O Museu de Arte de Macau acolhe, até 11 de Outubro, a mostra “Contemplações Oriente-Ocidente: Retrospectiva de Mio Pang Fei”. A propósito da exposição, a Revista Macau esteve à conversa com quem partilhou o quotidiano com o pintor, num perfil que cruza a sua trajectória artística com o seu legado familiar e pessoal
“O atelier, onde [Mio Pang Fei] passava horas e horas a trabalhar, era quase uma extensão da casa… Na altura, naturalmente, não tinha consciência da dimensão do seu percurso artístico. Para mim, era simplesmente o meu avô a pintar.”
A recordação faz parte das memórias familiares de Afonso Biscaia, neto do pintor.
“A imagem mais viva que tenho dele é no atelier, completamente concentrado, rodeado das suas obras. Ainda hoje, quando vejo fotografias desse espaço, transportam-me imediatamente para esses momentos”, diz, em declarações à Revista Macau.
A exposição “Contemplações Oriente-Ocidente: Retrospectiva de Mio Pang Fei”, patente no Museu de Arte de Macau (MAM) até 11 de Outubro, termina exactamente com uma reconstituição do estúdio do artista. O espaço, acompanhado de fotografias raras, de filmagens documentais e de uma linha cronológica detalhada, foi recriado com ajuda da filha de Mio Pang Fei, a também artista Cristina Mio U Kit, co-curadora da mostra.

A iniciativa serve para celebrar o 90.º aniversário do nascimento do artista, falecido em 2020, abordando desde os seus primeiros anos em Xangai até ao florescimento criativo em Macau. Estão patentes 90 obras, numa paleta que cobre pinturas e obras utilizando técnicas mistas, além de instalações e manuscritos.
“Brilhante, inovador e pioneiro”
A exposição foi elaborada com co-organização do Círculo dos Amigos da Cultura de Macau (CAC). O grupo foi uma das plataformas utilizadas por Mio Pang Fei na sua afirmação artística.
Criado em 1985, o CAC contou como fundadores os artistas locais Carlos Marreiros, Victor Hugo Marreiros, Ung Vai Meng e Kwok Woon, além do próprio Mio e da esposa, a pintora Un Chi Iam, falecida este ano. Através da promoção de uma exploração inovadora das linguagens visuais, desempenhou um papel vanguardista na cena artística contemporânea da cidade.
Nas palavras do amigo Carlos Marreiros, presidente do CAC, a homenagem a Mio Pang Fei através da retrospectiva no MAM celebra não só a sua relevância artística – “por ser um pintor brilhante, inovador e pioneiro” –, mas também os “contributos que deixou a Macau”.
Afonso Biscaia acrescenta que a mostra “tem um significado muito especial” a nível pessoal. “Para além da dimensão emocional de ver o trabalho do meu avô reunido numa grande retrospectiva, senti um enorme privilégio e responsabilidade por poder contribuir também para a preparação desta exposição. Foi uma oportunidade de ajudar a contar a sua história às novas gerações e ao mundo que ainda não o conhece.”
Na sua vida artística, Mio Pang Fei não se limitou a seguir tendências. O pintor criou a sua própria corrente, denominada neo-orientalismo, buscando uma síntese entre a tradição cultural chinesa e a arte contemporânea ocidental. Como explica o neto Afonso Biscaia, o neo-orientalismo de Mio procurava “preservar o espírito e a filosofia da cultura oriental, utilizando a linguagem moderna ocidental como meio de expressão”.
Carlos Marreiros acrescenta que o artista pretendia estabelecer uma forma de arte “genuinamente chinesa”, através de uma pintura “muito contemporânea”. Segundo o arquitecto, “não era só pegar no exotismo chinês, mas criar uma arte com espírito e alma chineses, utilizando técnicas ocidentais”.

“A obra profunda, a maior dele, a obra valorosa, foi feita aqui. É legítimo que Macau reclame para si Mio Pang Fei como um artista de Macau”
CARLOS MARREIROS
PRESIDENTE DO CÍRCULO DOS AMIGOS DA CULTURA DE MACAU
A dança entre culturas apresentada nas suas telas tornou-se a marca de água de Mio Pang Fei. A abordagem inovadora explica a sua presença em exposições internacionais, incluindo a mostra “Caminho e Aventura: Obras de Mio Pang Fei”, que representou Macau na Bienal de Veneza de 2015, um dos momentos finais de consagração do artista ainda em vida.
“Foi um reconhecimento internacional de extrema importância”, recorda Afonso Biscaia. “Representar Macau numa das mais prestigiadas plataformas mundiais de arte contemporânea demonstrou que o seu trabalho tinha relevância muito para além do contexto local e permitiu apresentar o neo-orientalismo a um público global.”
Macau como plataforma criativa
Mio Pang Fei nasceu em 1936 em Xangai. A paixão pela pintura terá surgido aos cinco ou seis anos, recordou numa entrevista em 2015 à Revista Macau, quando começou a desenhar, nas paredes e portas da sua casa, os tigres e leões que via com os pais no jardim zoológico.
Formado na Faculdade de Belas-Artes da Universidade Normal de Fujian, estudou, no início da sua carreira, pintura ocidental com o académico e artista Xie Touba; mais tarde, aprofundou autonomamente a sua pesquisa sobre arte moderna ocidental. Nos anos 1960, sob a orientação do pintor Liu Haisu, lançou-se numa profunda investigação sobre a arte tradicional chinesa.
Em 1982, mudou-se para Macau, onde realizaria a sua primeira exposição de arte abstracta, no então Museu Luís de Camões, em Dezembro de 1985. Porém, os primeiros anos na cidade não foram fáceis, como recorda Carlos Marreiros: Mio Pang Fei começou por desenhar cartazes de projectos imobiliários, para conseguir sustentar a família.
“Quando os prédios eram construídos, tinham grandes imagens a apresentar como iriam ficar. Agora isso é feito por ‘renderings’ de computador, mas antigamente eram pintadas à mão sobre grandes superfícies de zinco. Era um trabalho mal pago e muito difícil.”
Após o sucesso da primeira exposição, Mio Pang Fei começou a enveredar de forma mais efectiva pelo ramo artístico e criativo. Ainda na década de 1980, teve a oportunidade de viajar até à Europa, onde pôde observar in loco o desenvolvimento da arte contemporânea internacional.
No Interior da China, “recebeu uma formação sólida, muito focada no estudo da arte tradicional chinesa”, explica o neto. “Mas foi já em Macau que iria aprofundar a tradição académica ocidental. Macau ofereceu-lhe o contexto ideal para desenvolver o neo-orientalismo.”
Carlos Marreiros confirma: “Ele era chinês, de Xangai, mas era de Macau também. Foi em Macau que começou a pintar com materiais ocidentais. Viveu 38 anos em Macau. A obra profunda, a maior dele, a obra valorosa, foi feita aqui. É legítimo que Macau reclame para si Mio Pang Fei como um artista de Macau.”
O reconhecimento do seu papel pelas autoridades locais chegou em dose dupla. Mio Pang Fei viu ser-lhe atribuída a Medalha de Mérito Cultural por duas vezes, em 1999 e 2016.

A sua obra percorreu o mundo. Foi exposta de Portugal ao Japão, da Bélgica à Coreia do Sul, da Austrália à Índia, entre outros países, além do Interior da China, Macau e Hong Kong.
Mio Pang Fei foi ainda professor visitante da Universidade das Artes de Nanquim e da Academia de Belas-Artes da Universidade de Xangai. Desempenhou também o cargo de vice-reitor da Academia de Artes Visuais de Macau, tendo posteriormente leccionado na Escola de Artes do então Instituto Politécnico de Macau (actual Universidade Politécnica de Macau).
Trilhar um novo caminho
A vida de Mio Pang Fei foi marcada por uma procura incessante por um tipo de expressão artística que conciliasse quer a tradição, quer a modernidade, quer o Oriente, quer o Ocidente.
“Foi alguém que passou a vida toda à procura de uma linguagem artística própria. Nunca se limitou a seguir tendências”, defende o neto.
Carlos Marreiros fala num homem “erudito”, conhecedor da cultura e civilização chinesas. “Nem todos os artistas, quer os mais jovens, quer os menos jovens, têm esta bagagem intelectual”, afirma, sublinhando que tal era a base sólida que permitia a Mio Pang Fei seguir o seu próprio rumo.
Entre as obras mais marcantes, destaca-se a série “Shui Hu”, inspirada pelo clássico da literatura chinesa “Shui Hu Zhuan” (“Margem da Água”), que dá título a uma das secções da retrospectiva no MAM. Para o neto, este conjunto de trabalhos é representativo da “maturidade do pensamento artístico” de Mio Pang Fei, nomeadamente na forma como “conseguiu reinterpretar um clássico da literatura chinesa através de uma linguagem profundamente contemporânea”.
A nível pessoal, os traços da personalidade de Mio Pang Fei mais recordados são a disciplina e a inteligência. “Era uma pessoa extremamente curiosa, disciplinada e profundamente humana”, afirma Afonso Biscaia. Carlos Marreiros nota que “tudo aquilo que fazia era racionalmente controlado; aquilo que aparentemente parecia espontâneo, era pensado”.
Uma obra viva
Após o falecimento do artista em 2020, a família assumiu a responsabilidade de preservar e divulgar o seu legado. A retrospectiva no MAM é mais um passo nesse sentido.
“Decidi dar o meu contributo para que a sua obra continuasse a chegar a novas gerações”, diz o neto. “Desde então, tenho procurado fazê-lo através das redes sociais”, com as páginas “@miopangfei” no Instagram e “Mio Pang Fei” no Facebook, “sustentadas por um trabalho contínuo de digitalização do espólio, que inclui uma vasta colecção de fotografias, vídeos, documentos e artigos”.

O esforço não se limita à conservação física e digital das obras, mas passa também pela divulgação, de forma a chegar a novos públicos. “Vejo muitos antigos alunos, investigadores, artistas e jovens visitantes a continuarem a descobrir a obra do meu avô. Isso deixa-me orgulhoso, pois o sonho e o propósito dele concretizaram-se”, afirma Afonso Biscaia.
Para Carlos Marreiros, tal mostra que o legado de Mio Pang Fei, além de artístico, é também pedagógico: ensinou a importância da experimentação e da busca de uma linguagem artística própria. “Conseguiu influenciar muitos jovens a seguirem uma linha contemporânea. Não necessariamente a imitarem-no, mas pelo menos a exercitarem o experimentalismo.”
Para Afonso Biscaia, uma das “maiores alegrias” associadas à exposição no MAM tem sido ver que, “mesmo passados vários anos desde o seu falecimento, a arte de Mio Pang Fei continua a emocionar, a despertar curiosidade e a reunir pessoas de diferentes gerações”. E remata: “Creio que esse é o sinal mais bonito de que o seu legado permanece verdadeiramente vivo.”


