O “Jardim Liu” é um dos nove jardins clássicos de Suzhou inscritos na Lista do Património Mundial da UNESCO
Jardins clássicos de Suzhou

Trazer a natureza para o pátio

Em Suzhou, o tempo ensinou aos homens a arte de condensar em jardins tradicionais o gigantismo das montanhas e a simplicidade dos rios, em pinceladas de delicada arquitectura paisagística

Hoje, como há centenas de anos, entrar num jardim tradicional chinês não significa apenas desfrutar de uma experiência estética ímpar. É também aceder a uma lição intemporal sobre a relação entre a natureza e o quotidiano segundo a cultura clássica chinesa.

Se há local onde essa lição é particularmente visível, trata-se de Suzhou, na província de Jiangsu, no sudeste do País. Na histórica cidade, a construção de jardins ornamentais é um costume antigo: de acordo com diversos registos, remonta ao século VI a.C..

A prática conheceu um crescimento significativo durante as dinastias Tang (618-907) e Song (960–1279), período durante o qual muitos letrados e funcionários imperiais se instalaram em Suzhou, atraídos pela beleza das suas paisagens. Desiludidos com a carreira oficial ou pouco dispostos a participar em disputas políticas, frequentemente escolhiam a cidade como lugar de residência. Aí, procuravam recorrer à arte paisagística para conceber refúgios de tranquilidade e natureza em forma de jardim.

Ainda assim, o período de maior prosperidade terá acontecido durante as dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911), altura em que chegaram a coexistir em Suzhou mais de 200 jardins ornamentais privados. Ainda hoje se conservam várias dezenas: destes, destacam-se nove exemplares, inscritos na Lista do Património Mundial da UNESCO em duas levas, em 1997 e 2000.

As condições naturais e socioeconómicas de Suzhou justificam em parte a profusão de jardins clássicos. A histórica cidade situa-se na região do Lago Tai, gozando de um clima ameno, profusão de água e, desde cedo, grande abundância agrícola e comercial. A região é também conhecida pelas chamadas “pedras do Lago Tai”, de características porosas e formas irregulares, muito apreciadas para efeitos ornamentais.

Com a abertura do troço do Grande Canal da China a sul do rio Yangtzé, segmento também conhecido como o Canal de Jiangnan, obra iniciada em 610, Suzhou ganhou uma posição estratégica nas rotas comerciais imperiais. Durante as dinastias Ming e Qing, afirmou-se como uma das cidades mais ricas do País, prosperidade essa que forneceu os recursos necessários para a construção de sumptuosos jardins privados.

Jogos de pedra e luz

A ideia central que caracteriza os jardins clássicos de Suzhou é a de simular espaços naturais numa área limitada. Procura-se insinuar montanhas e cursos de água, enquanto se pretende fazer com que a paisagem mude a cada passo do visitante.

É neste jogo de impressões que as pedras do Lago Tai desempenham um importante papel, através de construções que recriam picos montanhosos, grutas e ravinas. Já através do uso de lagos, pequenas pontes curvas e canais sinuosos, sugere-se a atmosfera bucólica das zonas ribeirinhas do sul da China.

A profusão de janelas ornamentais produz molduras naturais, enquadrando as sombras das árvores, as pedras decorativas e os beirais de desenho tradicional em imagens de beleza ostentosa. Plantas como a ameixeira, a orquídea, o bambu e o crisântemo são presença comum, simbolizando valores tradicionalmente apreciados pelos letrados chineses, como a perseverança, a elegância, a rectidão e o desprendimento.

Entre os muitos jardins clássicos de Suzhou, o “Pavilhão Canglang”, o “Bosque dos Leões”, o “Jardim do Administrador Humilde” e o “Jardim Liu” contam-se entre os mais famosos.

O “Bosque dos Leões” é particularmente notável. Construído na dinastia Yuan (1279-1368), esteve inicialmente associado a um templo budista. O seu nome está ligado ao facto de muitas das suas pedras ornamentais se assemelharem a leões, animal que, no budismo, simboliza nobreza, sabedoria e solenidade.

No início do século XX, o jardim foi adquirido por uma família de Suzhou de apelido Bei (também grafado como “Pei” no Ocidente). Foi no seio dessa família que nasceu o reputado arquitecto Ieoh Ming Pei, autor da afamada pirâmide de vidro do Museu do Louvre, em Paris, e do Centro de Ciência de Macau. Em criança, o pequeno Pei visitava frequentemente o jardim, tendo mais tarde reconhecido que as suas aventuras entre as grutas, rochedos e jogos de luz do “Bosque dos Leões” influenciaram profundamente a sua compreensão do espaço e da relação entre arquitectura e iluminação.

De Suzhou para o mundo

Os jardins de Suzhou rapidamente entraram no imaginário da Europa, após a chegada dos navegantes europeus às costas chinesas. Em 1638, o jesuíta português Álvaro Semedo apresentou as casas e jardins clássicos chineses aos leitores do Velho Continente na obra “Relação da Grande Monarquia da China”. Aí, observava que as famílias chinesas mais prósperas tinham por tradição plantar flores e árvores nos seus amplos pátios, onde mantinham aves e veados, erguendo nesses espaços formações rochosas artificiais com recurso a grandes pedras ornamentais que mandavam transportar de lugares distantes. A isto se somavam lagos escavados, repletos de peixes.

Com a crescente circulação de cartas e relatos de viagens sobre a China, difundiram-se na Europa imagens dos jardins clássicos chineses, alimentando o fascínio sobre o Império do Meio. As opções estéticas destes espaços acabariam, assim, por exercer influência significativa sobre o paisagismo europeu.

Mais tarde, os jardins de estilo Suzhou “viajaram” para outras paragens distantes, servindo de modelo para espaços espalhados por diversos países. Por exemplo, no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, é possível visitar o Astor Court, uma instalação artística de 1981, com uma área de 400 metros quadrados, inspirada num pequeno pátio do Jardim do Mestre das Redes, em Suzhou. 

Versão editada de texto extraído da edição n.º 147 da coluna especial “Um Vislumbre da Cultura Chinesa”, iniciativa do Macao Daily News em colaboração com o Diário de Notícias