Frederico Cordeiro

A Macau que o tempo guardou

Frederico Cordeiro
Cresceu em dias incertos que transformaram Macau, e a sua vida confunde-se com a própria história da modernização da cidade. Entre o serviço público, o desporto, a rádio e o associativismo, Frederico Cordeiro deixou marca em algumas das instituições mais emblemáticas da região. Fundador do Lusitânia Sport Clube e figura central no renascimento da Irmandade de Santo António de Lisboa (Macau), olha hoje para uma Macau feita de memórias, afectos e comunidade

Texto Marco Carvalho
Fotografia Oswald Vas

Encontrou no desporto – primeiro como atleta e, depois, como dirigente – o pêndulo com que compassou um percurso que se adivinhava, desde a infância, exigente e laborioso. Nascido no seio de uma família numerosa, onde as privações e as dificuldades eram o pão de cada dia, Frederico Cordeiro fez do hóquei em campo – e, em menor medida, do futebol – uma ferramenta de afirmação social e um trampolim para uma existência a que procurou dar sempre um sentido mais profundo.

No há muito desaparecido Campo da Caixa Escolar, onde agora se espraia a Praça do Tap Seac, tornou-se um atleta de eleição – um dos poucos filhos da terra a ter envergado a camisola da selecção portuguesa de hóquei em campo nas arenas internacionais. Depois de dar descanso ao stick, fundou o Lusitânia Sport Clube e transformou a paixão pela modalidade, hoje bem menos fulgurante do que nas décadas douradas de 1960 e 1970, num estandarte de união.

Homem de fé e de convicções inabaláveis, herdou dos pais a crença absoluta na presença do divino em todas as coisas e foi um dos grandes obreiros do ressurgimento de uma das mais antigas confrarias religiosas de Macau, a Irmandade de Santo António. Aos 86 anos, Frederico Cordeiro abre o livro sobre uma Macau que se tece com os fios delicados da saudade e do resplendor da memória.

Cresceu no meio de um rancho de gente, cinco irmãos e três irmãs confinados numa moradia parca demais para tanto rodopio, num arruamento de almas remediadas, mas felizes. Nos anos que precederam o inferno da Guerra do Pacífico, a Rua Nova de São Lázaro era uma coutada eminentemente macaense.

A casa onde Frederico Cordeiro viveu a meninez encimava o caminho, a do tio fechava a rua e, lá pelo meio, moravam os Mendonça e os Xavier, cada um com o seu próprio rebanho de crianças. Onde há ganapada, há vida. O empedrado das artérias do bairro pulsava com berros, gargalhadas e a explosiva alegria da infância, num manancial de vida que desaguava no largo da Igreja de São Lázaro com a mesma naturalidade com que um rio se lança ao mar.

“Comecei a jogar hóquei e futebol no adro da Igreja de São Lázaro. Fazia parte de um grupo de seis, sete miúdos que praticavam hóquei. Jogávamos com uma bola de ténis e equipamento improvisado”, recorda Frederico Cordeiro.

Palco privilegiado de jogos e brincadeiras, a Igreja de São Lázaro nunca foi, porém, para o clã Cordeiro, berço espiritual. O estatuto pertenceu desde sempre à Igreja de Santo António, na vertente oposta da Colina do Monte, cujo rigor neoclássico serviu durante décadas como cenário predilecto aos enlaces de boa parte da comunidade macaense.

Frederico Cordeiro não foi excepção: “Os meus pais eram muito devotos de Santo António e transmitiram esta devoção a toda a família. É muito natural que tenhamos seguido os caminhos que foram traçados pelos nossos pais”, considera o antigo funcionário público. “Casei na Igreja de Santo António, comemorei as bodas de prata na Igreja de Santo António e foi ali que celebrei não só as bodas de ouro, como também as bodas de diamante. Praticamente toda a minha família tem uma imensa devoção a Santo António”, acrescenta.

A Igreja de Santo António acompanhou o percurso de vida do antigo atleta

A arraigada devoção ao milagreiro português, patrono dos bons casamentos e advogado dos objectos perdidos, converteu-se em responsabilidade quando Frederico Cordeiro assumiu um papel central no desígnio de resgatar a Irmandade de Santo António a um declínio que parecia irremissível. A perspectiva morava, contudo, num futuro distante e nebuloso quando, ainda adolescente, pisou pela primeira vez o garboso relvado do Campo da Caixa Escolar.

“Entrar naquele campo era um ritual sagrado. Havia uma pessoa que estava incumbida de zelar pelo relvado, para que se mantivesse sempre perfeito. O campo era cilindrado uma vez por semana, parecia relva sintética. Era um relvado lindo”, recorda o antigo hoquista.
Instituída por portaria governamental em Maio de 1919 com o objectivo primordial de apoiar os alunos carenciados das escolas públicas de Macau, a Caixa Escolar de Macau converteu-se, inadvertidamente, no centro nevrálgico do desporto local e no maior viveiro de campeões que Macau conheceu, entre eles, Frederico Cordeiro.

“No complexo da Caixa Escolar, havia um campo, com o piso meio em relva e meio em areia, e nós íamos para lá jogar enquanto a malta do Hóquei Clube de Macau treinava no relvado principal. Um dia, o tenente Filipe O’Costa, que tinha regressado para preparar a equipa tendo em vista a participação nos Jogos Olímpicos de Melbourne, viu-nos a jogar e falou com o Herculano Rocha para que eu e um outro miúdo nos juntássemos a eles. Foi aí que tudo começou”, conta.

“O Campo da Caixa Escolar recebeu grandes jogos. Todos os anos disputávamos a Taça Spalding com uma equipa de Hong Kong. Era um intercâmbio anual que se disputava alternadamente ora em Macau, ora em Hong Kong”, acrescenta. “Quando o Interport se realizava em Macau, o Campo da Caixa Escolar estava todo vedado, com barreiras de palha e de bambu. O bilhete custava 50 avos e as bancadas estavam sempre cheias.”


Jovem e talentoso, o hoje presidente honorário da Associação de Hóquei de Macau equilibrou durante décadas a paixão pela modalidade com uma disciplina profissional inexcedível. Frederico Cordeiro dedicou 26 exigentes e longos anos aos Correios de Macau e, durante uma boa parte deles, combinou o expediente postal com uma outra fonte de sedução. A partir das cinco e meia da tarde, a Emissora de Radiodifusão de Macau reclamava a sua presença no éter e Frederico Cordeiro era um dos que faziam a magia acontecer.

“Quando estava nos Correios, o meu chefe era o Fernando Macedo Pinto, um dos fundadores do Grande Prémio de Macau. O Macedo Pinto perguntou-me um dia se eu queria trabalhar fora do horário de expediente na Emissora da Radiodifusão de Macau. Eu disse logo que sim”, esclarece.

Dirigida por Alberto Alecrim, a antecessora da actual Rádio Macau emitia, numa primeira instância, a partir do Edifício Sede dos Correios, no Largo do Senado. Foi lá, com vista privilegiada para o coração pulsante da cidade, que Frederico Cordeiro se deixou arrebatar pelo magnetismo e pelo fascínio das ondas hertzianas. Entre a torre dos Correios e a Rua de Pedro Coutinho, para onde as instalações da radiodifusão foram posteriormente transferidas, o antigo atleta abraçou a magia da rádio durante 18 anos.

“O serviço nos CTT terminava às cinco e um quarto da tarde e depois começava na rádio. Trabalhava até às oito da noite, altura em que havia mudança de turno e um outro colega assumia a emissão. No dia seguinte, era o contrário. Eu entrava às oito e saía às onze horas. No terceiro dia, folgava. Foi um período bastante bom da minha vida”, realça.


Na Macau em que Frederico Cordeiro cresceu e se fez homem, o tempo diluía-se de outro modo. Longo e indolente, o estio impunha uma sede ilusória de frescura e a população encontrava em dois refúgios bem distintos uma forma de paliativo para a persistente languidez dos meses quentes. A zona onde agora está o reservatório e onde se ergue o Terminal Marítimo do Porto Exterior transformava-se num cenário de animado convívio, com a instalação de dezenas de barracas de banho. Suspensas sobre as águas e alugadas por temporada, as frágeis, mas confortáveis edificações eram o lugar onde dezenas de famílias locais desencantavam a felicidade dos pequenos gestos nas idas a banhos, numa época em que a cidade desconhecia o ritmo febril do turismo moderno e as deslocações se faziam a pé ou de riquexó.

“Na altura do Verão, as barracas de banho eram ponto de paragem obrigatório. Não havia piscinas, mas na zona onde agora atracam os jetfoils estava tudo coberto por barracas. Eram feitas e exploradas por meia dúzia de empreendedores. Umas eram feitas para vender, outras para alugar. Eu e os meus irmãos alugávamos uma barraca e íamos para lá nadar”, conta Frederico Cordeiro.

Em contraste com a natureza semi-urbana das barracas de veraneio, a travessia para Coloane exigia um planeamento quase ritualístico. Antes de se planificar uma visita à ilha, então remota e quase deserta, era necessário consultar escrupulosamente as tabelas das marés. O vapor lento que ligava a península às ilhas demorava quase uma hora a vencer o canal. O regresso estava inevitavelmente sujeito ao capricho das águas, sob pena de se ficar retido a meio do caminho.

“Entre a Barra, em Macau, e a Taipa, o barco levava meia hora. Para chegar a Coloane era necessária mais meia hora, mas nem sempre o barco fazia a última parte da viagem, por causa da maré. Tínhamos um livro com as tabelas da maré e, quando chegávamos a Coloane, tínhamos de agendar o nosso regresso tendo em conta a dança das marés. Tínhamos de voltar logo às cinco, porque às sete a maré baixava e apanhávamos lodo”, acrescenta.

Uma vez em terra, Cheoc Van ficava à distância de uma pequena e aprazível caminhada. Na pequena enseada, a recompensa era o silêncio e a partilha de farnéis em família, em dias pautados pela simplicidade e pela cumplicidade dos afectos. “Havia uma estrada de pedra e nós caminhávamos até Cheoc Van. Quando lá chegávamos, estendíamos uma toalha no areal e fazíamos um piquenique”, recorda. “As melhores memórias estão sempre ligadas à juventude, não é?”, remata Frederico Cordeiro.