocha prefere ao de salmão e por isso não renega. A sobremesa não há-de ser comida aqui no Itacho, mas no piso inferior da Torre Macau, onde a padaria/pastelaria Patisserie é um dos segredos ainda bem guardados de Macau. Um pastel de nata e um café, à boa maneira portuguesa, para rematar uma conversa onde também entraram Herberto Hélder e Nuno Júdice, algumas das referências poéticas de Rocha. À mesa, os poetas também se entendem.