Ao longo de 45 anos, a Universidade de Macau cresceu em paralelo com a cidade, transformando-se numa instituição de ensino com ambição global. Com um campus moderno, crescente reconhecimento internacional e um papel cada vez mais relevante na formação de talentos, a universidade afirma-se hoje como um dos pilares do desenvolvimento de Macau
Texto Tony Lai
De uma pequena instituição privada situada numa encosta da Taipa a uma universidade pública com ambição global, a Universidade de Macau (UM) tem acompanhado, ao longo de mais de quatro décadas, a própria transformação da cidade. A instituição cresceu em termos de escala, expandiu o seu alcance académico e reforçou gradualmente a sua projecção internacional, tornando-se um dos principais pilares do desenvolvimento de talentos locais e regionais.
Ao assinalar este ano o seu 45.º aniversário, a UM em pouco se assemelha à instituição dos primeiros anos. Actualmente, ocupa um campus moderno, quase 20 vezes maior, reflectindo não apenas o seu crescimento institucional, mas também a evolução de Macau enquanto centro internacional. Ao longo deste percurso, uma prioridade manteve-se constante: formar talentos para Macau e, cada vez mais, para a região.
Os números ilustram a dimensão desta evolução. Com sete faculdades e mais de 1700 académicos e funcionários administrativos, de Macau e do exterior, a UM ocupa um campus de 1,09 quilómetros quadrados. Oferece 144 cursos de licenciatura, pós-graduação e outros níveis, contando com mais de 16.870 estudantes no último ano lectivo.
Até ao final de 2025, a UM tinha formado mais de 55.900 graduados e, pela primeira vez, entrou no top 150 do ranking do Times Higher Education (THE) de 2026, um resultado do reforço contínuo da sua reputação académica internacional.
A escala e o reconhecimento actuais, porém, tiveram uma origem modesta. As raízes da UM remontam a 1981, com a inauguração da Universidade da Ásia Oriental, uma instituição privada e a primeira universidade moderna de Macau. Em 1988, o então Governo de Macau adquiriu a instituição e transformou-a numa universidade pública, para fazer face à crescente necessidade de formar uma força de trabalho qualificada antes da transferência de Macau para a administração da China, em 1999.
Seguiram-se anos de rápida transformação institucional, incluindo a transição dos cursos de licenciatura de três para quatro anos. Em 1991, a instituição passou a designar-se oficialmente “Universidade de Macau” e, no ano seguinte, foram aprovados os estatutos da instituição, medidas que ajudaram a consolidar a sua identidade e estrutura de governação.
Nelson Kot Man Kam, presidente da Associação dos Antigos Alunos da Universidade de Macau, recorda que o corpo estudantil inicial já era um reflexo da diversidade da região. A maioria dos estudantes vinha de Hong Kong, com turmas posteriores a incluir alunos locais, bem como de Singapura e da região de Taiwan. “A oferta académica era limitada no início, e a UM só começou a desenvolver-se como uma universidade mais abrangente, com uma maior diversidade de faculdades e programas, depois de se tornar uma instituição pública”, refere.
Nos primeiros anos, o papel da UM esteve intimamente ligado à administração pública e ao desenvolvimento da cidade. Nelson Kot, que concluiu a Licenciatura em Administração Pública em 1998, descreve uma época em que muitos funcionários públicos locais, sobretudo os mais experientes, não possuíam formação universitária. “Muitos inscreveram-se na UM para elevar o seu nível de conhecimento enquanto Macau se preparava para a transferência [de administração] e, mais tarde, para a era pós-transferência”, recorda.
A universidade tornou-se também um berço para tradutores de chinês-português e para uma geração de profissionais do Direito – advogados, procuradores, juízes e juristas – que vieram a servir o Governo e diversos sectores da sociedade.
Campus, estatutos e novo fôlego
Com a liberalização da indústria do jogo, em 2002, e a subsequente fase de crescimento impulsionada pelo sector do turismo, a UM passou a responder não apenas à procura de talentos para o sector público, mas também à necessidade crescente de profissionais para a indústria hoteleira. Em meados da década de 2000, consolidou-se a ideia de que Macau “precisava de uma universidade moderna, com padrões internacionais”, capaz de preparar os residentes para competir num contexto global e prontos para enfrentar novos desafios, sublinha Nelson Kot.
Este novo percurso levou à aprovação, em 2006, dos novos estatutos da UM. O Conselho da Universidade, cujos membros são nomeados pelo Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), passou a ser o órgão colegial máximo da UM, substituindo a supervisão directa do Governo e conferindo à universidade maior flexibilidade administrativa e liberdade académica.
Seguiu-se depois a mudança que redefiniu o futuro da UM. Em 2009, o Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional aprovou a construção de um novo campus da UM em Hengqin, sob jurisdição de Macau e com aplicação da legislação da RAEM. A expectativa era que a UM se desenvolvesse como uma universidade de classe mundial, com instalações, corpo docente, graduados e contributos igualmente de nível internacional.
O novo campus em Hengqin foi inaugurado em 2013, com a transferência total concluída no ano seguinte. O deputado Leong Sun Iok considera que esta mudança representou um passo crucial para acelerar o desenvolvimento da universidade. “Com um campus quase 20 vezes maior do que o anterior, a UM pôde ampliar instalações, expandir programas e atrair docentes de maior calibre, reforçando a capacidade global de ensino e também na área da investigação”, afirma.
Exemplo dessa transformação foi a criação das residências universitárias, um sistema introduzido após a mudança para Hengqin e actualmente composto por dez colégios residenciais. Inspirado em modelos de universidades internacionais de referência, o sistema promove a integração de estudantes de diferentes cursos e anos, transformando o ambiente residencial numa extensão da aprendizagem. “A mudança também reforçou a internacionalização da UM, facilitando a atracção de estudantes do Interior da China, regiões de Hong Kong e Taiwan, países de língua portuguesa e outras regiões”, diz Leong Sun Iok.

Reconhecimento global
No ano lectivo de 2025/2026, a UM registou 16.873 estudantes, incluindo 8095 em cursos de licenciatura e 8778 em pós-graduações – o número total representou mais do dobro dos 8000 registados em 2014 e muito acima dos 2865 estudantes matriculados em 1999. Cerca de um terço dos estudantes são locais, enquanto os restantes provêm de quase 60 países e regiões, sobretudo do Interior da China, evidenciando a evolução da UM como instituição focada em Macau para uma universidade regional.
Ao longo dos anos, e com o apoio do Governo Central e das autoridades locais, a UM reforçou também o seu posicionamento no domínio da investigação através da criação de três laboratórios de referência do Estado: Laboratório de Referência do Estado para Mecanismo e Qualidade da Medicina Chinesa; Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos; Laboratório de Referência do Estado de Internet das Coisas para a Cidade Inteligente.
Em colaboração com outras universidades, institutos e empresas, estes laboratórios têm contribuído para impulsionar a investigação de vanguarda e aproximam o trabalho académico das necessidades da indústria e da sociedade, segundo a UM.
Esta expansão foi também acompanhada por uma maior visibilidade internacional. A UM passou a ocupar o 145.º lugar no THE World University Rankings 2026, dez anos depois de ter sido classificada na faixa 401-500. A universidade foi ainda reconhecida na base de dados Essential Science Indicators (ESI), posicionando-se no top 1 por cento das melhores do mundo em impacto de citações em 16 áreas de investigação.
Para Leong Sun Iok, também vice-presidente da direcção da Federação das Associações dos Operários de Macau, o valor da UM não se mede apenas pelos rankings, mas pela capacidade de ajustar a oferta curricular às necessidades da cidade, que continua em constante evolução. À medida que o turismo e os resorts de entretenimento e lazer transformaram a cidade, a UM respondeu com programas como a Licenciatura em Gestão de Resorts Integrados Internacionais.
Mais recentemente, alinhada com a estratégia “1+4” de diversificação adequada da economia, a UM ampliou a oferta académica para áreas como finanças modernas, saúde e tecnologia, que fazem parte dos pilares da política de desenvolvimento da RAEM, salienta o deputado.
Talentos locais e além‑fronteiras
Para a ilustradora local Sara Yang Sio Maan, formada em Estudos Ingleses em 2015, o impacto da UM revela-se sobretudo no ambiente académico. Tendo estudado tanto no campus antigo como no actual, Sara Yang recorda uma cultura de aprendizagem contínua. “Lembro-me de continuar a discutir livros e ideias mesmo fora da sala de aulas”, conta.
Essa experiência levou-a a prosseguir estudos no Reino Unido, onde se especializou em ilustração. Recentemente, tornou-se a segunda artista de Macau seleccionada para a Exposição de Ilustradores da Feira do Livro Infantil de Bolonha, um dos palcos mais prestigiados da área. “Estudar é mais do que adquirir conhecimento. É uma experiência que ajuda a pensar no que queremos fazer da vida”, sublinha.

O desenvolvimento da UM continua, com uma maior aposta na especialização e investigação. No âmbito do projecto da Cidade (Universitária) de Educação Internacional de Macau e Hengqin, um segundo campus da UM está já em construção na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, com conclusão prevista para o quarto trimestre de 2028.
Para Sara Yang, a expansão abrirá novas oportunidades para as próximas gerações. “Isto significa um crescimento no número e no tipo de programas que a UM poderá oferecer, pelo que os futuros alunos terão mais opções por onde escolher, o que cria novas perspectivas para as suas carreiras profissionais”, realça.
De acordo com Nelson Kot, esta nova fase representa o esforço que as autoridades de Macau têm levado a cabo para fortalecer a formação de talentos e aprofundar a estratégia de integração regional. “Ao oferecer condições de ensino de alto nível, a UM pode tornar-se um berço de talentos internacionais de elevada qualidade”, afirma. “Com o apoio contínuo do Governo Central e do Governo da RAEM, a instituição poderá também contribuir para a integração de Macau na região da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau e nas prioridades nacionais mais amplas.”


