A primeira visita oficial do actual Governo da RAEM à Europa marca um momento decisivo na afirmação internacional de Macau. O périplo por Portugal, Espanha, Suíça e Bélgica revela uma estratégia clara de reforço da cooperação externa, promoção económica e valorização do papel único de Macau como plataforma entre a China e o mundo
Texto Tiago Azevedo
A deslocação do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, à Europa, entre 17 e 26 de Abril, representou mais do que uma agenda de relações externas de alto nível: tratou-se de um momento-chave na afirmação internacional de Macau enquanto plataforma estratégica entre a China e o mundo, sinalizando uma nova fase na articulação entre relações externas, economia e cultura no contexto da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).
A visita, que abrangeu Portugal, Espanha, Suíça e Bélgica, foi simultaneamente simbólica e pragmática, inscrevendo-se numa lógica de continuidade histórica e de renovação estratégica das relações de Macau com a Europa e no importante contexto de abertura do País ao exterior.
Tratou-se da primeira visita oficial ao estrangeiro do actual Governo da RAEM, o que lhe conferiu um peso político particular. Mais do que uma apresentação institucional, representou uma acção concreta para apresentar à comunidade internacional os resultados da implementação bem-sucedida do princípio “um país, dois sistemas” e para consolidar a imagem de Macau como uma região estável, aberta e capaz de gerar oportunidades num contexto global em transformação.
Ao falar à comunicação social antes da partida para a Europa, Sam Hou Fai indicou que a visita representava também uma acção fundamental para implementar a mensagem e as instruções do Presidente Xi Jinping, proferidas aquando da sua visita a Macau no final de 2024.
O Chefe do Executivo disse que pretendia aproveitar ao máximo a vantagem específica de Macau de se “basear nos apoios da Pátria e comunicar com o mundo exterior”, contribuindo para a abertura do País ao exterior, concretizando a estratégia de “colaboração entre governo e empresas” e aprofundando ainda mais a cooperação pragmática com os países europeus nas áreas do comércio, economia, turismo, cultura, ciência e tecnologia, entre outras.
Encontro entre o Chefe do Executivo e o Presidente da República Portuguesa, António José Seguro | Sam Hou Fai com a directora-geral da Organização Mundial do Comércio, Ngozi Okonjo-Iweala |
Sam Hou Fai com a ministra do Trabalho de Espanha, Yolanda Díaz Pérez, e o embaixador Yao Jing | ![]() Chefe do Executivo cumprimenta Younous Omarjee, vice-presidente do Parlamento Europeu |
Durante a visita, foram realizados mais de 46 eventos de diferentes tipos, incluindo encontros de alto nível, sessões de promoção de cooperação económica e comercial, promoções turísticas e intercâmbios culturais e educativos.
A escolha de Portugal como ponto de partida não foi fortuita. Reflecte uma herança histórica e cultural singular que continua a moldar o posicionamento internacional de Macau. Em Lisboa, para além dos encontros com os mais altos responsáveis políticos portugueses, o programa integrou iniciativas culturais e económicas que realçam a pujança das relações bilaterais.
Foco empresarial
Ao mesmo tempo, a presença de uma delegação empresarial alargada – cerca de 120 empresários provenientes de Macau, Hengqin e de várias províncias do Interior da China – revela uma clara orientação para resultados concretos.
O modelo, descrito por Sam Hou Fai como “partilhar um barco para navegar em conjunto”, traduz uma abordagem inovadora, em que o Governo da RAEM e o sector privado actuam de forma coordenada na exploração de mercados internacionais, uma iniciativa que recebeu o forte apoio do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado. A estratégia aponta também para uma transformação do papel de Macau: de intermediário passivo para agente activo na construção de redes económicas transnacionais.
A etapa espanhola reforçou esta ambição de alargamento de horizontes. Madrid surge não apenas como parceira bilateral, mas como porta de entrada para o universo dos países de língua espanhola. A ênfase colocada na cooperação turística – área em que tanto Espanha como Macau são destinos globais de referência – sugere a possibilidade de sinergias que vão além do intercâmbio institucional, envolvendo também inovação, promoção conjunta e diversificação de mercados.

Por outro lado, o diálogo com organizações internacionais, nomeadamente em Genebra e Bruxelas, demonstrou a dimensão multilateral da visita. O encontro com responsáveis da Organização Mundial do Comércio e as reuniões com representantes de instituições da União Europeia sublinham a importância de Macau no quadro das relações económicas globais. A capacidade de estabelecer pontes e participar activamente em assuntos internacionais constitui uma prioridade estratégica do Governo da RAEM.
Papel de Hengqin
A dimensão internacional da visita articula-se com a política interna de diversificação adequada da economia de Macau. A aposta em sectores como turismo, cultura e ciência e tecnologia reflecte a necessidade de reduzir a dependência de actividades tradicionais e de criar novas fontes de crescimento sustentável, segundo as autoridades da RAEM. A visita à Europa funcionou, assim, como um catalisador para a identificação de parcerias, transferência de conhecimento e captação de investimento, contribuindo para a construção de um modelo económico mais equilibrado.
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Ainda no contexto da visita, destaca-se o papel de Hengqin. A integração da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin nas iniciativas de promoção externa demonstra a crescente importância desta plataforma na estratégia de desenvolvimento regional. Hengqin surge como extensão funcional de Macau, oferecendo espaço, recursos e condições para a expansão de projectos que, de outra forma, estariam limitados pelas dimensões físicas da RAEM. A inclusão de empresários de Hengqin na delegação reforça a ideia de uma abordagem integrada, em que Macau e Hengqin actuam em conjunto para potenciar oportunidades.

No plano simbólico, a visita assume também uma dimensão de intercâmbio cultural. As exposições, os encontros com estudantes e as actividades de intercâmbio reforçam a imagem da RAEM como espaço de encontro entre culturas.
A visita, segundo Sam Hou Fai no balanço feito a 26 de Abril, constituiu uma acção prática para Macau se tornar numa importante plataforma para a abertura de alto nível do País ao exterior e numa janela relevante de intercâmbio e aprendizagem mútua entre as civilizações chinesa e ocidental. Neste sentido, adiantou, o Governo da RAEM irá reforçar a coordenação e acompanhar com empenho a concretização dos resultados alcançados no périplo europeu.


Encontro entre o Chefe do Executivo e o Presidente da República Portuguesa, António José Seguro
Sam Hou Fai com a directora-geral da Organização Mundial do Comércio, Ngozi Okonjo-Iweala
Sam Hou Fai com a ministra do Trabalho de Espanha, Yolanda Díaz Pérez, e o embaixador Yao Jing
