É uma das vozes mais sensíveis e atentas da Macau contemporânea. Poetisa, investigadora, cronista e antiga deputada, Agnes Lam possui uma capacidade rara de ler, para além do evidente, a cidade onde nasceu. Professora associada da Universidade de Macau, não se cinge aos monumentos e às ruas, mas procura abraçar as camadas de memória e de afectos que as habitam
Texto Marco Carvalho
Se o berço ditasse a sorte, Agnes Lam Iok Fong dificilmente teria chegado onde está hoje. Parte de uma família humilde e numerosa da Areia Preta, a agora docente da Universidade de Macau (UM) aprendeu desde muito cedo o valor do trabalho, numa infância desprovida de leveza. Mais do que acorrentá-la ao peso do destino, a experiência motivou-a, porém, a lutar por um fado diferente.
A actual directora do Centro de Estudos de Macau da UM construiu o seu percurso com talento, determinação e paixão, mas também com sacrifício. Começou a publicar poemas em jornais locais aos 13 anos, ingressou na UM em 1991 e, mais tarde, concluiu um mestrado e um doutoramento na Universidade Renmin, em Pequim. Pelo meio, apaixonou-se pela singularidade da história de Macau e fez do desígnio de deslindar e compreender a identidade única da cidade uma missão.

Mais do que um outro tempo, um outro mundo. Quando Agnes Lam nasceu, soltava a Primavera de 1972 as primeiras risadas, no lugar das descomunais torres que hoje riscam o firmamento, medravam na Areia Preta campos de cebolinho, leirões de coentros, espinafres d’água e um vasto rol de outras hortaliças e verduras. Entre o Iao Hon e a Ilha Verde, a terra – preciosa e escassa – estava esquartejada por um sem-fim de hortas e chácaras e foi nesse universo pastoral, de uma bondade mais imaginada do que real, que cresceu e se fez gente.
“A minha família cultivava vegetais e nós ajudávamos nas lides da terra desde muito cedo. Na altura do Ano Novo Chinês, era às crianças que cabia lavar o cebolinho antes de o levar ao mercado. A água gelada deixava-nos as mãos dormentes”, recorda.
Sexta de nove filhos, Agnes Lam cedo se habituou à carestia e à privação, mas também a olhar para o pouco que a vida lhe dava com uma esperança infinita. Aprendeu, nas granjas da Areia Preta, a não impor limites a si mesma e a transformar obstáculos em incentivos. Exigente, a infância moldou-lhe a alma. Inculcou-lhe a perspectiva de que, mesmo tendo nascido com as mãos na terra, tudo estava ao seu alcance.
“Acho que a perspectiva que tenho sobre a vida e sobre aquilo que podemos fazer com ela é na Areia Preta que tem raízes. Nunca coloquei limites ao que quer que seja e abomino aquela ideia de que certas pessoas só podem fazer certas coisas. Desde muito cedo que disse a mim mesma que poderia ser e poderia fazer o que quer que fosse”, sublinha Agnes Lam.
Liberal e tolerante, o pai – um lavrador esforçado que fazia biscates como taxista para sustentar a família – permitiu que todos os nove filhos frequentassem o ensino secundário. Aluna brilhante e dedicada, Agnes Lam deu por si a ambicionar horizontes cada vez mais largos e a fazer do acesso à universidade uma forma de redenção pessoal.
Um acidente vascular cerebral atirou o pai para uma cama e quase lhe trocou as voltas. Incansável, a jovem chorou, trabalhou e lutou, mas, em Setembro de 1991, tornou-se a primeira da sua família a entrar no ensino superior. A então Universidade da Ásia Oriental, antecessora da Universidade de Macau, tornou-se uma tábua de salvação, mas também um abrir de olhos e uma porta aberta para a autognose.
Foi na universidade que, pela primeira vez, ouviu falar da história de Macau, da importância secular como ponte entre culturas e do papel pioneiro que teve em domínios tão distintos como o intercâmbio científico ou o exercício do jornalismo.
“Só depois de me ter licenciado, quando estava a preparar o mestrado, ouvi falar no ‘A Abelha da China’. Li um livro, intitulado ‘História do Jornalismo na China’ e uma passagem chamou-me a atenção: ‘O primeiro jornal estrangeiro na história da China é o Abelha da China e foi publicado em Macau’. Desconhecia esse facto por completo”, conta a docente. “Foi a partir desse momento que comecei a sentir um forte desejo de aprender mais sobre a história de Macau”, confessa.
Foi na UM que o seu interesse pela identidade multicultural única e pela complexidade da história de Macau despertou e ganhou contornos sistemáticos. A curiosidade levou-a a estudar português, a completar um mestrado no Interior da China e, mais tarde, a regressar à sua alma mater como professora. “Apercebi-me de que a história de Macau era complexa e intrincada e de que há um sem-fim de aspectos sobre os quais pouco ou nada se sabe. Estas coisas são importantes para nós, mas também para o resto do mundo, para toda a Humanidade”, assume a académica.
Hoje, como directora do Centro de Estudos de Macau, Agnes Lam continua a aprofundar o seu entendimento sobre a cidade e sobre a forma como ajudou a mudar o mundo. A UM foi fundamental para a sua concretização profissional, mas ofereceu-lhe algo ainda mais importante: dotou-a da consciência de que ser de Macau não é apenas nascer na Areia Preta ou no Tap Seac; é compreender profundamente a singularidade da cidade.
Convivência harmoniosa. Se há aspecto em que Macau pode dar lições ao mundo, argumenta Agnes Lam, é na coexistência pacífica entre religiões e culturas. A Rua do Seminário, defende a académica, é um dos locais que melhor captura essa ênfase peculiar do espírito da cidade.
Entalada entre a Rua da Alfândega e a Rua da Prata, a artéria é como que um cordão umbilical que coloca em contacto os mundos do catolicismo e do budismo. Do lado católico, o Seminário de São José, historicamente destinado à formação de rapazes, sobrevive imponente. Quase em frente, o templo de Kong Tac Lam, que outrora acolhia uma comunidade monástica feminina, ilustra na perfeição os argumentos de Agnes Lam e a notável capacidade de Macau de permitir que Oriente e Ocidente coexistam lado a lado, sem exclusão.
“É uma rua cheia de histórias. De um lado tínhamos o seminário católico e do outro o mosteiro budista. No seminário, apenas estudavam rapazes; no mosteiro, raparigas. Sempre que visito aquela zona não consigo deixar de me interrogar: ‘Será que houve histórias de amor das quais nada sabemos entre os estudantes de ambas as instituições?’”, atira a antiga jornalista.
A proximidade com outras zonas históricas, como o Largo do Lilau ou a Casa do Mandarim, reforça a ideia. Vivendas de estilo português e casas chinesas tradicionais sobrepunham-se, criando um tapete urbano onde o cruzamento entre o Oriente e o Ocidente não era apenas um lugar-comum, mas uma realidade pujante e viva.
“Há imensos lugares em Macau onde o Oriente e o Ocidente se cruzam. O que vemos nesses locais é que as sombras de ambas as culturas se interceptam. Se permanecermos muito tempo na sombra, conseguimos discernir a luz. As sombras convergem e delas emerge algo autêntico e novo”, sustenta Agnes Lam.
Da penumbra do encontro de culturas, argumenta a docente, surge uma luz própria. É nesse espaço intermédio, onde as tradições se tocam e influenciam, que nasce algo inédito e singular: a identidade de Macau.

Um sumptuoso símbolo da transmutação de Macau. O Edifício-sede dos Correios de Macau, nas faldas do Largo do Senado, ocupa um lugar especial no coração e na memória de Agnes Lam. Muitas vezes subestimado, a investigadora da UM vê nele uma poderosa metáfora da história e da alma da cidade.
Num dia de um longínquo Verão, Agnes Lam examinou a sua estrutura e viu nela a forma de um grande navio ancorado, uma caravela portuguesa que, depois de longas viagens pelos mares, ali atracou definitivamente. Poética, a imagem – os Correios como uma embarcação carregada de memórias, de narrativas de viagens e, sobretudo, de amor pela terra que a acolheu – ficou-lhe inculcada na mente deste então.
“Escrevi um artigo sobre o edifício porque, na minha forma de ver as coisas, parece-me que carrega muita memória e muita afeição. Comparei-o a um barco que deixou de poder navegar e ancorou ali, em pleno coração da cidade”, recorda. “É uma metáfora quase tão poderosa como a da água do Lilau. Quem bebe da água do Lilau, jamais esquece Macau, apaixona-se pela cidade e não quer partir. Penso que é uma metáfora fantástica”, argumenta Agnes Lam, poetisa publicada e premiada, vencedora do Prémio de Literatura de Macau em 1999.
Na sua pacífica monumentalidade, o edifício simboliza os que ancoraram. Todos quantos permaneceram se enraizaram e contribuíram para a construção de uma cultura excepcional, diz Agnes Lam, para quem o edifício é muito mais do que arquitectura. É um símbolo inescapável da transformação de Macau, de lugar de passagem a lar definitivo. Uma melancólica alegoria que captura a essência de uma cidade onde muitos desaguaram por acaso ou dever e alguns escolheram ficar por amor.


