Universidade de Macau

Entre línguas e mundos, uma ponte para o português

A UM desempenha um papel pioneiro no domínio dos estudos avançados em língua portuguesa

Texto Nelson Moura

Ao longo de mais de quatro décadas, a Universidade de Macau (UM) tem vindo a afirmar-se como um dos principais pilares na formação de talentos em língua portuguesa na Ásia. Durante estes anos, a instituição construiu uma reputação sólida que ultrapassa largamente as fronteiras de Macau, alcançando o Interior da China, incluindo a dinâmica região da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.

Para João Veloso, director do Departamento de Português da Faculdade de Letras da UM, o reconhecimento é hoje inequívoco. A universidade ocupa um lugar singular no panorama académico asiático, não apenas pela longevidade, mas pela consistência de um projecto educativo que soube evoluir com o tempo.

A UM “continua a ser, em toda a China e mesmo no contexto asiático, a instituição com a oferta mais diversificada de formação graduada e pós-graduada em português”, sublinha João Veloso.

É precisamente no domínio dos estudos avançados que a instituição se distingue de forma mais evidente. Os programas de mestrado e doutoramento em Estudos Portugueses têm formado sucessivas gerações de investigadores, docentes e especialistas. Muitos deles seguem depois para universidades do Interior da China, levando consigo não apenas o domínio da língua, mas também uma visão académica consolidada.

Além da vertente do ensino-aprendizagem, o português faz parte da vida institucional da universidade – em cerimónias, documentos oficiais e materiais promocionais – e estende-se a outras áreas do saber, como o Direito, onde a tradição jurídica em língua portuguesa continua a ter relevância, afirma João Veloso.

Um elo entre mundos

Num contexto global em transformação, a procura por profissionais capazes de navegar entre culturas e idiomas tem vindo a crescer. A UM tem respondido a esse desafio, ampliando a sua oferta formativa e reforçando o seu papel como plataforma de ligação aos países de língua portuguesa.

“Podemos dizer com toda a certeza que a universidade coloca à disposição da comunidade todos os recursos que tem e que procura receber o maior número possível de alunos para depois devolver à sociedade um número considerável de diplomados”, explica João Veloso.

Mais do que formar em quantidade, a prioridade passa agora pela qualidade. “Não basta só ter muitos talentos bilingues […] o passo seguinte consiste em triar, de entre os milhares de diplomados nesta área, os bons talentos bilingues, apostar mais um pouco na qualidade e não só na quantidade”, sublinha.

O objectivo é claro: formar profissionais capazes de responder às exigências de um mercado globalizado, onde a competência linguística deve caminhar lado a lado com o rigor académico.


A UM continua a ser, em toda a China e mesmo no contexto asiático, a instituição com a oferta mais diversificada de formação graduada e pós-graduada em português”

JOÃO VELOSO
DIRECTOR DO DEPARTAMENTO DE PORTUGUÊS DA FACULDADE DE LETRAS DA UM

Nesse sentido, a aposta na internacionalização tem sido determinante. Parcerias com universidades de países como Portugal e Brasil permitem a estudantes e investigadores um contacto directo com centros de excelência, promovendo o intercâmbio de conhecimento e a criação de redes académicas duradouras.

“É importante que o trabalho que se faz e o ambiente que se vive nessas instituições seja mais conhecido e que integre mais profissionais de Macau e do Interior da China”, realça João Veloso, acrescentando que congressos internacionais organizados pela universidade têm desempenhado um papel importante na criação de redes de cooperação entre especialistas chineses e estrangeiros.

Um “viveiro” de especialistas

O impacto da UM faz-se sentir de forma particularmente clara no sistema universitário chinês, destaca João Veloso. Em muitas instituições, os responsáveis pelos cursos de português partilham uma origem comum: passaram pelas salas da instituição de Macau. “Em praticamente todas elas, registo que os professores mais graduados, os directores de departamento, os directores de curso desses programas são, em geral, antigos alunos de mestrado e/ou doutoramento da UM”, conta.

A constatação tornou-se recorrente nas visitas académicas de João Veloso pelo País. Daí a expressão, dita com um misto de humor e precisão: a universidade funciona como uma verdadeira “fábrica” de professores de português na China. Uma imagem que traduz bem o seu papel estruturante na consolidação do ensino da língua no País.

Mas os caminhos dos diplomados não se esgotam na academia. Muitos encontram lugar na comunicação social, na tradução, no comércio internacional e em múltiplos sectores ligados ao universo dos países de expressão portuguesa.

Apesar dos avanços, persistem desafios. Um deles prende-se com as expectativas de alguns estudantes, que chegam a Macau à procura de uma imersão linguística total. A realidade, porém, é mais complexa: o uso quotidiano do português na cidade é mais limitado do que muitos antecipam.

Por isso, a aprendizagem exige iniciativa, salienta João Veloso. Participar em eventos culturais, integrar actividades académicas ou procurar contextos onde a língua ainda se faz ouvir são passos essenciais para aprofundar competências. “Os alunos devem ser estimulados para irem à procura de lugares e situações em que ainda se use bastante o português”, diz.

Outro obstáculo surge com a crescente dependência de ferramentas automáticas de tradução. Embora úteis, nem sempre garantem qualidade. Para o académico, o futuro passa por desenvolver um olhar crítico e uma responsabilidade individual sobre o uso da língua, uma competência indispensável para quem pretende trabalhar profissionalmente com o português.

A UM é um dos principais centros na Ásia de formação académica na área do português

A internacionalização e a aposta contínua na excelência surgem como caminhos inevitáveis, refere João Veloso. “Na própria etimologia da palavra ‘universidade’ está esta abertura ao mundo”, observa, referindo que, sem essa ligação global, o risco é perder relevância num cenário académico cada vez mais competitivo.

Histórias que dão rosto à experiência

Para além dos números e das estratégias institucionais, são as experiências individuais que melhor ilustram o impacto da UM como espaço de formação multicultural e como plataforma para o contacto com as nações de expressão portuguesa. Para muitos, a instituição oferece não apenas o ensino da língua, mas também um ambiente académico e social que favorece a integração e o desenvolvimento profissional.

Vinda da Bahia, a brasileira Gabriela Rorato encontrou na UM mais do que um destino académico: descobriu um espaço de pertença. Chegou, em 2023, para um semestre de intercâmbio, mas a experiência foi suficientemente marcante para a levar a regressar a Macau para prosseguir estudos pós-graduados em Comunicação.

Em destaque, para a estudante, está o ambiente vivido fora das aulas e, claro, a singularidade de Macau: uma cidade onde a herança portuguesa e a cultura chinesa coexistem de forma única.

“Voltei ao Brasil e candidatei-me ao mestrado. Hoje estou no último semestre e não me arrependo da minha escolha e sou muito feliz a estudar aqui”, conta Gabriela Rorato. “Eu gosto das oportunidades que a universidade oferece. Não só aprendemos na sala de aula, mas também nos grupos, clubes e no dormitório, participando em eventos e integrando-nos na comunidade.”

A presença de estudantes provenientes de países de língua portuguesa reforça o ambiente multicultural da universidade. Magne Dina Neves, natural de Moçambique, frequenta a licenciatura em Engenharia Electrotécnica e de Computadores e vê Macau como um ponto de encontro entre geografias.

“Eu escolhi Macau por conta do histórico sino-português e principalmente pela sua localização estratégica e por ser um elo entre a China e os países falantes da língua portuguesa”, explica.

Na sua opinião, a UM destaca-se também pela qualidade da investigação e das infra-estruturas académicas. “A universidade está muito bem posicionada no que diz respeito às pesquisas e aos avanços académicos de última geração e, como estudante de engenharia, este ambiente é muito encorajador para a minha vida académica e profissional.” A estudante sublinha ainda o impacto das condições de ensino na sua formação: “Os laboratórios são altamente equipados, o que permite aliar a teoria à prática de forma muito eficaz.”

Uma visão partilhada por Steven Chen, oriundo de Zhongshan, na província de Guangdong. Para o também estudante de Engenharia Electrotécnica e de Computadores, foi precisamente essa posição estratégica de Macau, como ponte entre a China e os países de língua portuguesa, que tornou a escolha evidente. Entre aulas, actividades extracurriculares e a vitalidade urbana, descreve uma experiência que está longe de ser monótona.

“A universidade proporciona diversas actividades extracurriculares, como desporto e actividades lúdicas. A cidade é muito vibrante e tem sempre actividades novas e entusiasmantes que tornam a experiência em Macau tudo menos aborrecida”, conclui Steven Chen.