Yao Jingming

Interior da China, Macau e Portugal: a poética do entendimento

Yao Jingming destacou-se como poeta e tradutor, mas também como artista e curador
Ao longo de mais de cinco séculos, a China e Portugal construíram uma relação pautada por encontros e desencontros, por compromissos e divergências, mas sempre norteada pela curiosidade e pelo fascínio mútuos. É precisamente essa história, rica e complexa, que o poeta Yao Feng – pseudónimo do académico Yao Jingming – percorre com erudição e sensibilidade em “O Encontro dos Extremos: Intercâmbio Literário entre a China e Portugal”. Lançada em Lisboa em Novembro, a versão em português do livro foi apresentada em Macau no início de Março, na sessão que abriu a última edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Poeta, tradutor e académico, Yao Jingming esteve à conversa com a Revista Macau

Texto Marco Carvalho
Fotografia Leong Sio Po

O que o motivou a escrever “O Encontro dos Extremos” e porque optou por este título? Os “extremos” a que o título se reporta são meramente geográficos e culturais?

Este livro foi escrito originalmente em chinês e fazia parte da série “História do Intercâmbio Literário entre a China e os Países Estrangeiros”, coordenada pelo Professor Zhou Ning. Foi publicado em 2015 sob o título de “História do Intercâmbio Literário entre a China e Portugal”. A tradução para português, assumida pela Dra. Ana Cristina Alves, começou em 2017 e só ficou concluída em 2025, com a obra a ser publicada pela Gradiva. À versão portuguesa foi atribuído o título de “O Encontro dos Extremos: Intercâmbio Literário entre a China e Portugal”, resultado de uma troca de ideias entre o autor, a editora e a tradutora.

A palavra “extremos” refere-se claramente a dois mundos literários bem distintos, tanto a nível geográfico quanto a nível cultural. Além de abordar obras traduzidas, actividades e eventos literários dos dois países, o livro opera uma reflexão sobre o relacionamento entre portugueses e chineses, especialmente a partir de Macau, o que se pode prefigurar como uma referência interessante da obra.

Que momentos considera mais marcantes – e que figuras considera incontornáveis – nos 500 anos de diálogo literário entre a China e Portugal?

Ao longo dos 500 anos de diálogo literário entre a China e Portugal, o momento mais significativo talvez remonte ao século XVI, quando os portugueses entraram em contacto com os chineses e começaram a escrever sobre a China, moldando a imagem da China naquele período no Ocidente. Conforme a lenda, Camões terá estado em Macau, onde escreveu algumas estrofes de “Os Lusíadas”.

Trinta anos depois, em 1590, o grande dramaturgo Tang Xianzu passou por Macau e deixou alguns poemas sobre a paisagem e o exotismo da cidade. Infelizmente, estes dois grandes autores não se encontraram. O que eles escreveram, porém, é uma referência para a literatura de Macau. Nos séculos XVI e XVII, houve outros portugueses que se aventuraram pela China, e entre eles distinguem-se os nomes de Galiote Pereira, Gaspar da Cruz, Fernão Mendes Pinto, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães, os quais descrevem diversos aspectos da realidade da China através das suas narrativas.

Esse diálogo, porém, só ganha feições vincadamente literárias bastante mais tarde.

No final do século XIX, o poeta português António Feijó publicou “Cancioneiro Chinês”, uma antologia de poemas chineses traduzidos de francês para português. Apesar de ser uma tradução bastante domesticada e adaptada ao estilo da poesia portuguesa, constitui um trabalho fundamental na introdução da lírica chinesa em Portugal, ao permitir que os leitores ficassem a conhecer a sensibilidade dos poetas chineses. Depois de António Feijó, Camilo Pessanha fez a conexão com a cultura chinesa em Macau, onde estudou cultura e língua chinesas, traduzindo as “Oito Elegias Chinesas”. No prefácio que acompanha a tradução, Camilo Pessanha fez uma apresentação muito profunda sobre as características da língua e da poesia chinesas, demonstrando o seu conhecimento da literatura chinesa. Neste período, Eça de Queirós também voltou o seu olhar curioso para a China, tendo escrito “O Mandarim” e “Chineses e Japoneses”.

Yao Jingming publicou em 2016, em língua chinesa, o livro “O Encontro dos Extremos. Intercâmbio Literário entre a China e Portugal”

É necessário, ainda assim, esperar até ao século XX para ver surgir uma abordagem mais sistemática à cultura e à língua chinesas.

No século XX, vale a pena mencionar uma série de nomes. O padre Joaquim Guerra pode ser considerado como o primeiro sinólogo português. Traduziu para português as obras de Confúcio, de Mêncio e de Laozi, bem como outras que estruturam a cultura chinesa, dando um contributo importante para o entendimento entre os dois povos.

Também não podemos ignorar o trabalho incontornável realizado por outros tradutores, tanto chineses, como portugueses. São disso um exemplo Luís Gonzaga Gomes, Gil de Carvalho, António Graça de Abreu, Fang Weixin, Chen Fengwu, Wang Suoying e Ana Cristina Alves. Agora está a surgir uma nova geração de tradutores que têm vindo a consolidar ainda mais o diálogo entre as duas literaturas, tais como Tiago Nabais, Min Xuefei, Wang Yuan, Jin Xinyi.

Na década de 1990 do século XX, no período que antecedeu a transição de Macau para a China, o Instituto Cultural deu um enorme impulso ao diálogo entre os escritores chineses e portugueses, através da publicação de obras de escritores de ambas as línguas e do lançamento da Revista de Cultura, uma revista de natureza académica, comprometida com a troca de diferentes pontos de vista e os estudos sobre a história e a cultura de Macau.

Foi o Instituto Cultural que organizou, em parceria com o IPOR [Instituto Português do Oriente] e duas editoras chinesas, a Biblioteca Básica de Escritores Portugueses, uma colecção coordenada por mim e por Ana Paula Laborinho que reúne 27 obras representativas de escritores portugueses e macaenses. Estas obras foram publicadas em Macau e no Interior da China, em caracteres chineses tradicionais e simplificados, permitindo aos leitores chineses conhecerem de forma sistemática a literatura portuguesa.

Acha que o intercâmbio cultural e literário entre a China, Portugal e os países de língua portuguesa ganhou um novo fôlego após o regresso de Macau à administração chinesa?

O intercâmbio literário necessita de plataformas que permitam o seu aprofundamento e a sua continuidade. Com base nesta premissa, Ricardo Pinto criou em 2012 o Festival Literário de Macau, o maior evento literário da cidade. Este certame tornou Macau num local de diálogo entre os escritores locais e escritores provenientes de várias partes do mundo, especialmente do Interior da China e dos países de língua portuguesa, e possibilitou que o intercâmbio literário se tornasse regular e estruturado.

A outra figura incontornável é Carlos Morais José, jornalista, romancista, poeta e fundador da Editora Livros do Meio e da revista de sinologia Via do Meio, que também tem contribuído muito para o diálogo literário entre a China e Portugal, através da tradução e da publicação de uma grande quantidade de textos e obras que dizem respeito à história, à arte e à literatura chinesas.

Gostava ainda de mencionar alguns escritores chineses e portugueses que atravessaram fronteiras sociais e culturais, focalizando a sua narrativa na outra comunidade étnica. São disso exemplo Maria Ondina Braga, Deolinda da Conceição, Henrique de Senna Fernandes, Fernanda Dias e Joe Tang.

No que toca aos autores portugueses que escreveram sobre a China, entre Fernão Mendes Pinto, Álvaro Semedo e Camilo Pessanha, qual lhe parece ter deixado uma visão mais duradoura da China?

Dos três escritores que mencionou, escolheria Álvaro Semedo, cujas obras descrevem a China de uma forma mais ampla e mais próxima da realidade. Semedo não é como Fernão Mendes Pinto, cujas descrições contêm muitos elementos fictícios e imaginários, nem como Camilo Pessanha, que, embora adorasse a língua e a poesia chinesas, adoptou uma atitude controversa, por vezes eurocentrista, em relação à cultura chinesa. Álvaro Semedo viveu na China durante muitos anos e teve a oportunidade de observar quase todos os aspectos da China do seu tempo. Escreveu sobre o que viu com os seus próprios olhos.

António Feijó foi um dos primeiros a divulgar a poesia chinesa em Portugal, mas fê-lo de forma indirecta, ao traduzir Li Bai, por exemplo, a partir do francês. Como é que se explica que Portugal não tenha conseguido desenvolver estudos sistemáticos no campo da sinologia?

Não há dúvida de que António Feijó foi um precursor na divulgação da poesia chinesa em Portugal. Embora a sua tradução fosse realizada a partir da tradução francesa, levou, pela primeira vez, a poesia chinesa aos leitores portugueses.

Em relação à falta de estudos sinológicos em Portugal e em Macau, pode-se analisar esta questão do ponto de vista histórico, cultural e institucional. Ao longo da história, muitos missionários portugueses que trabalharam na China podem ser considerados sinólogos: é esse o caso de Álvaro Semedo, de Gabriel de Magalhães e de Joaquim Guerra. Além disso, havia sinólogos macaenses como Pedro Nolasco da Silva e Luís Gonzaga Gomes. Infelizmente, essa tradição não foi desenvolvida de forma coerente e contínua, causando uma lacuna ao nível dos estudos sinológicos, tanto em Portugal, como em Macau. Apesar de Portugal ter sido um dos primeiros países a contactar com os chineses e de manter uma longa história de relacionamento com a China, os estudiosos portugueses raramente centraram os seus estudos na China, preferindo voltar o olhar para a Europa ou para os países de língua portuguesa.

Em relação a Macau, esta cidade de encontro de diferentes culturas reunia condições vantajosas para criar e desenvolver estudos sinológicos, mas isso não aconteceu. As autoridades portuguesas que administraram Macau não estabeleceram um plano educacional de longo prazo para popularizar o ensino do português entre os chineses, nem incentivaram os portugueses a estudar a língua chinesa. Essa lacuna tornou impossível a formação de quadros bilíngues, bem preparados, sem os quais não há uma base para o desenvolvimento da sinologia.

Além disso, durante muito tempo, as autoridades portuguesas de Macau dependiam de intermediários macaenses na comunicação com a comunidade chinesa, o que também contribuiu para a negligência na formação de profissionais versados nas duas línguas. Quando falamos da falta de estudos sinológicos em Portugal, é necessário reconhecer que na China também não há estudos aprofundados sobre Portugal, apesar da criação de mais de cinquenta cursos de estudos portugueses nas universidades chinesas. Neste sentido, a China e Portugal devem nutrir um maior interesse e uma vontade mais forte em conhecer o outro.

Para Yao Jingming, a tradução literária exige um certo grau de recriação

A tradução portuguesa de “O Encontro dos Extremos”, que demorou quase uma década a ser elaborada, acrescenta alguma informação nova?

Julgo que Ana Cristina Alves fez um bom trabalho de tradução. Trata-se de uma tradução difícil, visto que a obra contém numerosas citações e muitas delas têm directamente origem nas obras em chinês. A tradutora deve ter feito das tripas coração para traduzir estas citações. Na última década, houve outras obras a serem traduzidas que enriqueceram o intercâmbio literário entre os dois países, mas andava ocupado com outros projectos e não tive tempo para actualizar a obra, o que é, de certa forma, lamentável.

Que caminhos imagina para o intercâmbio literário sino-português nas próximas décadas? Os autores chineses contemporâneos já são suficientemente conhecidos em Portugal?

O crescente intercâmbio literário dos últimos anos, marcado pela tradução de grandes nomes como Fernando Pessoa, José Saramago, António Lobo Antunes, Lídia Jorge e Eugénio de Andrade para chinês, e de Yu Hua, Mo Yan e Yan Lianke para português, é um sinal muito positivo, mas a presença de autores chineses em Portugal ainda é limitada e concentrada em poucos nomes.

Por outro lado, muitas traduções foram feitas a partir de uma terceira língua, por isso é necessário apostar mais na formação de tradutores que se dedicam com entusiasmo à tradução literária e incentivar académicos a estudar a literatura chinesa e a portuguesa.

Nestes termos, Macau pode aproveitar a sua posição como plataforma de intercâmbio cultural entre a China e os países de língua portuguesa e desempenhar um papel mais activo, através da organização de eventos literários, da oferta de cursos de tradução literária e da criação de um prémio de tradução literária que possa reconhecer os méritos dos tradutores, tanto chineses, como portugueses. Também julgo necessária a criação de uma plataforma digital que permita aos escritores chineses e dos países de língua portuguesa trocarem as suas experiências e divulgarem as suas obras.

Que escritores chineses contemporâneos gostaria de ver traduzidos para língua portuguesa?

Nos últimos anos, o jovem tradutor Tiago Nabais tem feito um trabalho excelente. Traduziu Yu Hua e Yan Lianke – os dois escritores chineses mais representativos da actualidade – para português. Gostaria, no entanto, de recomendar outros três escritores cujas obras ainda não foram traduzidas para o português. Um deles é Liu Zhenyun, cuja escrita se caracteriza pelo humor negro, por uma sátira ácida e por uma narrativa centrada em “pequenos homens” no contexto de grandes mudanças históricas. Acabei de ler o seu mais recente romance, “Piada Salgada”, e gostei muito.

O outro é Liu Cixin, cujo romance de ficção científica “O Problema dos Três Corpos” já foi traduzido para mais de trinta idiomas, provocando um enorme impacto na área da ficção científica. É um livro que oferece aos leitores a oportunidade para ficarem a conhecer a fantástica imaginação dos escritores chineses sobre o futuro da humanidade, em vez de narrar apenas, como é habitual, as experiências dolorosas sofridas pelo povo chinês.

Para além destes, gosto muito de Bi Feiyu, cujas obras – tais como “Milho”, “Massagem”, “Ópera de Lua” e “Bem-Vindos ao Mundo Humano” – retratam a face real da China moderna, rural e urbana, ajudando o público a compreender a China por meio da descrição e da análise da natureza humana. Em relação aos escritores mais jovens, pelas leituras que tenho feito, estou muito bem impressionado com as obras de Shuang Xuetao, Ban Yu e Sun Pin.

O que é necessário para se ser um bom tradutor de língua chinesa?

Para se ser um bom tradutor, é necessária preparação, mas não apenas preparação em termos linguísticos. É necessário conhecer também a cultura, ter bons conhecimentos culturais, mas, outra coisa que eu acho que é importante, sobretudo para os tradutores que trabalham no campo da literatura, é a sensibilidade à língua. A sensibilidade à língua é importante. Não se trata de um trabalho verdadeiramente técnico; é um trabalho literário que requer imaginação, sensibilidade e capacidade de recriar.

Veja-se, por exemplo, o caso da poesia. Há poemas excelentes em português. Como é que um tradutor pode manter a qualidade do poema em português na língua de chegada? Isto é algo que tem de ver não só com a capacidade do tradutor, com o domínio da língua e com os conhecimentos que possui, mas também com a sua sensibilidade. Tem de ser uma pessoa sensível em relação às palavras e à beleza que encerram. Caso contrário, acho que é difícil que um tradutor seja muito, muito bom.

Aposentou-se no ano passado. O que tem andado a fazer Yao Jingming desde então?

Estou, como refere, aposentado das funções que desempenhei na Universidade de Macau, mas não parei de trabalhar. Estou a traduzir uma antologia de poemas de Ricardo Reis e também estou a escrever um livro de crónicas de viagem, acompanhadas das minhas fotografias. Gosto muito de fotografar, mas não sou como os fotógrafos profissionais. Às vezes vou na rua, vejo algo de que gosto e fotografo. Fotografo sempre com o telemóvel. Estou mais interessado em capturar momentos que considero interessantes, não necessariamente para os publicar, mas apenas porque acho que merecem ser fotografados.