Durante décadas, os campos de futebol em Macau foram quase exclusivamente território masculino. Hoje, porém, começam a surgir novos rostos, novas histórias e novas ambições. Na cidade, como no resto do mundo, a modalidade começa finalmente a afirmar-se
Texto Vítor Rebelo
Num momento em que o futebol feminino vive uma fase de forte expansão a nível global, também em Macau começam a surgir sinais claros de mudança. A modalidade, durante décadas praticamente ausente do panorama competitivo local, deu recentemente um passo histórico com a realização, na segunda metade de 2025, do primeiro campeonato feminino de futebol de onze.
Este foi um sinal claro de mudança para quem, durante anos, lutou para que a modalidade conquistasse o seu espaço no cenário desportivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).
A competição teve lugar no relvado do Centro Desportivo Lin Fong (antigo Campo do Canídromo) e contou com a participação de quatro equipas: ADRAM, Artilheiros, Hong Fong e Sporting. Mais do que uma simples prova desportiva, tratou-se de um momento carregado de significado para jogadoras, treinadores e dirigentes que acompanharam o crescimento do futebol feminino desde os seus primeiros passos.
Ver um grupo de raparigas a encher um campo onde, desde sempre, apenas atletas masculinos ali jogavam terá sido o “clique” para que mais jovens fossem aliciadas para a prática da modalidade, quer em termos competitivos, quer apenas, numa primeira fase, para contacto com a bola.
“Foi realmente agradável vê-las jogar no estádio”, diz à Revista Macau a seleccionadora da RAEM. Jun Meng espera que este tenha sido o ponto de partida para que “mais equipas se inscrevam no campeonato local, expandindo gradualmente a liga feminina”.
O campeonato inaugural foi considerado um sucesso e trouxe uma enorme alegria para as jogadoras que nele participaram, independentemente dos resultados. Segundo a Associação de Futebol de Macau (AFM), a liga “vai ter continuidade este ano”, embora não se saiba com quantas equipas para além das quatro que participaram na primeira prova.
Um sonho que parecia distante
Para muitas atletas, a criação desta competição representou algo que há poucos anos parecia praticamente impossível. Sara Fonseca, atleta campeã pela ADRAM, recorda como o futebol feminino era visto em Macau há pouco mais de uma década.
“Se me perguntassem isto há dez anos, eu não acreditava, porque o futebol feminino nunca foi facilmente aceite em Macau”, afirma a atleta, acrescentando que, no passado, o número de jogadoras era muito reduzido, dado que o futebol era visto como um “desporto para homens”.

Nos últimos anos, porém, essa realidade começou lentamente a mudar. Tal como em muitas outras regiões do mundo, o futebol feminino tem vindo a ganhar visibilidade e reconhecimento, contribuindo também para a transformação de mentalidades e para a quebra de estereótipos de género.
Apesar dos progressos, destaca Sara Fonseca, persistem ainda alguns obstáculos. Mesmo com as importantes “vitórias” já conquistadas, “há ainda muito a batalhar”, refere, especialmente no que diz respeito a mudar a mentalidade dos pais para que não vejam o futebol como uma modalidade “tipicamente masculina”, sublinha.
Para Sofia Basto da Silva, colega de equipa na ADRAM e capitã da selecção de Macau, o momento actual da modalidade é, no entanto, claramente positivo.
“É algo que se tem vindo a desenvolver e a crescer, com altos e baixos, mas neste momento encontramo-nos a viver o melhor momento”, reconhece, considerando que o campeonato de onze era a competição que lhes faltava.
A atleta, que começou a jogar ainda na escola primária, também destaca o crescimento que se tem observado nas camadas mais jovens. “Há evolução, nem que seja pelo crescente número de jogadoras, algo bastante visível nas camadas mais jovens, ainda em idade escolar”, salienta.

Potencial “ilimitado”
Para a seleccionadora local, o crescimento do futebol feminino em Macau depende sobretudo da capacidade de atrair e desenvolver novas jogadoras. Sobre a adesão de raparigas, Jun Meng afirma que as futebolistas locais “possuem potencial ilimitado”, tendo que ganhar confiança e ser incentivadas o suficiente “para revelarem as suas capacidades”.
O aumento gradual do número de praticantes tem sido acompanhado também por um maior envolvimento dos clubes e por iniciativas promovidas pela AFM. Actualmente, segundo dados da associação, existem 324 jogadoras registadas em Macau, embora apenas cerca de 80 estejam em condições de competir.
Em comparação, no futebol masculino, o número de inscritos ultrapassa os 9900 atletas. A diferença continua significativa, mas o fosso começa lentamente a diminuir.
Ainda assim, há obstáculos que têm de ser superados. A seleccionadora considera que Macau ainda “enfrenta desafios consideráveis”, pois a base de jogadoras de futebol continua limitada. Neste contexto, afirma, os treinadores “devem continuar a envidar esforços” para que o futebol feminino conheça cada vez mais progressos, uma vez que há “ainda muito a aprender”.
Há dois anos à frente da equipa principal de Macau, Jun Meng introduziu um plano de treinos mais regulares, abrindo também portas à participação em estágios e competições além-fronteiras.
“A selecção de Macau realiza sessões regulares de desenvolvimento das jogadoras, enquanto lhes proporciona um maior apoio posicional e técnico”, explica a treinadora, acrescentando que “a equipa realiza anualmente jogos amigáveis contra equipas de várias regiões, participa em competições da Confederação Asiática de Futebol e envolve-se em diversos torneios”.
“Através destes compromissos, as jogadoras de Macau têm vindo a ganhar uma experiência valiosa”, frisa a seleccionadora. “Esperamos, no futuro, ter mais sessões de treino, porque a duração dos nossos treinos continua a ser relativamente curta, principalmente devido ao número reduzido de instalações desportivas”, acrescenta.

Para atrair mais jovens para a modalidade, a AFM tem apostado também em iniciativas de aproximação ao público.
“São organizados regularmente eventos de envolvimento dos adeptos, convidando o público a assistir aos nossos treinos ou jogos”, realça a treinadora, referindo-se a iniciativas como o Dia do Futebol Feminino e o Dia do Futebol de Base, que procuram “incentivar mais raparigas a participar” na modalidade.
Relativamente ao futuro da selecção, Jun Meng aponta para um objectivo claro: “Esperamos que mais equipas participem na nossa Liga de futebol, permitindo-nos cultivar as nossas próprias estrelas do futebol feminino.”
As primeiras sementes
Apesar da visibilidade recente, os primeiros passos do futebol feminino em Macau começaram a ser dados há cerca de uma década. Em 2016, a AFM organizou um “mini-campeonato” na variante de sete, disputado no campo sintético do Colégio Dom Bosco. Antes disso, porém, já a Associação Desportiva, Recreativa e Cultural Show Di Bola tinha dado um contributo importante para o arranque da modalidade.
A iniciativa partiu dos irmãos Pelé e Cuco, antigos jogadores em Macau, que em 2013 decidiram formar uma equipa feminina composta por estudantes e por algumas jogadoras mais experientes.
“Tivemos bons patrocínios para que pudéssemos desenvolver a modalidade e, para além de termos participado numa competição em Macau, na qual conquistámos um terceiro lugar, fomos a alguns torneios internacionais, nomeadamente a Phuket, na Tailândia, a Shenzhen e a Hong Kong”, menciona Pelé.
O projecto, porém, não teve continuidade devido a diversos factores, explica o antigo jogador. “Depois da pandemia da COVID-19, não tivemos mais equipa de futebol feminino, visto que a nossa base de jogadoras era composta por estudantes universitárias de países de língua portuguesa e de outras regiões, tendo muitas destas atletas regressado aos seus países de origem”, afirma.
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Sara Fonseca fez parte dessa equipa pioneira e acompanhou, desde então, a evolução da modalidade. “Penso que agora já há maior divulgação nas escolas, há mais miúdas interessadas no desporto, o que leva a um maior interesse em entrar em clubes para participarem em competições”, sublinha.
A jogadora acredita que o futuro poderá trazer ainda mais progressos. “Penso que será sempre a melhorar, uma vez que as jogadoras mais novas já têm muita técnica, havendo uma diferença muito grande entre quem começa a jogar futebol mais tarde, como eu, que só comecei aos 18 anos, e elas, que já praticam a partir dos 12”, destaca.
Também com experiência na selecção, Sara Fonseca destaca o impacto da actual treinadora no desenvolvimento do grupo, nomeadamente no que toca ao “espírito de equipa, à disciplina e à garra”. “Acho que estamos aqui todas a tentar desenvolver o futebol feminino, com os clubes também a fazerem um óptimo trabalho, até porque os treinadores estão igualmente numa fase de aprendizagem”, realça.
O papel das escolas
Para consolidar o crescimento do futebol feminino, muitos consideram essencial reforçar a ligação com as escolas. “É necessário ir às escolas e divulgar a modalidade, integrá-la nas actividades escolares”, afirma Sara Fonseca, lembrando que foi através do futsal, numa escola em Portugal, que descobriu o gosto pelo futebol.
“Eu sempre gostei de desporto e, através dele, fiz muitas amizades e tenho tido momentos inesquecíveis”, refere.
Kong Iok Ian, guarda-redes da ADRAM e da selecção de Macau, também acredita que o aumento do número de jogos seria importante para medir o progresso que se tem observado recentemente.
“As jogadoras em Macau têm menos de 18 anos ou mais de 30, não há jogadoras suficientes na faixa dos 20 anos, que deveria ser o auge da carreira desportiva, mas sei que isso se deveu a lacunas no sistema, que está agora a recuperar, algo que ainda leva tempo”, afirma.
Para a atleta, o desenvolvimento da modalidade exige paciência. “Entre cinco e dez anos será a meta mais expectável para o desenvolvimento do futebol feminino em Macau”, considerando que as equipas estão a integrar cada vez mais jogadoras jovens, sublinha Kong Iok Ian.
“Algumas jogadoras já participam regularmente nos treinos da formação sénior, mas são muito jovens, todas têm menos de 18 anos, leva tempo para se desenvolverem e, ao mesmo tempo, precisam de enfrentar o desafio de serem jogadoras a tempo parcial, juntando no futuro próximo estudos e trabalho”, remata.
Sobre a selecção, Kong Iok Ian destaca as melhorias recentes na preparação. “Começámos com treinos regulares, com treinadores qualificados, que estão também a evoluir, para ter um treino mais sistemático, incluindo treino físico como rotina regular, o que não acontecia há anos”, refere.
A guarda-redes nota também uma mudança de atitude entre as novas gerações. “As raparigas actualmente são mais corajosas e abertas aos ‘desportos masculinos’, graças à educação aberta das escolas internacionais.”
Ainda assim, a guarda-redes deixa um alerta para o futuro. “Além de ser necessário continuar a apostar no recrutamento, a qualidade dos treinadores também precisa de ser melhorada.” Nesse sentido, sugere que mais treinadores se juntem ao desenvolvimento da modalidade, “a fim de criar uma imagem melhor para as jovens jogadoras”.


