Nas montanhas de Sichuan, o chá é mais do que uma bebida: é cultura e modo de vida, enformado por tradições milenares que mesclam costumes e povos
À chegada a Sichuan, terra fértil abraçada por montanhas, não é apenas a imponência das paisagens naturais que deslumbra o viajante, mas também a tradição milenar do chá. Reconhecida como um dos berços da cultura do chá na China, a província possui mais de três mil anos de história de cultivo e consumo do produto, sendo também o ponto de partida da “Antiga Rota do Chá e dos Cavalos”.
Situada na orla oeste da bacia do rio Sichuan, a Montanha Mengding é conhecida historicamente como o principal ponto de produção de chá na região. Envolta em neblina e abençoada com um clima ameno, oferece condições ideais para o cultivo da prestigiada variante Mengshan. A reputação do produto atravessa séculos: desde o primeiro ano da era Tianbao, na Dinastia Tang (equivalente ao ano 742 d.C.), e por mais de um milénio, ao longo de cinco dinastias, este chá serviu como tributo imperial.
Trata-se de um tipo de chá verde, cuja produção passa por uma sequência rigorosa de etapas, desde a colheita até à torrefacção. O resultado é uma bebida de aparência refinada, cor viva e brilhante, aroma intenso e sabor suave e adocicado, apreciada não apenas pelo paladar, mas também pelos seus benefícios para a digestão.
O chá como ponte cultural
Se o chá de Mengshan representa a delicadeza associada à bebida em Sichuan, a “Antiga Rota do Chá e dos Cavalos” carrega consigo uma narrativa histórica diferente. Com origem na localidade de Ya’an, na zona ocidental da província, esta antiga via não era apenas uma rota de mercadorias, mas um corredor económico e cultural que ligava as planícies centrais chinesas ao Tibete e, mais além, ao Sul da Ásia.
A partir da dinastia Tang (618–907 d.C.), a rota foi-se consolidando como via privilegiada para o comércio de chá proveniente de regiões habitadas pela etnia Han, em troca de cavalos do planalto tibetano. Entre montanhas e desfiladeiros escarpados, por caminhos estreitos e irregulares, grupos de carregadores e caravanas de cavalos abriram, a muito custo, esta rota lendária de mais de quatro mil quilómetros. O produto mais precioso que transportavam era o chamado “Chá da Rota do Sul”, também conhecido como “chá tibetano”, um tipo de chá preto fermentado proveniente de Sichuan.

Para suportar as longas jornadas, as folhas eram comprimidas em blocos ou discos. Ao longo dos meses de transporte, o produto era repetidamente molhado pela chuva e depois seco por acção do sol, passando por um processo de fermentação natural que lhe conferia um sabor encorpado e suave, tornando-o adequado a infusões prolongadas.
Ao chegar ao planalto tibetano, o chá era misturado pelas populações locais com manteiga de iaque, sal e às vezes nozes. Era depois batido até formar o cremoso chá de manteiga.
Fonte de calor e nutrientes, essenciais em condições de frio e baixa oxigenação como aquelas que caracterizam o planalto tibetano, a bebida tornou-se parte fulcral do quotidiano local. O ditado popular tibetano “mais vale passar três dias sem comida do que um dia sem chá” evidencia a importância dada à bebida no Tibete.
A “Antiga Rota do Chá e dos Cavalos” não se limitava ao transporte de mercadorias. Promoveu também a interacção entre diversos povos do sudoeste da China – Han, tibetanos, Yi, Qiang e outros grupos étnicos –, favorecendo a integração linguística, religiosa e de costumes.
Dos campos à chávena
Uma viagem turística a Sichuan não fica completa sem a participação numa experiência ligada à produção de chá. Nas plantações que cobrem a Montanha Mengding, em sucessivos socalcos, é possível aos visitantes acompanhar os agricultores locais e aprender como seleccionar e colher as folhas frescas de chá. Já nos ateliers tradicionais, pode-se acompanhar etapas como a torrefacção e o enrolamento das folhas; e, em vetustas casas de chá em Chengdu, é possível ainda hoje provar uma chávena recém-preparada de Mengding Ganlu, a variedade mais prestigiada da região, enquanto se aprecia uma peça do famoso teatro de máscaras de Sichuan.
Também é possível visitar estações associadas à “Antiga Rota do Chá e dos Cavalos”, além de museus focados nas caravanas que percorriam esta via. Tudo para conhecer melhor o auge desta tradição comercial e a intensa troca cultural que estimulou entre diferentes grupos étnicos.
Texto extraído da edição n.º 130 da coluna especial “Um Vislumbre da Cultura Chinesa”, iniciativa do Macao Daily News em colaboração com o Diário de Notícias


