Desde a educação e investigação até à preservação da memória colectiva, a Fundação Macau tem desempenhado um papel discreto, mas determinante na evolução da cidade. Nesta entrevista à Revista Macau, o presidente da instituição, Wu Zhiliang, analisa o legado construído e as prioridades para o futuro
Texto Cherry Chan e Tiago Azevedo
No ano em que a Fundação Macau assinala o seu 25.º aniversário, que conquistas considera mais relevantes ao longo destas mais de duas décadas?
A actual Fundação Macau, que celebra agora o seu 25.º aniversário, resultou da fusão entre a antiga Fundação Macau – criada em 1984 e dedicada à filantropia – e a Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau. Esta integração teve como objectivo maximizar recursos para promover o desenvolvimento social de Macau e contribuir para o desenvolvimento nacional.
Após a administração ter decidido, em 1987, adquirir a então Universidade da Ásia Oriental, a então Fundação Macau esteve envolvida na transformação da instituição de ensino superior, incluindo na introdução de cursos muito procurados durante o período da transferência [de administração de Macau], como Direito, Administração Pública e Engenharia. Durante o mesmo período, a anterior Fundação Macau participou também nas negociações que conduziram à instalação do instituto da Universidade das Nações Unidas em Macau.
Depois de a Universidade da Ásia Oriental ser transformada na Universidade de Macau, em 1991, a então Fundação reposicionou-se como uma instituição dedicada à promoção da educação, da ciência, da cultura e da cooperação sino-portuguesa. Apoiou a construção do anterior campus da Universidade de Macau na Taipa, publicou colecções de livros em chinês, português e inglês, e organizou diversos concursos e iniciativas, incluindo a inauguração do Centro UNESCO de Macau, aproximando diferentes sectores da comunidade.
O apoio à investigação académica, enfatizando o papel histórico de Macau como plataforma de intercâmbio entre a China e o mundo, sempre foi uma prioridade da Fundação, que se mantém até aos dias de hoje. Desde a criação da actual Fundação Macau, em 2001, fizemos uso dos recursos existentes para estimular o progresso social de Macau, contribuindo igualmente para o desenvolvimento nacional.
A educação tem sido uma prioridade absoluta. Participámos na concepção e construção do Centro de Ciência de Macau, que se tornou num dos marcos arquitectónicos da cidade e uma importante base para a divulgação científica junto dos jovens e estudantes. Investimos igualmente mais de 6 mil milhões de patacas na construção de novos edifícios escolares e na aquisição de equipamentos, criando uma base sólida para que as novas gerações possam crescer e aprender num mundo cada vez mais competitivo. Os resultados dos estudantes de Macau no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), onde se posicionam entre os dez melhores do mundo em matemática, leitura e ciências, demonstram o sucesso desse investimento.
Com vista a reforçar a integração de Macau no desenvolvimento nacional, a Fundação financiou, em 2024, a aquisição de terrenos pela Universidade de Macau em Hengqin para o novo campus na Cidade (Universitária) de Educação Internacional de Macau e Hengqin.
Também começámos a atribuir bolsas de estudo a jovens de Macau para estudarem no Interior da China e no estrangeiro, alargando horizontes e contribuindo para elevar a qualificação dos profissionais locais.
No plano internacional, continuamos a apoiar financeiramente o instituto da Universidade das Nações Unidas em Macau e contribuímos para o financiamento da Escola Portuguesa de Macau, garantindo o acesso à educação e a execução dos nossos compromissos.
Para além da educação, quais têm sido as outras prioridades?
O nosso trabalho visa apoiar as políticas do Governo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Prestamos apoio financeiro a importantes associações de base locais, cujas actividades incluem vários serviços sociais e comunitários essenciais que abrangem praticamente toda a população de Macau.
Entre as iniciativas regulares, contam-se a distribuição de cabazes a grupos desfavorecidos e o apoio ao reforço da capacidade organizativa das associações civis.
Durante a pandemia da COVID-19, a Fundação disponibilizou 7,5 mil milhões de patacas para ajudar empresas e cidadãos a fazerem face aos desafios. Prestámos igualmente apoio aos esforços de reconstrução após o sismo de Sichuan, em 2008, e a projectos de revitalização rural no distrito de Congjiang, na província de Guizhou, nos últimos anos.
No domínio cultural, lançámos diversos projectos para promover artistas e escritores locais, ajudando-os a chegar ao Interior da China e ao resto do mundo. Criámos o Conselho da Cultura e História e organizamos anualmente o Concurso de Conhecimentos em História, que se tornou uma referência na comunidade escolar de Macau, contando este ano, pela primeira vez, com a participação de escolas internacionais.
Uma contribuição particularmente relevante é a plataforma “Memória de Macau”, a maior base de dados pública sobre o património histórico e cultural da cidade. Disponibilizamos arquivos históricos e culturais relacionados com Macau, facilitando simultaneamente o trabalho de documentação de diversos organismos. Através da investigação histórica e cultural, contribuímos para recuperar a narrativa histórica de Macau e para reforçar valores comuns na sociedade.
Em 2004, atribuímos uma dotação inicial de 100 milhões de patacas para a criação do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia e apoiámos a criação dos primeiros laboratórios nacionais nas instituições de ensino superior de Macau. Além da investigação científica, investimos também na divulgação e popularização da ciência.
Acredito que o trabalho da Fundação é um projecto de longo prazo. Temos vindo a lançar bases desde a década de 1990 e os resultados tornaram-se hoje visíveis. Não diria que temos projectos extraordinários ou excepcionais; limitamo-nos a colocar tijolo sobre tijolo, preenchendo lacunas e construindo alicerces.

Macau está a entrar numa nova fase de desenvolvimento, com maior ênfase na estratégia “1+4” para a diversificação económica adequada. A Fundação ajustou as suas prioridades em resposta a estas políticas?
Ao longo dos anos, adaptámos o nosso papel às mudanças da sociedade e das políticas públicas de Macau.
Inicialmente, contribuímos para a reforma do ensino superior e, posteriormente, fomos pioneiros no apoio à investigação tecnológica.
Estudámos o desenvolvimento do sector da alta tecnologia e publicámos a obra “Road of Development for Macau High-Tech Industry”, que continua a ser uma referência valiosa.
Dedicámo-nos igualmente ao apoio à investigação histórica e cultural para ajudar os residentes a conhecer melhor a sua cidade, reforçando o sentimento de pertença e os valores culturais. Paralelamente, promovemos intercâmbios entre a China e Portugal e apresentámos já muitas instituições do Interior da China a Portugal.
Após a transferência de administração, e à medida que os nossos recursos cresceram, também aumentou o nosso apoio às associações locais. Apoiámos tanto o seu funcionamento quotidiano como as suas actividades pontuais, procurando contribuir para uma sociedade mais unida, harmoniosa e dinâmica.
Actualmente, com a prioridade governamental centrada na diversificação económica e na estratégia “1+4”, a Fundação continua a desempenhar o seu papel, apoiando projectos e actividades promovidos por associações e organizações da sociedade civil.
Nos nossos programas de financiamento para investigação académica e intercâmbios, damos prioridade a projectos relacionados com o desenvolvimento da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, com a cooperação na área da Grande Baía Guangdong–Hong Kong-Macau, com os países de língua portuguesa e com a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”.
Tal como consagrado na legislação, devemos privilegiar projectos alinhados com as estratégias governamentais. Também em consonância com o 15.º Plano Quinquenal do País, reforçámos a atenção dada à investigação académica e à formação de talentos. Em suma, temos procurado adaptar-nos continuamente às necessidades de desenvolvimento do Governo da RAEM.
À medida que Macau aprofunda a sua integração na Grande Baía, que papel pode a Fundação desempenhar?
Os nossos programas de financiamento para actividades académicas e de intercâmbio privilegiam projectos que promovam a cooperação regional.
Com o aumento do número de residentes de Macau em Hengqin, cresceu também a procura por serviços sociais e comunitários [em Hengqin] com padrões semelhantes aos de Macau. Nesse sentido, a partir de 2027, iremos comparticipar os custos operacionais das representações em Hengqin de associações comunitárias relevantes de Macau.
Promovemos igualmente a consciencialização dos jovens sobre a integração de Macau no desenvolvimento nacional através de visitas, seminários e outras iniciativas.
Além disso, disponibilizamos oportunidades de estudo e estágios, no Interior da China e no exterior, para ampliar os horizontes das novas gerações.

“Através da investigação histórica e cultural, contribuímos para recuperar a narrativa histórica de Macau e para reforçar valores comuns na sociedade”
WU ZHILIANG
PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO MACAU
Existe alguma área onde a Fundação poderá assumir um papel mais estratégico, como a inovação ou a formação de talentos?
A Fundação Macau desempenha sobretudo um papel de apoio financeiro, assumindo por natureza uma posição relativamente passiva. No entanto, já assinámos diversos protocolos de cooperação com departamentos governamentais, organismos públicos e instituições de ensino superior para promover a inovação e o desenvolvimento de talentos.
Por exemplo, apoiámos o Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia na investigação relacionada com o satélite “Macau Science 1” e disponibilizamos incentivos financeiros para encorajar os residentes a obterem e a reforçarem as suas qualificações profissionais, contribuindo para a diversificação económica.
Além do financiamento para a aquisição de terrenos pela Universidade de Macau em Hengqin para o novo campus da Cidade (Universitária) de Educação Internacional de Macau e Hengqin, está previsto apoio semelhante para outras instituições de ensino superior que também lá terão os seus pólos. Procuramos igualmente oferecer um suporte académico mais sólido ao processo de formulação de políticas públicas através do aprofundamento da investigação científica.
Qual a importância da cooperação académica, especialmente com o Interior da China, para a estratégia futura de desenvolvimento de Macau?
A cooperação académica é fundamental. Macau oferece uma perspectiva singular nas áreas das ciências sociais e da filosofia chinesas, ao mesmo tempo que a sua experiência histórica enriquece o processo de desenvolvimento da China.
As nossas parcerias com instituições do Interior da China remontam à década de 1990. Estas colaborações ajudaram-nos a compreender melhor as políticas nacionais após a transferência de administração e favoreceram a criação de equipas conjuntas de investigação.
Neste contexto, Macau distingue-se em três aspectos. Primeiro, pela sua longa tradição de diálogo intercultural, cuja coexistência harmoniosa constitui uma narrativa alternativa para os estudos globais sobre intercâmbio entre culturas.
Segundo, pela bem-sucedida implementação do princípio “um país, dois sistemas”, que possui um valor académico insubstituível para o desenvolvimento das teorias do socialismo com características chinesas e dos estudos sobre governação regional. Terceiro, pelo desenvolvimento recente da chamada “Macaulogia”, que oferece um modelo inovador para interpretar o Ocidente a partir de perspectivas chinesas.
Aproveitando estas vantagens, a investigação colaborativa desenvolvida em Macau pode gerar recomendações concretas de políticas públicas com benefícios reais para a sociedade.

Como vê o papel da plataforma “Memória de Macau” na preservação do património documental da cidade?
Preservar não significa apenas conservar. No caso do património documental, limitarmo-nos a guardar documentos não permite compreender o seu valor e significado. A verdadeira questão é utilizar esse património para construir uma plataforma que permita a Macau contar a sua própria história de forma interactiva e em línguas acessíveis aos visitantes.
A plataforma “Memória de Macau”, criada pela Fundação Macau após anos de trabalho, procura precisamente contar a história de Macau através da combinação de iniciativas presenciais e digitais.
Desde o início, a ideia central foi a de “construção e partilha por toda a cidade”. O desafio não era criar uma plataforma tecnológica, mas transformá-la num projecto verdadeiramente colaborativo.
A base de dados está aberta a todos, com o objectivo de fortalecer o sentido de pertença e os valores comuns da sociedade. No futuro, pretendemos acrescentar mais conteúdos, organizar melhor a informação disponível e trabalhar com escolas e famílias na recolha de memórias.
Espero também que, à medida que os recursos o permitam, possamos reforçar significativamente os conteúdos disponíveis em português e em inglês.
Quais são as prioridades para ampliar o acesso a materiais históricos e à investigação?
Estamos abertos a todos os tipos de materiais históricos, desde que respeitem os requisitos legais existentes, especialmente em matéria de direitos de propriedade intelectual e autorizações dos respectivos proprietários.
As nossas principais fontes são bibliotecas e museus, seguidos de coleccionadores privados e, por último, de chamadas públicas que permitem a participação de toda a população.
A recolha de materiais junto de diferentes detentores contribui igualmente para aumentar a participação pública e reforçar o sentimento de pertença à cidade.
Como é que a Fundação avalia o impacto dos projectos que apoia?
Macau possui um grande número de associações comunitárias, pelo que é essencial avaliar a sua eficácia e eficiência. Para garantir o maior impacto possível, os apoios devem ser atribuídos de forma profissional e especializada, direccionando recursos para as organizações mais adequadas na persecução desses objectivos. Ao mesmo tempo, é importante avaliar se os projectos respondem efectivamente às necessidades sociais e qual o seu nível de participação.
A reforma do regime de apoio financeiro público, lançada em 2022, criou condições para uma avaliação mais objectiva dos projectos apoiados, através dos relatórios finais e dos relatórios de procedimentos acordados para iniciativas com financiamento superior a um milhão de patacas.
Actualmente está em curso uma revisão do sistema, incluindo a eventual introdução de critérios de avaliação baseados no desempenho e no feedback dos utilizadores, permitindo uma análise mais abrangente do alcance destes projectos.
Qual a importância das bolsas de estudo e programas de intercâmbio envolvendo estudantes de países de língua portuguesa?
Estas iniciativas permitem que estudantes e jovens dos países e regiões de língua portuguesa estabeleçam relações com colegas chineses desde cedo, fortalecendo gradualmente os laços entre o Interior da China, Macau e esses países.
Alguns antigos bolseiros ocupam hoje posições de destaque nos seus países e regiões de origem. Portanto, os resultados destes programas têm sido extremamente positivos.
Além de promover amizades internacionais, a presença de estudantes estrangeiros em Macau incentiva os jovens locais a esforçarem-se mais e a alargarem horizontes, contribuindo para elevar os padrões educativos. Por outro lado, também apoiamos estudantes de Macau através de bolsas para estudos no estrangeiro, permitindo-lhes adquirir experiências internacionais valiosas.

Existem planos para reforçar o papel de Macau como ponte entre a China e os países de língua portuguesa?
A Fundação e os seus parceiros nos países de língua portuguesa reconheceram a importância estratégica de Macau e acordaram aumentar, a partir do ano lectivo de 2026/2027, o número de bolsas para estudantes desses países frequentarem cursos de licenciatura em Macau.
A Fundação pretende também criar uma nova modalidade de bolsas de pós-graduação para estudantes internacionais, incluindo provenientes dos países de língua portuguesa, que pretendam realizar mestrados ou doutoramentos em Macau. Este sistema poderá até permitir que académicos estrangeiros desenvolvam investigação a partir dos seus próprios países e descubram novas fontes documentais relacionadas com Macau.
Além das bolsas, mantemos programas de investigação académica e diversas outras formas de cooperação.
Acredito que o elemento mais importante das relações sino-portuguesas continua a ser a educação. Podemos desenvolver publicações próprias, promover investigação académica e construir parcerias duradouras.
O que destaca como a principal tarefa para a Fundação nos próximos anos?
A Fundação é uma entidade com autonomia administrativa que, ao longo das últimas décadas, procurou utilizar os seus recursos para promover o progresso social de Macau. Trabalhámos em parceria com associações e organizações para construir valores comuns, como o patriotismo, a entreajuda, a harmonia, a abertura, a diligência e o pragmatismo.
Hoje, a estrutura governativa está mais completa, mas continuo a acreditar que a Fundação tem um papel importante a desempenhar. Pretendemos manter a flexibilidade necessária para responder rapidamente às necessidades do Governo da RAEM e às mudanças na sociedade.
O maior desafio será ajudar a sociedade de Macau a adaptar-se à estratégia de diversificação económica, bem como a aprofundar a integração no desenvolvimento nacional, contribuindo para esse processo ao mesmo tempo que se procura reforçar a internacionalização da cidade.
Estamos actualmente a realizar uma revisão global do nosso trabalho. Um dos objectivos centrais é reforçar o papel da Fundação como instituição construtora de valores comuns e apoiar a evolução das associações e organizações de Macau rumo a um desenvolvimento de maior qualidade.

