O restaurante Mariazinha, há mais de uma década de portas abertas, quer ser uma vitrina do melhor que oferece a gastronomia portuguesa. Para lá dos sabores, diz o gerente Nelson Rocha, serve-se um ambiente familiar e acessível, sem descurar uma apresentação cuidada
Texto Margarida Vidinha
Fotografia António Mil-Homens
Acorda, leva os filhos à escola e segue para o número 8 da Rua do Monte, a poucos passos das Ruínas de São Paulo. “Faço as encomendas, vejo o que está em falta, organizo a parte de escritório e todas as burocracias relevantes. Entretanto, às 11h30, abrimos a porta e fico a ajudar o staff.” É assim que Nelson Rocha descreve o seu dia-a-dia, com foco no Mariazinha, o restaurante português que abriu em Macau há mais de dez anos e que se tornou, entretanto, um espaço de referência no que toca à gastronomia lusa.
A rotina é essencial para a boa gestão do estabelecimento. Nelson Rocha construiu ali uma ponte cultural: transformou o local num lugar de encontro com Portugal.
Se todos em Macau conhecem o final feliz da história, menos saberão que esta esteve quase para não acontecer. Nado e criado entre Matosinhos e o Porto, no norte de Portugal, Nelson Rocha cresceu imerso no mundo da restauração. Por conhecê-lo bem, não era futuro que quisesse para si.
“Os meus pais sempre tiveram restaurantes”, conta. “O meu tio ainda gere os negócios da família, são cerca de meia-dúzia de restaurantes.”
Com apenas 11 anos, Nelson Rocha já ajudava, entre a copa e as salas de refeições: aprendeu cedo a lidar com clientes e empregados, respirando o ritmo frenético do sector. A experiência traz-lhe disciplina e sentido de responsabilidade, mas também pouca vontade de ver ali caminho para si.
“O meu pai trabalhava imenso e isto é um problema dos restaurantes. Trabalha-se bastante e por muitas horas”, admite o empresário.
Os testes vocacionais realizados durante o nono ano de escolaridade não lhe trazem respostas. A dúvida persegue-o até ao ensino superior, onde estuda Gestão. A ideia era afastar-se da restauração e seguir uma carreira autónoma. No entanto, a experiência académica não o satisfez.
Depois de experimentar vários empregos, Nelson Rocha rende-se ao óbvio: nada lhe dava o mesmo prazer que a restauração. “Queria lidar com as pessoas, com os problemas, com o staff, com tudo.”
Amor à chegada
Uma das vantagens de ter começado a trabalhar desde muito novo foi a possibilidade de viajar. “Sempre consegui ter o meu pé-de-meia e esse dinheiro ia praticamente todo para viagens. Comecei a viajar assim que consegui”, partilha.
A curiosidade pelo mundo eventualmente despertou-lhe o desejo de abrir um restaurante fora de Portugal. Não sabia onde, mas a ideia de levar a gastronomia lusa para outros contextos parecia-lhe natural.
É em 2010 que Nelson Rocha pisa Macau pela primeira vez, numa viagem com amigos. “Apaixonei-me pela cidade. Senti que era o sítio ideal.”
Apesar da certeza, foram necessários três anos para convencer o pai a apoiá-lo na aventura: o progenitor era peça essencial como chef do futuro estabelecimento. A crise económica em Portugal deu-lhes um empurrão e, em 2013, rumaram a Macau. “O meu pai dizia que eu era maluco, sonhador, que não percebia nada da vida. Eu disse que lhe pagava a viagem e ele vinha; só depois de cá estar é que me podia chamar essas coisas todas. Depois de vir, ficou com Macau presa no coração.”
O entusiasmo inicial, no entanto, bateu de frente com a realidade. A inauguração do espaço demorou quase dois anos a ser concretizada, período marcado pelo confronto com a “falta de contactos e desconhecimento do mercado local”, admite Nelson Rocha.
O nome do restaurante tem história. O objectivo foi sempre chamar-lhe “Mariazinha”, em homenagem à mãe do empresário. Mas ela não gostava de ser tratada assim – era como o irmão a atarantava quando eram crianças – e insistiu noutra designação. O destino, porém, acabou por impor-se: quando surgiu a possibilidade de conflito com outra marca, Nelson Rocha convenceu a progenitora a aceitar a opção original, “Mariazinha”.
Quando finalmente abriram as portas, em 2015, o impacto foi imediato. A novidade espalhou-se de boca em boca entre a comunidade local falante de português. Nelson Rocha recorda que, na altura, quase todos os jornais de língua portuguesa falaram da abertura. “Ajudou-nos imenso!”

A proposta servida pelo Mariazinha ainda hoje é clara: comida portuguesa autêntica, de qualidade, com boa apresentação e a preços comportáveis. Acima disto, pretende-se criar um ambiente familiar, onde clientes e empregados se sintam bem. “Muitos dos membros do staff estão aqui desde que abrimos. Isso reflecte-se na comida e no serviço. Os clientes sentem-no”, garante Nelson Rocha.
Selo de confiança
O Mariazinha distingue-se pela autenticidade dos seus pratos. Muitos vêm directamente do livro de receitas da família Rocha. “Temos alguns pratos que fazemos em Portugal. Por exemplo, a posta de vitela é o que tem mais saída lá, no restaurante do meu pai”, explica Nelson Rocha. “É uma receita que está connosco há muitos anos… Aliás, o restaurante mais antigo da família tem 45 anos”, nota.
Outros pratos foram introduzidos no Mariazinha para dar a conhecer aquilo que a gastronomia portuguesa tem de melhor. O leitão assado à Bairrada é um exemplo. Em Macau, a iguaria é um dos pratos mais vendidos. “Queríamos dar a conhecer a cultura portuguesa. E o leitão é um prato emblemático e muito fácil de agradar ao cliente”, refere o empresário.
Pela sua filosofia, o restaurante atrai muitos portugueses radicados em Macau. “A maior parte dos locais visitam-nos quase sempre à hora do almoço por causa do menu executivo.
Já os turistas, outro importante segmento da clientela, procuram pratos emblemáticos, aqueles que associam à culinária portuguesa. O leitão, a francesinha ou o arroz de tomate são escolhas frequentes. Muitos chegam até com referências visuais ou recomendações.
Apesar dos muitos restaurantes portugueses em Macau, Nelson Rocha fala numa concorrência saudável e benéfica. “Há público suficiente para todos. É uma das grandes vantagens de estar aqui.” O espírito de comunidade, em vez de rivalidade, fortalece a presença da gastronomia portuguesa na cidade, acrescenta.
Um dos sonhos de Nelson Rocha é voltar a dar o “pulo”. “Gostava de abrir o Mariazinha noutras localizações, nomeadamente no Interior da China ou no Japão, que foi o local que inicialmente pensei.”
O sonho foi adiado pela pandemia da COVID-19, mas continua presente. A ideia de pegar na autenticidade que conquistou Macau e transportar essa experiência para outros mercados é vista quase como uma missão. “Levar a nossa cultura a outros países é uma tarefa muito digna”, enfatiza Nelson Rocha.


