Do Atlântico à Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, Eric Ho King Fung quer abrir uma nova etapa nas relações entre o Interior da China, Cabo Verde e Macau. O novo cônsul honorário de Cabo Verde em Macau assume a missão de aproximar comunidades, empresas e instituições, com o objectivo de transformar afinidades históricas em projectos concretos
Texto Lou Mei Kuan
Macau voltou a contar, em Março deste ano, com representação diplomática cabo-verdiana. A nomeação de Eric Ho King Fung, membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) de Pequim, pôs fim a vários anos de vacatura no cargo de cônsul honorário de Cabo Verde na Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).
Para Eric Ho, exercer o cargo numa nova era de desenvolvimento implica uma missão que vai além do apoio à comunidade cabo-verdiana residente em Macau. A principal prioridade, explica, é servir de ponte para promover o intercâmbio entre a China e Cabo Verde – e, num plano mais amplo, entre a China e África –, promovendo a articulação de recursos e uma cooperação mais eficaz.
“Enquanto cônsul honorário, espero desempenhar o papel de ponte entre a China e Cabo Verde para promover intercâmbios nos domínios económico, cultural, tecnológico e desportivo. Pretendo ainda reforçar o papel de Macau como plataforma para o avanço da cooperação com Cabo Verde”, refere Eric Ho.
Ao fim de cinquenta anos de relações diplomáticas, a cooperação entre a China e Cabo Verde assenta numa base sólida de amizade, confiança e resultados concretos. Segundo Eric Ho, a China apoiou em diversas ocasiões o desenvolvimento de infra-estruturas no arquipélago africano. “Quando a selecção nacional de futebol de Cabo Verde conseguiu a qualificação para o Campeonato do Mundo, a equipa expressou o seu agradecimento pelo apoio da China na construção do estádio”, recorda.
O exemplo reflecte o impacto da cooperação sino-cabo-verdiana nos domínios do desporto e das infra-estruturas, uma dinâmica que se estende a outras áreas.
A China assinou também acordos de isenção de tarifas com vários países africanos, incluindo Cabo Verde, facilitando o desenvolvimento do comércio bilateral. Este ambiente favorável permitiu que, mesmo com recursos limitados, Cabo Verde mantivesse uma procura constante por produtos alimentares e outros bens provenientes da China, contribuindo para consolidar a relação comercial entre os dois países.
Neste contexto, afirma, marcas chinesas, como a BYD, já são utilizadas como viaturas oficiais do Governo cabo-verdiano. Para o cônsul honorário, este é um sinal de que as empresas chinesas estão a integrar-se nos países onde conduzem os seus negócios, procurando adoptar novos modelos de cooperação económica.
“Estes intercâmbios e apoios fortaleceram a parceria bilateral, o que abriu novas oportunidades para futuras colaborações em vários sectores”, destaca Eric Ho, que também desempenha funções como presidente da Associação de Cambistas de Macau.
O papel único de Macau
As vantagens apresentadas por Macau têm vindo a ganhar maior relevância no quadro das relações sino-africanas. Eric Ho considera que, graças ao princípio “um país, dois sistemas” e ao ambiente multicultural e multilingue, a RAEM pode afirmar-se como um verdadeiro “super-conector” entre a China e os países africanos, particularmente os de expressão portuguesa.
O cônsul honorário reconhece o elevado potencial de desenvolvimento de África e sublinha que, nos últimos anos, a cooperação entre a China e o continente africano se reforçou em várias áreas, como infra-estruturas, energia e tecnologia. Países como Cabo Verde estão atentos às oportunidades criadas pelo desenvolvimento da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau e procuram tirar partido desta dinâmica para alcançar uma maior complementaridade industrial.

“Se ambas as partes querem explorar oportunidades de cooperação, porque não torná-las realidade? A África e a China são complementares principalmente nos aspectos económicos e de recursos, o que está alinhado com a iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’. Espero que, no futuro, seja possível promover mais trocas e parcerias de forma gradual”, destaca Eric Ho.
Ao longo dos anos, os governos de Macau e de Cabo Verde assinaram diversos acordos nos domínios fiscal, jurídico e policial. Além disso, através do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau) – também conhecido como Fórum de Macau – e do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento (IPIM), foram também concretizados projectos em áreas como tributação e turismo. Estes avanços reforçaram ainda mais o papel de Macau como elo entre a China e os países de língua portuguesa, diz o cônsul honorário.
Aprofundar a cooperação
Eric Ho admite que, apesar de Cabo Verde ter conquistado maior visibilidade junto do público do Interior da China e de Macau graças ao Campeonato do Mundo de futebol, ainda persistem obstáculos a uma cooperação mais profunda, sobretudo devido à distância e à falta de informação. Nesse sentido, defende a criação de mais oportunidades para que os residentes de Macau conheçam de perto os recursos naturais e o ambiente empresarial de Cabo Verde. “Sem visitar Cabo Verde, é difícil apreciar verdadeiramente a sua beleza, a riqueza dos seus recursos naturais e as boas condições que oferece para negócios”, adianta.
Cabo Verde é um país formado por dez ilhas principais e vários ilhéus menores. Entre as ilhas principais, segundo Eric Ho, oito dispõem de infra-estruturas desenvolvidas e de abundantes recursos naturais. O sector das energias renováveis, em particular a energia solar, tem registado um rápido crescimento. Além deste potencial, a localização do país no Atlântico proporciona-lhe uma oferta significativa de produtos do mar de elevada qualidade. Estas vantagens constituem uma base sólida para reforçar as relações comerciais e apresentar novas oportunidades de cooperação.
Para Eric Ho, o primeiro passo para aprofundar a cooperação deve ser dado nos domínios económico e comercial. O cônsul honorário está a preparar, para o próximo ano, a viagem de uma delegação empresarial de Macau a Cabo Verde, com o apoio do Governo da RAEM e do IPIM, para dar a conhecer o ambiente de investimento no país africano, referindo ainda que já estabeleceu contactos com as autoridades do Governo Central, e espera que empresários do Interior da China possam também juntar-se à iniciativa para explorar oportunidades de cooperação com Cabo Verde.

“Sem visitar Cabo Verde, é difícil apreciar verdadeiramente a sua beleza, a riqueza dos seus recursos naturais e as boas condições que oferece para negócios“
ERIC HO
CÔNSUL HONORÁRIO DE CABO VERDE EM MACAU
A maior notoriedade internacional de Cabo Verde despertou um interesse crescente pela participação na delegação. Ainda assim, Eric Ho sublinha que a qualidade deverá prevalecer sobre a quantidade, privilegiando a participação de empresas de elevada qualidade e de quadros qualificados. O objectivo, explica, é promover uma colaboração de benefício mútuo que vá além do turismo ou dos intercâmbios oficiais. O cônsul honorário espera também que, no futuro, mais cabo-verdianos visitem Macau, reforçando o diálogo e o contacto a longo prazo entre as duas partes.
Embora as políticas de vistos entre a China e Cabo Verde sejam já relativamente acessíveis, as ligações aéreas continuam a representar um desafio. Eric Ho admite que a abertura de voos directos será difícil a curto prazo, mas acredita que o aumento da procura por rotas mais rápidas poderá criar condições para novas ligações no futuro.
O cônsul honorário salienta ainda que o sucesso da cooperação turística depende igualmente do reforço das infra-estruturas e dos serviços de apoio, como transportes, restauração e hotelaria. Para preservar a reputação de Cabo Verde como “as Maldivas de África”, Eric Ho considera essencial avançar de forma gradual, acompanhada pelo aumento da capacidade aérea e hoteleira.
Nesse sentido, o cônsul honorário incentiva as empresas chinesas dos sectores da hotelaria e dos serviços a explorarem o mercado cabo-verdiano, investindo em hotéis, agências de viagem e projectos de transporte. A experiência e os recursos das empresas chinesas, considera, poderão contribuir para melhorar as infra-estruturas turísticas e a experiência dos visitantes.
Cooperação financeira e digital
No domínio financeiro, a China e Cabo Verde estão a estudar a utilização do renminbi no sistema financeiro local, realça Eric Ho, incluindo a possibilidade de se efectuar pagamentos comerciais directamente na moeda chinesa. Representantes do Banco de Cabo Verde já visitaram Macau para analisar a integração do renminbi no sistema de liquidação, uma das principais direcções da cooperação bilateral. Quanto à eventual abertura de uma sucursal do Banco da China em Cabo Verde, o cônsul honorário refere que ainda será necessário obter apoio político, mas garante que vai continuar a promover essa possibilidade.
“Caso os países africanos venham a ter uma sucursal de bancos da China, a confiança dos investidores chineses que pretendem apostar nesses países vai aumentar significativamente”, afirma Eric Ho.
A delegação empresarial prevista para o próximo ano deverá incluir profissionais do sector bancário do Interior da China e de Macau. A intenção é promover o diálogo com as autoridades e empresas cabo-verdianas, identificar as necessidades do mercado e explorar, em conjunto, novas formas de cooperação nos sectores financeiro e digital, incluindo os pagamentos internacionais, avança o cônsul honorário.
Além de incentivar visitas de profissionais do Interior da China e de Macau a Cabo Verde, Eric Ho está empenhado em fortalecer a coesão da comunidade cabo-verdiana em Macau e apoiar os estudantes que vivem na cidade. “Os jovens são essenciais para uma cooperação sustentável entre as duas regiões”, sublinha. Macau conta actualmente com mais de uma centena de cidadãos cabo-verdianos, a maioria estudantes, segundo Eric Ho.
O cônsul honorário recorda que a Fundação Macau concede anualmente bolsas de estudo a dez estudantes cabo-verdianos para prosseguirem a sua formação na cidade. Desde que assumiu funções, tem como um dos seus objectivos aumentar esse número.
Eric Ho pretende também adoptar um modelo de recrutamento mais estruturado e criar cursos de apoio ao ensino de línguas, ajudando os alunos a adaptarem-se ao ambiente linguístico e cultural. A meta, diz, é formar quadros qualificados para futuras colaborações nas áreas do comércio, tecnologia e gestão.
“O nosso plano é expandir ainda mais o número de vagas e iniciar novos contactos com mais instituições de ensino superior locais, como a Faculdade de Medicina da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, para garantir aos estudantes cabo-verdianos oportunidades de acesso a um ensino mais diversificado e completo em Macau”, frisa o cônsul honorário.
Desporto e sustentabilidade
A cooperação desportiva pode, na perspectiva de Eric Ho, produzir efeitos positivos em áreas tão diversas como a educação, a formação dos jovens e a promoção de novas oportunidades económicas. O cônsul honorário revela estar em contacto com a Federação Cabo-Verdiana de Futebol, com o objectivo de convidar a selecção que participou no último Campeonato do Mundo de futebol a visitar o Interior da China e Macau. Além do futebol, destaca também o crescimento do basquetebol em Cabo Verde.

O passo seguinte será promover programas de intercâmbio mais diversificados e abrangentes, que vão além de um único evento desportivo e incluam o desenvolvimento dos jovens e a participação comunitária. Entre as possibilidades estão jogos amigáveis entre equipas juvenis e de campos de férias de futebol, criando oportunidades de contacto directo entre participantes do Interior da China, de Cabo Verde e de Macau, alargando os seus horizontes internacionais.
“Antes, era mais comum recorrer a recursos desportivos de países como Portugal, Reino Unido ou Brasil, mas Cabo Verde é, na verdade, uma excelente alternativa”, afirma Eric Ho. “O consulado está empenhado em promover este tipo de cooperação. Sabemos que nem sempre se concretiza de imediato, mas já demos os primeiros passos.”
Olhando para o futuro, Eric Ho considera que a cooperação entre o Interior da China, Cabo Verde e Macau deve avançar sem pressas, mas também sem ficar pela superfície. Tendo Cabo Verde e Macau populações de dimensão semelhante, o desenvolvimento do turismo e de outros sectores deve respeitar a capacidade local, através do reforço das infra-estruturas, da atracção de empresas de qualidade e de uma abordagem sustentável.
A amizade entre a China e Cabo Verde, construída ao longo de cinquenta anos, assenta no respeito mútuo e no apoio recíproco, salienta Eric Ho. Com a reabertura do consulado honorário e o reforço do papel do Fórum de Macau, o cônsul honorário acredita estarem reunidas as condições sólidas para aprofundar a cooperação em múltiplas áreas e alcançar resultados concretos.


