Empreendedorismo

Liège, o sabor belga “made in Macau”

A recente visita do Chefe do Executivo à Bélgica não foi apenas um gesto político e económico – serviu também como momento de aproximação cultural. Símbolo da ligação entre a RAEM e o país europeu, a marca de waffles Liège oferece produtos com carácter genuinamente belga, fabricados em Macau

Texto Vitória Man Sok Wa
Fotografia Oswald Vas

Em Abril, o Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), Sam Hou Fai, realizou a sua primeira visita oficial à Europa, com uma paragem estratégica em Bruxelas. Tal incluiu um encontro com o vice-primeiro-ministro e ministro do Emprego, Economia e Agricultura da Bélgica, David Clarinval: Macau procura diversificar a sua economia e vê no país europeu um parceiro em áreas como o comércio, os transportes marítimos e a biomedicina.

Do outro lado, David Clarinval notou que a Bélgica está disposta a explorar com Macau os mais diversos domínios, encorajando mais empresas do país a expandirem os seus negócios através da RAEM. No final do encontro, o governante manifestou o seu desejo de visitar Macau, para conhecer melhor a cidade e o seu ambiente internacional.

Na RAEM, David Clarinval terá pelo menos uma oportunidade de se sentir em casa: a marca de waffles Liège – criada localmente – orgulha-se de oferecer o tradicional artigo de pastelaria belga, produzido segundo os padrões do país europeu. Com mais de uma década de existência, o projecto é criação de Jérémy Artan de Saint Martin e da esposa, Maggie – ele da Bélgica, ela de Hong Kong.

A marca foi lançada em 2015 e, de um pequeno ponto de venda inicial, cresceu para os actuais três, com um quarto prestes a abrir. A expansão inclui hoje parcerias de abastecimento a hotéis, resorts e outros negócios de alimentação.

Apesar de comercializarem uma média de 50 mil waffles por mês, os fundadores da Liège insistem que cada unidade seja feita de forma artesanal e em Macau. Para isso, a empresa possui uma unidade de produção própria, de modo a garantir a qualidade e consistência do produto final.

Fazer da paixão waffle

O casal Jérémy e Maggie conheceu-se em Hong Kong e mudou-se inicialmente para Macau em 2009, por motivos profissionais do belga, que estava então ligado à indústria hoteleira. A ideia era ficarem apenas por uma temporada. No entanto, o que parecia provisório transformou‑se em definitivo: apaixonaram‑se pela cidade e, após algum tempo em Xangai, decidiram regressar em 2012 para lançar raízes e construir na RAEM a sua família – que agora inclui três filhas.

“Macau é uma cidade única: por um lado, os resorts integrados e a energia vibrante; por outro, zonas tranquilas e uma vida mais serena”, descreve Jérémy Artan de Saint Martin. “Gostamos da mistura entre culturas orientais e ocidentais, mas também do ambiente internacional que o turismo proporciona. Do ponto de vista empresarial, sempre achei Macau uma cidade dinâmica, ambiciosa e aberta a novas ideias.”

Em 2015, o casal decidiu deitar mãos à massa e fundou a empresa Belgian Tradition Ltd., casa-mãe da marca Liège. A ideia foi sobretudo fruto da paixão.

“Sempre que regressava à Bélgica, a primeira coisa que fazia era comer um waffle de Liège. Para mim, é uma das coisas mais belgas que existem”, conta Jérémy Artan de Saint Martin.

Os waffles da cidade belga de Liège são considerados um dos tesouros culinários do país, caracterizados pela sua massa levedada e densa, entremeada por pérolas de açúcar, que os distingue dos igualmente famosos waffles de Bruxelas. A variante de Liège conquistou já mercados um pouco por todo o mundo, da França aos Estados Unidos da América, passando pelo Japão e pela Coreia do Sul.

O empresário já antes se tinha lançado pelo mundo do empreendedorismo. É também fundador da iExcel Technologies, uma firma tecnológica dedicada à oferta de soluções no campo da inteligência artificial e software, com presença em Macau e em Hong Kong. Além disso, desempenha igualmente cargos nos corpos dirigentes da Câmara de Comércio França‑Macau e da Câmara de Comércio Europeia em Macau.

Mais de uma década depois do lançamento da Liège, o leque de consumidores tornou-se mais amplo, assim como a variedade de produtos disponíveis. O portefólio passou a incluir, entre outros, “speculoos” (biscoitos tradicionais belgas), bolachas artesanais com chocolate e “brownies” de chocolate – sempre belga, claro. Ainda assim, o item mais popular continua a ser o clássico waffle. A empresa emprega actualmente uma equipa de 13 profissionais a tempo inteiro.

“A nossa marca é o resultado da combinação de produção artesanal, qualidade e património belga com a abertura cultural de Macau”, refere Jérémy Artan de Saint Martin. “A Liège é uma tradição belga que encontrou um lar em Macau. Nasceu assim algo maior do que um produto: uma relação viva entre dois lugares diferentes que, ao trabalharem juntos, criam valor e constroem histórias partilhadas.”

O segredo das pérolas

Ao contrário de outras iguarias do género, o waffle de Liège é caracterizado pela massa mais consistente e rica, comparável à de um brioche. Dentro da massa, o açúcar perolado derrete quando entra em contacto com o calor da prensa, formando pequenas bolsas caramelizadas. De formato arredondado e irregular, este waffle é crocante por fora e húmido por dentro, com sabor doce, pelo que se pode comer simples, não sendo necessária a adição de coberturas.

“Sem açúcar perolado, não é um waffle de Liège”, sentencia Jérémy Artan de Saint Martin. No caso da sua empresa, este ingrediente essencial é importado directamente da Bélgica.

Os produtos da marca são confeccionados, de forma artesanal, num centro de produção próprio

A tradição belga dita que o waffle de Liège nasceu no século XVIII, quando o príncipe da cidade pediu ao seu mestre pasteleiro que criasse uma iguaria que fosse simultaneamente macia e crocante para o casamento da sua filha. O pasteleiro misturou fragmentos de açúcar numa massa de brioche e colocou-a numa prensa de waffle. Nascia assim um ícone culinário.

Em Macau, o compromisso com a autenticidade tornou‑se na identidade da Liège, sublinha o fundador da marca. “Embora tenhamos adaptado a forma de apresentar e servir o produto, nunca mudámos o produto em si. A receita continua autêntica. Introduzimos diferentes coberturas e opções de serviço, mas o waffle é sempre feito segundo os métodos tradicionais belgas.”

Para o responsável, a autenticidade começa na receita, mas vive também nos ingredientes, na fermentação e na técnica de produção: “Trabalhamos arduamente para preservar esses elementos, para que os clientes tenham a mesma experiência que teriam na Bélgica.”

À medida que a Liège se enraizou localmente, os seus waffles conquistaram públicos diversos. Hoje, o mercado da marca divide‑se de forma equilibrada entre clientes locais e turistas do Interior da China e de outras proveniências, variando conforme a localização de cada ponto de venda.

Da crise à expansão

A gestão da marca Liège é um trabalho a dois. Jérémy Artan de Saint Martin dedica‑se ao conceito, à consistência dos produtos e à visão estratégica; a esposa Maggie assume o dia-a-dia das operações, vendas e o estabelecimento das parcerias.

“Esse equilíbrio é vital”, sublinha o responsável. “Uma marca pode ter um conceito extraordinário, mas sem execução sólida não sobrevive.”

O percurso da empresa não foi isento de sobressaltos. A verdadeira transformação estrutural ocorreu durante os anos difíceis da pandemia da COVID-19.

Inicialmente, a produção da massa era garantida por uma entidade externa de panificação profissional, para assegurar a conformidade com o sistema internacional de segurança alimentar HACCP, além do cumprimento rigoroso de normas de higiene e o controlo preciso de temperatura e humidade. Tal permitiu que a jovem empresa pudesse oferecer produtos de qualidade internacional e cumprindo rigorosos padrões de produção desde a abertura do primeiro estabelecimento de vendas.

No entanto, com o surgimento da pandemia e o encerramento das fronteiras por motivos de saúde pública, surgiram limitações impactando a cadeia de abastecimento. Perante a situação, o casal tomou uma decisão audaz, que alterou o destino do negócio: investir mais, em vez de recuar.

“Com a COVID-19, todos enfrentámos desafios terríveis”, recorda Jérémy Artan de Saint Martin. “O nosso parceiro de produção estava em grandes dificuldades. Foi nessa altura que decidimos criar a nossa própria unidade de produção independente em Macau. Comprámos toda a maquinaria necessária e montámos um centro de produção próprio. Ao fazê-lo, passámos a controlar completamente toda a cadeia de produção e criámos espaço para novas receitas e produtos. É costume dizer-se que ‘grandes desafios trazem grandes oportunidades’ e nós tentámos aplicar essa filosofia.”

Esse salto em termos de capacidade serviu também de porta de entrada para o mercado corporativo. De repente, os waffles Liège deixaram de ser apenas um produto destinado ao consumidor final e a empresa passou a fornecer buffets de diversos hotéis e resorts de Macau, em lotes que podem variar das 300 às 5000 unidades. Além disso, alargaram-se as possibilidades de parcerias, incluindo com hóteis e restaurantes em Hong Kong.

Olhando para o futuro, os fundadores da Liège planeiam expandir a presença da marca em Hong Kong e chegar a outras cidades na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. Mas Jérémy Artan de Saint Martin faz questão de sublinhar que o objectivo é manter a produção principal na RAEM. “Foi aqui que a marca nasceu e queremos que continue a ser a nossa base operacional”, diz. Nesse sentido, o empresário salienta a importância dos recursos humanos.

Se a visita do Chefe do Executivo a Bruxelas reforçou as ligações institucionais entre Macau e a Bélgica, a Liège espera contribuir, à sua maneira, para aproximar os dois lados no dia-a-dia. “Cada waffle é uma pequena troca cultural entre a Bélgica e Macau. Se conseguirmos ajudar alguém a descobrir a Bélgica através de algo simples e prazeroso, estamos a aproximar os dois lugares”, diz Jérémy Artan de Saint Martin.