Desporto escolar

Onde nascem os campeões

O futebol continua a ser a modalidade que atrai mais estudantes para campeonatos interescolares
Os campeonatos interescolares são, para muitos jovens, a primeira experiência competitiva e um importante ponto de partida para o desporto federado. Atletas, treinadores e professores defendem uma ligação cada vez mais estreita entre escolas e associações para garantir o futuro do desporto em Macau

Texto Vítor Rebelo

Todos os anos, milhares de alunos entram em campo, mergulham na piscina, alinham na pista ou disputam jogos nos pavilhões escolares de Macau. Para muitos, os campeonatos interescolares são apenas mais uma actividade do calendário escolar. Para outros, representam o primeiro contacto com a competição organizada e o início de um percurso que poderá prolongar-se no desporto federado.

Actualmente, o desporto escolar em Macau engloba mais de uma dezena de modalidades, sendo o futebol a mais procurada pelos estudantes. Mas, mais do que os resultados ou os troféus, atletas, treinadores e professores ouvidos pela Revista Macau convergem numa ideia: é na escola que se constrói a base da pirâmide do desenvolvimento desportivo. Para que essa base produza novos talentos, acrescentam, é essencial reforçar a articulação entre o ensino e o movimento associativo.

O desporto escolar e o desporto federado são duas realidades distintas, mas complementares. Em Macau, e em particular através dos campeonatos interescolares, o desporto escolar tem conhecido um desenvolvimento assinalável. No ano lectivo que terminou em Junho do corrente ano, os estudantes locais competiram em 14 modalidades. Entre as mais populares destacam-se o futebol, o atletismo, a natação, o basquetebol, o voleibol e o badminton. O calendário inclui igualmente provas de ténis de mesa, andebol, judo, bolinha, ténis, corta-mato, hóquei em campo e artes marciais.

Com o início de um novo ano lectivo, as escolas começam desde logo a preparar uma das actividades extracurriculares que maior entusiasmo desperta entre os alunos: os campeonatos interescolares organizados pela Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).

Em Novembro, arrancam as competições, inicialmente na fase de grupos, abrangendo alunos do ensino primário ao secundário, distribuídos pelos escalões A a D e, em algumas modalidades, também pelo escalão E, destinado aos mais novos. No conjunto, participam crianças e jovens com idades compreendidas entre os seis e os 19 anos.

A DSEDJ pretende continuar a reforçar a articulação entre o sistema educativo e o movimento associativo. Em resposta à Revista Macau, o organismo refere que “continua a colaborar com os serviços desportivos e com as diversas associações desportivas, no sentido de estabelecer um mecanismo diversificado de selecção e formação de quadros qualificados desportivos juvenis, bem como de aperfeiçoar a constituição de equipas de jovens atletas, de modo a que os jovens com potencial possam receber treinos sistemáticos o mais cedo possível”.

A DSEDJ acrescenta que, “através de um mecanismo de dois níveis, é generalizada a prática do exercício físico e proporcionada uma plataforma de desenvolvimento”.

O primeiro nível dirige-se à generalidade dos alunos, procurando fomentar hábitos regulares de actividade física. Para esse efeito existe, por um lado, um currículo que garante aos estudantes do ensino primário e secundário um mínimo de 150 minutos semanais de prática desportiva e, por outro, os projectos da “Escola Dinâmica”, implementados a partir do ano lectivo de 2024/2025.

Inseridos no âmbito das “seis medidas desportivas”, estes projectos incluem o financiamento para aquisição de equipamentos desportivos, a realização de competições interescolares, a criação do Plano de Incentivo “Escola Dinâmica”, o estímulo para que os alunos pratiquem 200 minutos semanais de actividade física integrada, bem como a definição de metas e pequenas tarefas desportivas.

Além disso, adianta a DSEDJ, o estabelecimento da ficha de aptidão física dos alunos permite que “o desporto se torne uma parte integrante e importante da vida escolar”.

No ano lectivo que agora arranca, passará a ser criado um financiamento específico destinado à aquisição de equipamentos e sistemas desportivos inteligentes pelas escolas, “de modo a orientar os alunos a praticarem desporto, tornando-o um hábito permanente em prol de uma vida saudável”, acrescenta o organismo.

O segundo nível destina-se aos alunos que revelam interesse e potencial desportivo. Nesse âmbito, realizam-se diversas competições escolares, ao mesmo tempo que é apoiada a participação dos estudantes em provas regionais e internacionais, incentivando as escolas a seleccionar e desenvolver “talentos desportivos com potencial”.

Paralelamente, o Plano de Financiamento para o Desenvolvimento das Escolas, integrado no Fundo Educativo, prevê subsídios específicos para apoiar actividades desportivas extracurriculares diversificadas e acções de formação especializada.

Experiência internacional

Para além dos campeonatos realizados anualmente na cidade, são constituídas equipas e selecções escolares para representarem Macau em competições internacionais e regionais. O objectivo, explica a DSEDJ, é criar uma “plataforma de intercâmbio para os alunos acumularem diversos tipos de experiência competitiva”.

Macau promove regularmente a participação de selecções escolares em competições internacionais e regionais

Em 2026, Macau participou no Mundial de Basquetebol para Alunos do Ensino Secundário, disputado em Zlatibor, na Sérvia. Marcou igualmente presença no Mundial de Voleibol do mesmo escalão, realizado em Shangluo, na província de Shaanxi, e na Nike China High School Basketball League, em Pequim, onde a equipa masculina atingiu, pela primeira vez, os oitavos-de-final da competição nacional. As equipas escolares participaram ainda em torneios de basquetebol e futebol na região da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.

A DSEDJ adianta igualmente que continua a aperfeiçoar o mecanismo de formação de atletas escolares, realizando “de forma regular” treinos centralizados nas modalidades de voleibol e basquetebol.

“Através de um treino sistemático e regular, pretende-se elevar o nível técnico e a aptidão física geral dos alunos-atletas. Ao mesmo tempo, combinando diversos indicadores como a capacidade específica e a condição física, procede-se à selecção de novos talentos com potencial no âmbito dos treinos das equipas escolares e das diversas competições escolares”, salienta.

Para reforçar esse trabalho, a DSEDJ e o Instituto do Desporto vão lançar, no ano lectivo de 2026/2027, um novo plano base para a formação de “atletas de elite escolares”. A iniciativa pretende estabelecer, “de forma inovadora”, um mecanismo de articulação entre o desporto associativo e o desporto das escolas do ensino não superior.

O primeiro palco

É no contexto escolar que muitos jovens atletas têm o primeiro contacto com a competição organizada. Para alguns, os campeonatos interescolares constituem a porta de entrada para o desporto federado; para outros, representam um complemento indispensável ao trabalho desenvolvido nos clubes. Em comum, todos reconhecem o papel da escola na descoberta e formação de novos talentos.

O corta-mato está entre as 14 modalidades do desporto escolar

Miguel Rezende é um desses exemplos. Representa a Escola Portuguesa de Macau (EPM) nos campeonatos interescolares e joga igualmente pelo Chiba na Liga de Elite, o primeiro escalão do futebol em Macau.

“O desporto escolar foi o meu primeiro laboratório de competição”, começou por dizer à Revista Macau. “Foi aí que aprendi com a pressão de jogar com público, com a arbitragem e com a exigência táctica antes de chegar aos treinos federados.”

Para o estudante de 18 anos, o desporto escolar “é a base da pirâmide”, uma vez que “muitos em Macau nunca vão para um clube, porque as famílias não têm tempo, ou recursos, mas vão à escola”.

Depois de cerca de oito anos a competir nos campeonatos organizados pela DSEDJ, considera que “o desporto escolar é o único olheiro gratuito e universal”.

“É lá que se descobrem miúdos que têm coordenação, velocidade ou altura, mas que nunca se tinham visto num contexto competitivo”, sustenta.

Na sua opinião, “se não houver campeonatos escolares bem organizados, vamos perder atletas por falta de visibilidade”. Por isso, acredita que, “para o futuro de Macau, é fundamental que os clubes olhem para as escolas como viveiros, e não como concorrentes”.

Miguel Rezende entende igualmente que a ligação entre o desporto escolar e o federado deve ser “prática e burocraticamente leve”, apontando um caminho concreto: “As escolas e as associações devem sentar-se para evitar sobreposição de provas, para que um jovem atleta não tenha de escolher entre o campeonato escolar e o federado.”

Questionado sobre a evolução do desporto escolar em Macau, o jovem atleta considera que houve progressos, embora admita que estes têm ocorrido “a passos lentos”.

Oportunidade para mostrar potencial

Também Eduardo Macedo reparte a actividade entre os campeonatos escolares e o futebol federado. O jovem, de 17 anos, representa igualmente a EPM, enquanto no campeonato local alinha pelo MUST IPO.

Na sua perspectiva, a participação nos campeonatos interescolares permitiu-lhe ganhar experiência competitiva, melhorar o trabalho em equipa e desenvolver as capacidades técnica e táctica.

“Tudo isso contribuiu para a minha evolução como jogador federado”, afirma.

Considera igualmente que o desporto escolar desempenha um papel essencial por permitir que muitos jovens tenham um primeiro contacto com a competição e possam revelar as suas capacidades. “É uma boa forma de identificar talentos que não participam no campeonato federado e motivar os alunos a continuarem a praticar desporto.”

Quanto à articulação entre escolas e associações, defende uma colaboração mais estreita, assente na “partilha de informação, acompanhamento dos atletas e mais oportunidades para os alunos mais destacados se integrarem em equipas federadas”.

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A mesma ideia é partilhada por Annie Leong On Ieng, uma das principais atletas de voleibol de praia de Macau. A jogadora iniciou o percurso nos campeonatos escolares quando frequentava o 4.º ano do ensino básico e competiu durante cerca de oito temporadas naqueles campeonatos.

A atleta recorda esse período como determinante para a sua formação. “Quando os alunos se esforçam tanto nos treinos, precisam de competição para saberem em que aspectos podem melhorar e também para treinarem a sua mentalidade”, diz.

A competição escolar, acrescenta, é igualmente importante “para aprenderem como reagir em caso de derrota, ou a não serem demasiado arrogantes quando vencem”.

Embora reconheça a evolução do voleibol em Macau, entende que continuam a existir limitações ao nível das infra-estruturas, defendendo que devem ser construídos mais campos de voleibol para se continuar a desenvolver o desporto.

Uma colaboração permanente

A importância do desporto escolar não se limita, contudo, à identificação de talentos. Para Dominic Masters, licenciado em Ciências do Desporto e do Exercício e antigo responsável por equipas de futebol da Escola Internacional de Macau (TIS, na sigla em inglês), trata-se também de um instrumento fundamental de formação pessoal.

Actualmente coordenador do ensino secundário da TIS, Dominic Masters considera que o desporto escolar transmite valores como “espírito desportivo, respeito, esforço e trabalho em equipa”, apontando duas razões principais para a sua relevância.

A primeira prende-se com o facto de criar oportunidades, “proporcionando a muitos alunos o contacto constante com diferentes desportos e actividades, pelo que não se depende de descobertas fortuitas fora da escola”.

A segunda resulta da possibilidade de “professores e treinadores poderem identificar talentos e incentivar os alunos a explorarem e desenvolverem ainda mais as suas aptidões”.

Na sua perspectiva, para que a ligação entre escolas e associações seja eficaz, deve assentar “numa colaboração estruturada e contínua”.
Entre as medidas que considera prioritárias está o reforço da capacidade de treino durante o horário escolar e o estabelecimento de parcerias permanentes com clubes e academias.

De acordo com Dominic Masters, cada interveniente deve desempenhar funções bem definidas. “As associações fornecem conhecimentos especializados e estruturas de treino, enquanto as escolas proporcionam acesso à participação, segurança e uma estrutura de participação regular.”

Na sua opinião, quando estas condições estiverem reunidas, “é muito mais provável que o objectivo – participação em primeiro lugar, competição em segundo, desenvolvimento de talentos ao longo de todo o processo – se concretize”.

Na TIS, explica, a participação continua a ser a prioridade. Os alunos são incentivados a experimentar diferentes modalidades, independentemente do nível inicial, sendo a competição introduzida de forma gradual.

Mais importante do que os resultados é a formação do carácter. “O espírito desportivo, o respeito, o esforço e o trabalho em equipa são ensinados e reforçados – a vitória pode ser um resultado destes valores, mas isso não é a prioridade quando se promove o desporto para todos.”

A escola privilegia igualmente uma formação diversificada. “A escola apoia a progressão, primeiro através da experiência, e só depois cria percursos competitivos”, razão pela qual os alunos são incentivados a praticar diferentes modalidades.

Olhar além-fronteiras

Para Nuno Marques, professor de Educação Física na EPM, o desporto escolar só consegue cumprir plenamente a sua missão quando é sustentado por uma estrutura competitiva sólida.

No ano lectivo passado, acompanhou sobretudo a ginástica, mas esteve igualmente ligado ao atletismo de pista, ao corta-mato, à escalada e ao futebol feminino.

A EPM tem apostado no futebol feminino nas competições interescolares

Na sua opinião, “o desporto escolar, quando bem estruturado, com uma vertente competitiva bem planeada, proporciona aos jovens praticantes oportunidades de melhorarem na modalidade que praticam e desenvolverem aptidões competitivas”.

Macau, porém, tem a particularidade da sua dimensão, com Nuno Marques a defender que seria “benéfico” para os atletas locais que houvesse uma “maior ligação, a nível competitivo, às regiões vizinhas”.

“Se isso acontecesse, haveria oportunidade de aumentar a capacidade de interacção a nível competitivo, pelo menos em alguns desportos que tenham menos expressão em Macau, o que levaria a um maior desenvolvimento”, realça o professor. “É difícil qualquer desporto obter algum desenvolvimento e progressão se não houver um quadro competitivo que proporcione essa entrega e o alcançar de objectivos.”

Na sua opinião, é necessário um maior investimento – envolvendo um maior número de escolas, infra-estruturas e competições – para acelerar o desenvolvimento do desporto escolar em Macau.

Também ao nível das modalidades há margem para crescer, sublinha. Dá como exemplo a ginástica e a escalada, mas salienta que mesmo nas modalidades mais consolidadas, como o futebol, o voleibol ou o basquetebol, há espaço para melhorias. “Estes desportos acabam por ter o período competitivo concentrado numa pequena margem de meses e depois não há seguimento”, remata.

Aproximar clubes e escolas

A necessidade de reforçar a cooperação entre escolas e associações é igualmente destacada por Paulo Cheang, professor e treinador de equipas do Colégio Anglicano de Macau (MAC, na sigla em inglês).

Segundo o professor, o desenvolvimento do desporto escolar não só promove uma maior colaboração entre escolas e famílias, como constitui também um instrumento importante para descobrir novos talentos. “Ajuda as associações e equipas desportivas ao fornecer jovens jogadores promissores, assim como auxilia os alunos a desenvolverem as suas competências específicas.”

Defende, por isso, um envolvimento mais directo das associações desportivas no quotidiano das escolas. “Se as associações desportivas puderem colaborar com algumas escolas, disponibilizando equipas de treinadores para fins educativos e promocionais, tal contribuirá de forma eficaz para o desenvolvimento do desporto e, acima de tudo, ajudará a identificar e a cultivar o talento desde cedo.”

O futebol, reconhece, ocupa um lugar de destaque. No último ano lectivo, a MAC alcançou o segundo lugar nos escalões A e B dos campeonatos escolares, apenas atrás da Escola de Aplicação Anexa à Universidade de Macau e da Escola das Nações, respectivamente.
Grande parte dos jogadores da equipa escolar pertence já a clubes locais. Para estes jovens, acrescenta, representar a escola assume um significado muito particular. “Para eles, é como se fosse a selecção nacional.”