Passagem Fronteiriça

O lado humano das fronteiras

Macau registou mais de 230 milhões de movimentos de utilizadores nas fronteiras em 2025

Texto Cherry Chan
Fotografia Cheong Kam Ka

Todos os dias, centenas de milhares de pessoas atravessam as fronteiras de Macau. Chegam para trabalhar, passear, visitar familiares ou descobrir a cidade pela primeira vez. Para que este movimento quase incessante decorra com rapidez e segurança, há tecnologia, planeamento e coordenação. Mas há também algo que nenhuma máquina consegue substituir: pessoas dispostas a orientar, tranquilizar e ajudar quem chega.

Em 2025, foram registados mais de 230 milhões de movimentos de utilizadores nas fronteiras de Macau, o equivalente a uma média diária de 640 mil. E os números continuam a crescer. Nos primeiros seis meses de 2026, o fluxo de entrada e saída ultrapassou 120 milhões, com uma média diária de 677 mil, mais 7,3 por cento do que no mesmo período do ano anterior.

O dia 2 de Maio de 2026 ficou, aliás, marcado por dois recordes históricos nas passagens fronteiriças de Macau: o maior fluxo total de movimentos num único dia, com 889 mil, e o maior número de entradas, com 248 mil. Números que colocam Macau entre as regiões do mundo com maior movimento de pessoas nas suas fronteiras.

Gerir diariamente um fluxo desta dimensão representa um enorme desafio. Além do controlo fronteiriço e da segurança regional, os agentes da linha da frente têm de responder a períodos de grande movimento e, simultaneamente, assegurar o contacto com quem chega à cidade.

É neste contexto que os profissionais do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) procuram conjugar profissionalismo, eficiência e segurança com uma dimensão menos visível, mas igualmente importante: o contacto humano com quem chega à cidade. Para além das tarefas de rotina, como a verificação de documentos e a inspecção das condições de segurança, recebem formação periódica destinada a reforçar as competências interpessoais.

Numa cidade que recebe visitantes de todo o mundo, comunicar é fundamental. Por isso, a sinalização e os avisos nos postos fronteiriços são apresentados em chinês, português e inglês, destaca o agente do CPSP Lei Wang Ngai.

“Para melhorar continuamente a qualidade do serviço, o CPSP organiza regularmente cursos de inglês e português, ministrados por formadores profissionais, com o objectivo de reforçar as competências básicas de comunicação em línguas estrangeiras do pessoal da linha da frente”, realça.

Lou Oi Leng fala em sentimento de dever cumprido através da ajuda aos visitantes

Mas nem sempre as palavras são suficientes. A agente Lou Oi Leng recorda o caso de uma turista estrangeira que se aproximou, em pânico, na zona fronteiriça. Falava tão depressa que os agentes nem conseguiam identificar se se expressava em inglês ou noutra língua. Depois de perceberem que tinha perdido o telemóvel, iniciaram imediatamente uma busca pela área de controlo fronteiriço. Até uns agentes que estavam de folga decidiram juntar-se espontaneamente à missão.

“Após mais de uma hora de buscas, conseguimos finalmente encontrar o telemóvel. A turista voltou a sorrir e agradeceu-nos a ajuda. Embora situações como esta façam parte do nosso dia-a-dia, poder ajudar os visitantes a resolver as suas dificuldades dá-nos uma enorme sensação de realização e de cumprimento da nossa missão”, salienta Lou Oi Leng.

Preparar os dias de maior movimento

Nos períodos festivos, o aumento do número de visitantes coloca à prova as infra-estruturas fronteiriças e a coordenação entre os vários serviços. Por isso, antes dos principais feriados, o CPSP prepara medidas específicas para responder aos picos de movimento.

De acordo com Lei Wang Ngai, o CPSP “prepara planos de resposta aos períodos de maior afluência e mobiliza pessoal administrativo para apoiar a linha da frente, garantindo que o movimento nas fronteiras decorra de forma segura e ordenada”.

“O CPSP mantém uma comunicação estreita com a Estação Geral de Inspecção Fronteiriça de Zhuhai e com o Departamento de Imigração de Hong Kong, partilhando informações sobre o movimento de passageiros para permitir uma resposta coordenada nos períodos de maior afluência”, explica. Além disso, acrescenta, “os postos de controlo fronteiriço de Macau-Zhuhai e Macau–Hengqin realizam regularmente exercícios de emergência e de resposta a situações de crise, para garantir a segurança e a ordem em ambos os lados da fronteira”.

Nos períodos de maior afluência, o CPSP reforça a linha da frente para garantir um movimento fronteiriço seguro e ordenado, diz Lei Wang Ngai

O CPSP mantém ainda um mecanismo de contacto com os sectores hoteleiro e turístico, incentivando os visitantes a viajar fora dos horários de ponta e divulgando as normas de passagem. “Através do reforço da cooperação com o sector, procuramos fazer chegar aos visitantes informação sobre as regras de passagem nas fronteiras, a segurança rodoviária e os alertas de segurança pública em Macau”, refere Lei Wang Ngai.

Eficiência em tempo real

Com centenas de milhares de pessoas a atravessarem diariamente as fronteiras, o CPSP adapta “em tempo real” o número de canais de controlo ao movimento registado em cada posto e abre vias adicionais nos períodos de ponta para acelerar a circulação de passageiros.

A tecnologia desempenha naturalmente um papel cada vez mais importante neste processo, permitindo aumentar a eficiência e responder a volumes de passageiros que seriam difíceis de gerir apenas através dos métodos tradicionais, segundo as autoridades.

Mas uma fronteira não é feita apenas de equipamentos, sistemas automáticos e números. Por detrás de cada passagem, há uma pessoa. A tecnologia pode tornar a viagem mais rápida e eficiente, mas são muitas vezes os pequenos gestos de quem está na linha da frente que tornam a chegada a Macau mais humana.

A facilidade com que se atravessa uma fronteira também pode mudar a forma como se vive uma cidade. Menos filas, menos espera e procedimentos mais simples tornam a chegada a Macau mais cómoda e podem até incentivar quem está do outro lado da fronteira a visitar a cidade com maior frequência. Para os estrangeiros elegíveis, a possibilidade de recorrer aos canais automáticos vem precisamente facilitar essa experiência.

Serhiy Sakun refere a eficiência do sistema automático na passagem fronteiriça

Serhiy Sakun, da Ucrânia, conhecia bem a alternativa. Nas anteriores deslocações a Macau, recorria sempre aos canais manuais. Desta vez, depois de concluir o registo em apenas alguns minutos, a diferença foi evidente. “Estou muito satisfeito com esta opção, pois é bastante prático passar a fronteira tão rapidamente”, salienta.

A rapidez não foi, porém, o único aspecto que o surpreendeu. “Recebi um serviço excelente e todos foram muito prestáveis, sempre com um sorriso”, destaca.

Também ucraniana, Oksana Vielkina experimentou pela primeira vez o canal automático e adaptou-se rapidamente ao novo processo. “Facilita imenso as minhas viagens, estou a adorar”, afirma. Mesmo sendo uma estreia, não encontrou dificuldades: “É fácil e uma pessoa consegue orientar-se muito rapidamente”. Para isso contribuem, acrescenta, as instruções claras e facilmente identificáveis no posto fronteiriço.

Oksana Vielkina experimentou pela primeira vez o canal automático

Para ambos, esta maior facilidade pode fazer diferença na hora de decidir visitar Macau – e de regressar. Oksana Vielkina lembra-se bem das esperas nos canais manuais: “Eram, por vezes, períodos longos e eu tentava evitá-los, por isso não viajava para cá com tanta frequência”. Agora, com uma passagem mais rápida e simples, essa barreira perde peso. E uma fronteira mais fácil de atravessar pode, afinal, deixar Macau um pouco mais perto de quem quer visitar a cidade.