Comércio tradicional

Os sabores centenários da Pastelaria Fong Kei

Os sabores clássicos da Pastelaria Fong Kei são bastante populares entre os turistas que visitam a Vila da Taipa
Na Taipa antiga, entre turistas e “selfies”, um balcão discreto distribui sabores a nostalgia. Há mais de 120 anos que a Pastelaria Fong Kei é guardiã de um legado único, pronto a ser descoberto em doces dentadas

Texto Vitória Man Sok Wa
Fotografia: Oswald Vas

Na movimentada Rua do Cunha, o tempo parece não parar, com moles de turistas a subir e descer a pequena artéria pedonal, em constante bulício. No entanto, há um exíguo local por onde os ponteiros do relógio parecem teimar em não passar: trata-se da Pastelaria Fong Kei, um dos negócios mais antigos ainda em operação da Vila da Taipa, que se mantém de portas abertas há mais de 120 anos.

O estabelecimento – que deve o seu nome ao fundador, Kou Fong – carrega uma história que atravessa quatro gerações. Criado em 1902 como uma casa de chá, transformou-se com o tempo numa pastelaria e num verdadeiro ícone da gastronomia local.

Foram os anos 1970 que marcaram a mudança. O sabor artesanal dos biscoitos e pastéis da Fong Kei conquistou primeiro a população de Macau, depois os turistas de Hong Kong e hoje atrai visitantes de todo o mundo.

Mal o dia começa, rapidamente se formam filas de clientes. Entre os produtos mais procurados estão o pastel (ou torta) da esposa (conhecido em cantonense como “lou pou beng”), o biscoito em forma de carne fatiada, o biscoito de amêndoa, o pastel em forma de abalone e o tradicional bolinho de carne de porco.

Tal como nos sabores, ao longo das décadas, pouco mudou no interior da Fong Kei. Quem atravessa os portões metálicos de correr do estabelecimento, onde se destacam os caracteres “Fong” e “Kei”, pode pensar que viajou no tempo, seja pela decoração “vintage” ou pelo mobiliário antigo.

Em Abril, este reduto da pastelaria tradicional viu a sua longevidade e relevância cultural consagradas com o título de “Marca Centenária”. Trata-se de uma nova iniciativa levada a cabo pela Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico e pela Macau Chain Stores and Franchise Association, que distinguiu dez estabelecimentos locais na sua edição inicial.

O reconhecimento confirma a Fong Kei como guardiã de uma tradição que resiste ao tempo e continua a ser referência na Taipa. Hoje, a empresa segue sob a terceira e quarta gerações da família Kou: Kou Shi Lon e o filho Kou Chi Kei.

“Receber este título é motivo de grande orgulho”, afirma Kou Shi Lon, referindo-se ao galardão de “Marca Centenária” e agradecendo também o apoio promocional que tem sido disponibilizado à marca pela Direcção dos Serviços de Turismo. “O nosso compromisso é apenas continuar aquilo que o meu bisavô começou, mantendo intacto o legado que nos foi confiado”, acrescenta o filho.

o meu bisavô começou, mantendo intacto o legado que nos foi confiado”, acrescenta o filho.
O reconhecimento não se fica por aqui. Em 2016, o afamado Guia Michelin para Macau e Hong Kong, aquando do lançamento da categoria “street food”, incluiu a Fong Kei entre as suas recomendações. Desde então, a pastelaria tem mantido, de forma consecutiva, a distinção.

Do chá para os bolinhos

Para lá dos sabores, a Pastelaria Fong Kei é também testemunha da transformação experienciada pela Taipa ao longo dos últimos 120 anos.

“Quando a Fong Kei ainda era uma casa de chá, e eu era criança, a Taipa era uma localidade pequena, com cerca de dez mil habitantes. Existiam apenas algumas povoações e casas de chá, não havia prédios grandes”, recorda Kou Shi Lon.

“Abríamos as portas religiosamente às quatro da madrugada para servir o chá matinal. Os operários precisavam de tomar o pequeno‑almoço cedo, antes de enfrentar turnos de trabalho extremamente duros.”

Naqueles tempos, a Fong Kei servia sobretudo os moradores locais e os trabalhadores das fábricas de panchões. Muitos clientes só pagavam a conta no dia em que recebiam o seu salário, um costume que reflectia a vida comunitária de então.

No entanto, a pólvora e os componentes químicos utilizados na indústria dos panchões acarretavam riscos de calotes. “Se na fábrica ocorresse uma explosão súbita, o que infelizmente acontecia por vezes, aquele cliente podia desaparecer da noite para o dia e a conta ficava por pagar”, lembra Kou Shi Lon. “Mas era assim a vida na comunidade; havia uma entreajuda no essencial.”

Nos anos 1970, a família decidiu encerrar a parte da casa de chá, embora inicialmente mantendo em parte o serviço de refeições ligeiras.

“A nossa mudança de casa de chá para pastelaria aconteceu cerca de dois anos antes da inauguração da Ponte Governador Nobre de Carvalho, a primeira ligação entre a península e a Taipa”, conta Kou Shi Lon. “Na altura, estava na moda acompanhar chá com bolachas chinesas. Assim nasceu a Pastelaria Fong Kei.”

A decisão revelou‑se profética. “Quando a ponte abriu em 1974, houve uma verdadeira explosão de visitantes. Pela primeira vez, as pessoas podiam conduzir até à Taipa. Lembro‑me de filas intermináveis de carros que congestionavam por completo as estradas estreitas da vila e de ver multidões que vinham em busca dos nossos bolos”, recorda.

Sabores verdadeiramente artesanais

Um dos pilares da singularidade da Pastelaria Fong Kei prende-se com uma recusa firme à industrialização dos processos de produção. Numa era em que muitas marcas de biscoitos tradicionais optaram por fábricas automatizadas e produção em larga escala, a Fong Kei aponta na direcção oposta.

Da preparação da massa à ida ao forno, tudo continua a ser feito à mão. É nesse gesto paciente e artesanal que cada biscoito ganha identidade própria, privilegiando-se a excelência em detrimento da quantidade, explicam os proprietários.

No piso superior do diminuto estabelecimento na Rua do Cunha – e numa unidade localizada nas imediações –, a produção acontece diariamente. Ali, os membros da família Kou trabalham lado a lado com um grupo de ajudantes, guardando receitas transmitidas ao longo de quatro gerações.

“Ao crescer nesta pastelaria, nunca ouvi a palavra ‘conservantes’”, sublinha Kou Shi Lon. “Normalmente, não fazemos grandes quantidades. Avaliamos o fluxo de clientes e produzimos em conformidade. Se há mais movimento, produzimos mais; se está calmo, fazemos menos.”
Essa flexibilidade permite à Fong Kei garantir a frescura dos produtos, sem nunca trair os sabores originais. “A receita tem de ser a mesma que o nosso fundador Kou Fong passou às gerações seguintes”, enfatiza Kou Shi Lon.

Ainda assim, o responsável admite que o futuro pode trazer ajustes. A sua filosofia de manter a receita tradicional é “inegociável, mas adaptável”. E explica: “Hoje, os consumidores preferem produtos com menos açúcar e menos gordura. Isso já passará pelo meu filho, Chi Kei, que decidirá.”

Até o processo de embalamento recusa a automatização. “Embalar de forma mecanizada exige maquinaria pesada e processos químicos típicos de produção em larga escala. O nosso conceito de ‘feito à mão’ significa frescura absoluta”, confirma Kou Chi Kei.

O bolinho de carne de porco, estaladiço por fora e denso por dentro, e também conhecido como “folhado de frango” pela sua forma, continua a ser o favorito dos visitantes do Interior da China, de acordo com os proprietários. Já o biscoito em forma de carne fatiada é historicamente uma das preferências do público de Hong Kong. Por fim, o clássico pastel da esposa mantém a sua popularidade entre a clientela do Sudeste Asiático.

Particularmente complicado de produzir, o pastel em forma de abalone revela a mestria artesanal da casa. “Devido à sua extrema complexidade, o pastel em forma de abalone quase desapareceu no passado, mas fiz questão de o resgatar para manter vivo o portefólio tradicional”, partilha Kou Chi Kei.

A ausência de aditivos químicos dita a forma como os produtos devem ser consumidos. Os proprietários da Fong Kei aconselham os clientes a guardarem os pastéis no frigorífico se não os consumirem de imediato e, na hora de servir, a utilizarem um forno tradicional para os aquecer e regenerar a textura.

Nova geração

Em 2018, a gestão diária da Pastelaria Fong Kei passou a contar com Kou Chi Kei, então na casa dos 20 anos e recém‑licenciado em Gestão de Empresas nos Estados Unidos da América. O regresso foi marcado pela decisão de eventualmente assumir a liderança da casa fundada pelo bisavô.

A pastelaria segue sob a terceira e quarta gerações da família Kou: Kou Shi Lon (dir.) e o filho Kou Chi Kei (esq.)

“Não tive grandes crises existenciais ou dramas familiares. Sendo filho único, percebi muito cedo que, se eu não regressasse, a pastelaria do meu bisavô e do meu pai eventualmente morreria. O facto de ter estudado gestão deu‑me ferramentas, mas a decisão de voltar foi puramente moldada por um sentido de responsabilidade”, afirma.

O exigente trabalho manual não o fez desanimar. “Trabalhar numa pastelaria artesanal significa horários longos, presença constante no balcão e na produção, e abdicar de rotinas comuns a outros jovens, como os fins‑de‑semana livres”, nota.

Ao lado, o pai acrescenta com a experiência toldada por muitos anos de trabalho: “A vida dos meus pais e a minha foi sempre dentro desta loja. Nunca havia tempo para parques ou cinema com os filhos; estávamos sempre a trabalhar. Aqui não existe horário das nove às cinco. Com pastelaria produzida artesanalmente, é preciso estar na linha da frente a controlar cada fornada, para garantir a qualidade.”

Apesar das mudanças nos hábitos sociais e de consumo, pai e filho acreditam que a Fong Kei não precisa de alterar a sua filosofia para conquistar os consumidores mais jovens. “Hoje, quando a produção industrializada é tão comum e todos os produtos parecem iguais, aos olhos da juventude, a produção artesanal é algo raro – por isso, somos populares entre essa geração”, explica Kou Shi Lon.

Quanto à promoção, assenta sobretudo no “passa-palavra”. “Em vez de gastarmos tempo e energia em publicidade, como somos uma equipa pequena de âmbito familiar, com pai e filho no fabrico e mãe no atendimento ao balcão, preferimos focar os nossos recursos na produção. Afinal, a nossa paixão é servir bolos e biscoitos com sabor tradicional e qualidade superior”, diz o responsável.