De uma pequena instituição criada no início da década de 1980, a Universidade de Macau transformou-se numa instituição pública com forte aposta na investigação científica e projecção internacional. Em entrevista à Revista Macau, o vice-reitor para os Assuntos Globais, Rui Martins, recorda os principais momentos desta evolução, destaca o reforço das ligações aos países de língua portuguesa e aborda os planos de expansão
Texto Nelson Moura
Fotografia Leong Sio Po
A Universidade de Macau celebra este ano o seu 45.º aniversário. Como evoluiu a filosofia educativa da instituição ao longo dos anos?
A Universidade de Macau foi criada em 1981 por empresários de Macau e de Hong Kong, numa altura em que não existia qualquer instituição de ensino superior [na cidade]. Estes reuniram-se e solicitaram autorização às autoridades locais para estabelecer o que viria a ser a Universidade da Ásia Oriental.
Na altura, os residentes de Macau iam estudar para Portugal, Estados Unidos, Inglaterra ou Hong Kong, enquanto as universidades no Interior da China ainda não estavam tão desenvolvidas.
Inicialmente, a maior parte dos alunos era proveniente de Hong Kong, e existiam programas de ensino ao fim-de-semana ou durante o Verão, sendo que as aulas apenas se tornaram mais regulares em meados da década de 1980, quando foram criados programas nas áreas das Ciências Sociais e da Gestão, com licenciaturas de três anos.
Em 1987, foi assinada a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa, que marcou um período de transição de 12 anos. Tornou-se necessário formar profissionais locais capazes de assumir funções que poderiam surgir após a transferência de administração, em 1999, especialmente tendo em conta a saída de muitos portugueses da administração pública e de empresas de Macau.
Foi neste contexto que, em 1988, o governo, em conjunto com a Fundação Macau, adquiriu a Universidade da Ásia Oriental e começou a oferecer um curso de Direito em colaboração com a Universidade de Coimbra. Mais tarde, por volta de 1989, foram criadas duas faculdades: a Faculdade de Ciência e Tecnologia, com programas de Engenharia; e a Faculdade de Ciências da Educação. Os restantes programas passaram também a ser organizados em faculdades.
Neste contexto, como é que se desenvolveu a oferta académica da instituição?
Com a chegada do último governador português, Rocha Vieira, em 1991, foi oficialmente criada a Universidade de Macau. Iniciou-se então um período de formação intensiva de quadros locais para o futuro da região, tendo também aumentado significativamente o número de estudantes locais.
Os programas académicos foram igualmente reestruturados e as licenciaturas passaram a ter quatro anos. Em meados da década de 1990, começaram a ser introduzidos programas de mestrado e, posteriormente, de doutoramento. Nessa altura, a universidade passou a integrar o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. As principais licenciaturas e mestrados passaram a ser reconhecidos por Portugal e pela União Europeia.
Em 1999, deu-se a transferência de administração de Macau para a República Popular da China. Nessa altura, a universidade tinha cerca de três mil alunos e apenas um número reduzido de estudantes de doutoramento, uma área que estava ainda em fase inicial. Durante esse período, foi também desenvolvido um esforço para formar docentes locais que pudessem assumir posições de professor auxiliar, já que até então a universidade dependia sobretudo de professores convidados do exterior, vindos do Interior da China, de Portugal e de outros países.
Com a criação da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), a universidade continuou a desenvolver-se. Foi criada uma lei específica para a instituição e reforçou-se a aposta na investigação científica, além do ensino. A universidade começou, assim, a afirmar-se cada vez mais como uma instituição com vocação regional, atraindo também estudantes do Interior da China, especialmente da província de Guangdong.
A universidade funcionava num campus situado numa colina na Taipa. Em 2009, foi tomada a decisão de transferir o campus para Hengqin e a construção do novo campus foi concluída em 2014.
Durante esse período, foram também criados colégios residenciais para os estudantes de licenciatura, num modelo semelhante ao existente em universidades do Reino Unido.
O orçamento da universidade aumentou significativamente, bem como o envolvimento em investigação científica e transferência de tecnologia.
Foram também criadas novas faculdades: primeiro, a Faculdade de Ciências da Saúde, e, posteriormente, a antiga Faculdade de Ciências Sociais e Humanas foi dividida em duas: a Faculdade de Ciências Sociais e a Faculdade de Letras.
Actualmente, a universidade conta com cerca de 17 mil estudantes, aproximadamente metade em licenciatura e metade em programas de mestrado e doutoramento.
Quantos docentes trabalham actualmente na universidade?
Neste momento, devemos ter cerca de 900 docentes. Com a abertura do novo campus [na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau] em Hengqin, prevê-se que venham a juntar-se mais cerca de 500 professores.
Referiu vários marcos ao longo destes 45 anos. Há algum outro que gostaria de destacar?
Na área da electrónica, por exemplo, os primeiros doutoramentos foram realizados em regime de duplo grau com o Instituto Superior Técnico [em Lisboa].
A partir daí, a investigação desenvolveu-se rapidamente. Em 2011, foram aprovados os dois primeiros Laboratórios de Referência do Estado em Macau: um na área da medicina tradicional chinesa e outro na área da microelectrónica. Estes laboratórios […] são aprovados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e avaliados de três em três anos.
Actualmente, existem cerca de 200 destes laboratórios em toda a China. Em Macau, não existia nenhum e Hong Kong já tinha oito. A criação dos dois primeiros, em 2011, foi, por isso, muito significativa.
Mais tarde foi criado um terceiro laboratório, na área da Internet das Coisas e Cidades Inteligentes, em 2018. Considero que estes são marcos importantes no desenvolvimento da universidade.
A Universidade de Macau é hoje uma instituição local com projecção global. Qual foi o ponto de viragem para essa internacionalização?
Trata-se de uma universidade baseada em Macau, mas com um âmbito regional, nacional e internacional. Desde meados da década de 1990, recebemos estudantes de países africanos de língua portuguesa, apoiados por bolsas da Fundação Macau. Com o crescimento da universidade, aumentou também a capacidade de atrair estudantes internacionais.
Actualmente, temos cerca de 400 estudantes internacionais em regime de tempo inteiro, provenientes de vários países da Europa, da Ásia, dos Estados Unidos e do Brasil. Entre estes, cerca de 80 são oriundos de países de língua portuguesa, sobretudo Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste.
Existe um plano de recrutamento internacional, principalmente para programas de mestrado, que oferece bolsas bastante atractivas. O objectivo é atingir cerca de mil estudantes internacionais nos próximos dois ou três anos, portanto, excluindo estudantes de Macau e do Interior da China.

Qual é a importância da ligação aos países de expressão portuguesa?
Temos dado sempre atenção a essa ligação. Desde a criação, em 2003, do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, em Macau, o número de estudantes desses países tem aumentado gradualmente.
Além das bolsas da Fundação Macau, a universidade criou também bolsas próprias para estudantes internacionais, sobretudo ao nível do mestrado. Prevemos que, no próximo ano lectivo, o número de estudantes provenientes de países de língua portuguesa ultrapasse os 100.
Esta estratégia está alinhada com a política de Macau e com o papel da cidade como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa.
Temos também acordos de duplo doutoramento com universidades em Portugal – como a Universidade do Porto, a Universidade de Lisboa e a Universidade de Coimbra – e no Brasil, nomeadamente com a Universidade de São Paulo e a Universidade Federal do Rio de Janeiro.
E quanto à cooperação com universidades do Interior da China e de Hong Kong?
Temos uma cooperação muito ampla com universidades de topo do Interior da China e de Hong Kong. Fazemos parte de um grupo restrito conhecido como “C9+3”, que inclui as nove universidades mais prestigiadas da China, como a Universidade de Pequim, a Universidade Tsinghua e a Universidade de Zhejiang, bem como instituições de Hong Kong. Somos a única universidade de Macau neste grupo.
Mantemos programas de intercâmbio de estudantes e programas conjuntos de licenciatura, mestrado e doutoramento com várias destas universidades.
A investigação científica tornou-se uma componente central da universidade. Como pretendem reforçar o papel da instituição neste domínio?
A universidade tem três missões fundamentais: ensino, investigação e serviço à comunidade, incluindo a transferência de tecnologia.
Actualmente, publicamos cerca de cinco mil artigos científicos por ano em revistas académicas. A qualidade e o impacto destas publicações têm vindo a aumentar significativamente.
Neste momento, temos 16 áreas de investigação classificadas no top 1 por cento mundial, incluindo engenharia, ciência dos materiais, ciências computacionais e biologia.
Desde 2018, temos também promovido a criação de spin-offs. Actualmente, existem cerca de 70 empresas criadas a partir da universidade. Um exemplo é a DigiFluid, fundada por dois antigos estudantes, que actualmente emprega cerca de 100 pessoas.
Já arrancou a construção do segundo campus da universidade na Zona de Cooperação. Como irá funcionar este novo pólo?
A construção do novo campus começou em Dezembro de 2025, com duas empresas responsáveis pelas obras, na parte ocidental da Zona de Cooperação. No entanto, a universidade já iniciou operações nesse local em Agosto do ano passado.
Começámos por lançar vários programas de mestrado, nomeadamente na minha área da electrónica, bem como nas áreas de ciência de dados e “FinTech”, que já contam com cerca de 200 estudantes. Neste momento, utilizamos dois andares arrendados num edifício onde estes cursos estão a funcionar, e que continuarão a ser oferecidos no futuro campus.
Em Agosto deste ano, iremos iniciar novos programas, que não funcionarão nesse edifício temporário, mas numa zona localizada junto à fronteira. Estes programas serão posteriormente transferidos para o novo campus. Estimamos que, nessa fase, o número de estudantes [nos novos programas] atinja cerca de 800.
A operação plena do novo campus deverá começar por volta de 2028. Nesse espaço serão criadas quatro faculdades: a Faculdade de Medicina, a Faculdade de Design e Arquitectura, a Faculdade de Engenharia e a Faculdade de Ciências da Informação e Computação.
O novo campus será sobretudo dedicado às áreas da ciência e tecnologia, enquanto o campus actual continuará mais focado nas ciências sociais e humanas.
A Universidade de Macau continuará a ser uma única instituição, mas com dois campus e dez faculdades. Ambos funcionarão sob o mesmo Senado Universitário e o mesmo Conselho da Universidade, e os programas oferecidos em Hengqin serão programas de ensino superior de Macau, e não do sistema de ensino superior do Interior da China.
Este modelo é relativamente original. Algumas universidades de Hong Kong têm campus no Interior da China, mas, nesses casos, trata-se de instituições juridicamente independentes, embora associadas à universidade-mãe. Os programas seguem o sistema do Ministério da Educação da China. No nosso caso, trata-se de uma única universidade com dois campus integrados.
Em termos de gestão, a universidade tem actualmente um reitor e cinco vice-reitores. No futuro prevê-se a criação de um sexto vice-reitor, que ficará sediado na Zona de Cooperação, mas participará igualmente na gestão da universidade em Macau.
Os docentes e estudantes terão também residências no novo campus. Está prevista a construção de uma ponte na zona sul do campus, que permitirá a circulação entre os dois campus.
Quais são os planos de contratação de docentes com esta expansão?
O corpo docente continuará a crescer como tem acontecido até agora. O recrutamento é internacional para todas as posições. O nosso objectivo é seleccionar sempre os melhores candidatos e aqueles que melhor se adequem aos objectivos da universidade.

