As autoridades e empresas no Interior da China estão apostadas em reduzir a sua dependência do plástico, recorrendo a um velho conhecido: o bambu. Os resultados da estratégia já são visíveis, mas especialistas ouvidos pela Revista Macau notam que a transição exige uma abordagem gradual, balanceando inovação com gestão de custos e viabilidade prática
Texto Viviana Chan e Emanuel Graça
Perante o agravamento das alterações climáticas e a consequente – e urgente – necessidade de promover uma descarbonização das economias a nível mundial, a redução da dependência do plástico tem vindo a assumir-se como uma das prioridades de vários governos. A China está na linha da frente deste movimento, com a promoção de uma estratégia de utilização do bambu como alternativa ao plástico.
Se, tradicionalmente, o bambu é conhecido como “a planta dos mil usos”, o objectivo das autoridades do Interior da China passa por ir muito mais além, com base na investigação científica e na inovação tecnológica. Em cima da mesa estão soluções como novos materiais à base de compósitos de fibra de bambu ou filmes de celulose, entre outras. Estes substitutos podem ser utilizados, por exemplo, para a produção de talheres descartáveis, palhinhas ou recipientes de “takeaway”, mas também de teclados de computador ou colunas de som.
Entre as muitas empresas chinesas a recorrer à fibra de bambu como alternativa ao plástico está o Lenovo Group Limited. Foi já há quase duas décadas que o conglomerado tecnológico começou a estudar outras formas para embalar os seus produtos, garantindo segurança e protecção no transporte sem recorrer a materiais plásticos de uso único, como espuma plástica ou plástico-bolha, associados a um elevado impacto ambiental. Em 2023, o grupo Lenovo atingiu um marco significativo: todos os produtos da sua popular linha de computadores portáteis “ThinkPad” passaram a ser completamente embalados com recurso a materiais derivados de bambu.
As autoridades do Interior da China têm desempenhado um papel essencial na promoção nacional do bambu como alternativa ao plástico, estratégia adoptada a nível oficial em 2022. Em 2023, foi lançado um programa de três anos de forma a apoiar a concretização prática dessa visão. De acordo com um comunicado da Administração Nacional de Florestas e Pastagens, datado do final de Janeiro, estão já registados no Interior da China mais de 15.000 tipos de produtos feitos com materiais à base de bambu, sendo que o valor anual de produção do sector ultrapassa os 520 mil milhões de renminbi.
Do petróleo para o bambu
Calvin Sio Kai Tong, co-fundador e director executivo da empresa Zence Object Technology Co. Ltd., ligada ao sector em Macau, explica que os chamados “materiais de base biológica” não são um fenómeno recente; no entanto, o seu desenvolvimento foi acelerado de forma a contribuir para assegurar o cumprimento das metas de neutralidade carbónica anunciadas por diversas nações. “Vários países estabeleceram, de forma generalizada, objectivos para aumentar a proporção de substituição do plástico até 2030 ou 2035, impulsionando simultaneamente o avanço tecnológico e a procura no mercado” por este tipo de solução, nota.

O empresário explica que os plásticos tradicionais derivam sobretudo de subprodutos do petróleo, um recurso não renovável. Além disso, exercem pressão ambiental prolongada após o respectivo descarte. Neste contexto, materiais de base vegetal têm vindo a afirmar-se como substitutos privilegiados. “Seja o bambu ou outras plantas, trata-se essencialmente de substituir materiais de base petrolífera por elementos de origem biológica, num processo de transformação estrutural.”
Ainda assim, o futuro, antevê Calvin Sio, não dependerá do desenvolvimento de um único substituto universal para o plástico. É antes mais plausível o surgimento de um portfólio de materiais, oferecendo diferentes soluções consoante os tipos de utilização. A reutilização de resíduos biológicos gerados nos processos agrícolas ou de consumo – por exemplo, resíduos de chá, uma das áreas de especialização da sua empresa – constitui uma outra direcção a seguir, refere.
Apesar do optimismo, o responsável sublinha que a sociedade está ainda numa fase de transição entre o plástico e o bambu e outros materiais de base biológica. Para acelerar o ritmo de adopção, defende, é necessário reduzir os custos de processamento, reconfigurar as cadeias de abastecimento, elevar os níveis de desempenho dos novos materiais e promover a sua aceitação junto do mercado. “Os novos materiais encontram-se numa fase inicial, exigindo políticas de apoio e uma adaptação progressiva para que a sua aplicação possa ser ampliada”, diz.
Quanto aos custos de produção, o empresário considera existir uma tendência de convergência. “Os custos dos materiais não renováveis deverão aumentar gradualmente, enquanto os materiais de base biológica poderão tornar-se mais competitivos com o aumento da escala de produção, sendo determinante o momento em que se verificar o ponto de intersecção entre ambos.”

“Os custos dos materiais não renováveis deverão aumentar gradualmente, enquanto os materiais de base biológica poderão tornar-se mais competitivos“
CALVIN SIO KAI TONG
DIRECTOR EXECUTIVO DA ZENCE OBJECT TECHNOLOGY
De forma geral, Calvin Sio considera que o plástico convencional continuará a existir, embora com uma redução progressiva do seu peso ao nível da indústria e do quotidiano da sociedade. “O mercado será composto por uma diversidade de materiais, sendo essencial encontrar um equilíbrio entre diferentes cenários de aplicação.”
Recurso que brota do chão
O bambu é um recurso que cresce naturalmente em várias regiões do Interior da China, onde as comunidades locais já o utilizam, há muito, na construção, no artesanato e noutros aspectos do quotidiano. Entre as várias vantagens que oferece está o facto de ser uma planta com um ciclo de crescimento relativamente curto: pode ser colhido em apenas três a cinco anos, e não requer ser plantado de novo para voltar a crescer. Além disso, as florestas de bambu têm a vantagem acrescida de absorver elevadas quantidades de dióxido de carbono.
A China alberga cerca de um quarto das manchas florestais de bambu do mundo, muitas delas associadas a zonas do País menos desenvolvidas. A estratégia de substituição do plástico por este recurso tem também permitido uma valorização dessas áreas verdes e o acesso a rendimentos mais elevados por parte das populações locais.
O Interior da China possui actualmente perto de oito milhões de hectares de florestas de bambu, o que se traduz numa capacidade de produção anual de 150 milhões de toneladas. O sector de processamento conta com mais de 10.000 empresas, sendo que a indústria do bambu emprega, no total, mais de 29 milhões de pessoas.
De acordo com a Administração Nacional de Florestas e Pastagens, o Interior da China possui já um sistema industrial abrangente de promoção do bambu como substituto do plástico. Entre 2024 e 2025, foi implementada uma série de políticas preferenciais por parte das autoridades centrais, incluindo a afectação de mais de 900 milhões de renminbi para apoiar projectos de relevo. Segundo a Administração Nacional de Florestas e Pastagens, foi ainda estabelecido um sistema normativo especializado, que abrange nove categorias e 140 itens.

O desenvolvimento da estratégia de substituição do plástico por bambu está intimamente ligado à investigação científica e à inovação tecnológica. Só no ano passado, as autoridades chinesas promoveram oficialmente a divulgação pública de 37 novos avanços neste campo.
Escala e viabilidade
Stephen Quach Wai-Meng, professor associado do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Macau, indica que vários materiais derivados do bambu já apresentam, em laboratório, capacidade para substituir os plásticos tradicionais em diversos contextos, destacando-se pelas propriedades mecânicas e pelo potencial ambiental. “O desafio deixou de ser técnico no sentido estrito; a questão passa por saber se é possível produzi-los a baixo custo, em larga escala e com padrões consistentes”, afirma, notando a relativa ausência de normas unificadas e sistemas de certificação internacionais a este respeito.
Do ponto de vista operacional, o especialista sublinha a necessidade de avanços ao longo de toda a cadeia produtiva. A montante, é necessário garantir o fornecimento e controlo de custos das matérias-primas; a meio da cadeia, melhorar características dos materiais à base de bambu, como, por exemplo, a resistência à água; e, a jusante, desenvolver processos de produção mais eficientes e com menor intensidade carbónica.
Stephen Quach alerta também para a distinção entre biodegradabilidade e impacto ambiental real. “O facto de um material ser biodegradável não significa necessariamente que seja ambientalmente sustentável em contexto prático.” Sem sistemas adequados de recolha e tratamento, estes novos materiais podem permanecer no meio ambiente durante longos períodos ou interferir com sistemas de reciclagem existentes, avisa.
A adopção em larga escala de produtos à base de bambu levanta ainda questões relativas à gestão sustentável de recursos e ao equilíbrio ecológico. Uma das preocupações é o potencial de pressões ambientais excessivas associadas à extracção de bambu.

“O facto de um material ser biodegradável não significa necessariamente que seja ambientalmente sustentável em contexto prático“
STEPHEN QUACH WAI-MENG
ACADÉMICO DA UNIVERSIDADE DE MACAU
O académico refere que as limitações tecnológicas estão a ser gradualmente mitigadas através da colaboração entre universidades, indústria e centros de investigação. No entanto, defende que a substituição total do plástico pelo bambu e outras matérias de origem biológica exigirá tempo e um conjunto de apoios estruturais.
Mudanças nas práticas empresariais
Ruby O Hok Meng, membro do Conselho Consultivo do Ambiente e presidente da Sociedade de Saúde Alimentar e Ambiental de Macau, afirma que a crescente importância dada a nível nacional à substituição do plástico por bambu não reflecte apenas progresso tecnológico, mas também uma direcção de transformação que engloba políticas públicas, cultura e necessidades sociais.
Segundo a responsável, o bambu já faz parte da vida quotidiana tradicional das comunidades chinesas. No actual contexto de descarbonização e desenvolvimento sustentável, essa ligação pode tornar mais fácil a adopção de novos materiais à base da planta, estimulada por “uma orientação política clara e o aproveitamento das vantagens existentes”, sendo “mais propensa a gerar economias de escala”, afirma.
Já do ponto de vista empresarial, Ruby O indica que as exigências regulatórias ao nível do cumprimento de indicadores ambientais, sociais e de governação corporativa são uma tendência irreversível, particularmente para grandes empresas listadas em bolsa, e isso ajuda à transição do plástico para o bambu.
“Na selecção de materiais, as empresas enfrentam exigências acrescidas de transparência e responsabilidade social, incluindo a redução do uso de embalagens desnecessárias, a optimização das fontes de abastecimento e a elevação dos padrões ambientais ao longo de toda a cadeia de valor”, refere. A dirigente acrescenta que estes requisitos estão também ligados aos mercados de capitais, influenciando notações financeiras e condições de financiamento, o que incentiva as empresas listadas a adoptar materiais alternativos e soluções de baixo carbono.
Ainda assim, a responsável alerta que a sustentabilidade não pode ser alcançada apenas através da substituição de materiais, exigindo uma abordagem sistémica. “Persistem equívocos entre os consumidores relativamente a conceitos como ‘biodegradável’ ou ‘material ecológico’, assumindo-se que o simples uso deste tipo de produtos resolve o problema ambiental, quando, na ausência de sistemas adequados de tratamento, os seus benefícios podem ser limitados.”

“Na selecção de materiais, as empresas enfrentam exigências acrescidas de transparência e responsabilidade social“
RUBY O HOK MENG
PRESIDENTE DA SOCIEDADE DE SAÚDE ALIMENTAR E AMBIENTAL DE MACAU
Ruby O destaca aquilo a que chama de um risco de dependência excessiva de consumo de produtos com “bons” rótulos ambientais, em detrimento de práticas que favoreçam a redução do consumo e a reutilização. “Sem uma compreensão adequada, podem surgir novos problemas ambientais, incluindo efeitos negativos não intencionais.”
A eficácia das medidas ambientais ligadas a novos materiais também varia entre regiões, dependendo da capacidade de reciclagem e tratamento. “Alguns produtos dispõem de condições adequadas de processamento no local de origem, mas essas condições podem não existir noutras cidades”, exemplifica. “Se o destino final for a incineração, o benefício ambiental poderá não diferir significativamente daquele de materiais convencionais.”
No processo de transição do plástico rumo aos derivados de bambu, Ruby O considera que a educação e a transparência são determinantes. “A sustentabilidade deve assentar em comportamentos intrínsecos e não apenas em mecanismos de regulação ou incentivos. Só com uma compreensão do ciclo de vida completo dos produtos e dos seus impactos é possível sustentar mudanças reais de comportamento.”


