Polícia Turística

Nas ruas, ao lado de quem visita

A Polícia Turística actua em zonas de grande afluência de visitantes para prestar apoio directo aos turistas
Percorrem diariamente os lugares mais visitados de Macau, entre multidões, pedidos de informação e imprevistos. Criada para responder às particularidades de uma cidade que recebe milhões de turistas, a Polícia Turística junta segurança e proximidade numa missão que vai muito além de patrulhar: orientar quem se perde, ajudar quem enfrenta dificuldades e fazer com que quem chega se sinta seguro e bem-vindo

Texto Shu Huang*

Em locais como as Ruínas de São Paulo, o Largo do Senado ou a Rua do Cunha, entre o vaivém constante de visitantes, há uma presença que se tornou familiar na paisagem turística de Macau. Com os seus característicos uniformes azuis, os agentes da Polícia Turística percorrem diariamente algumas das zonas mais movimentadas da cidade, conjugando as funções tradicionais de segurança com uma missão igualmente importante: ajudar quem chega de fora a orientar-se e a sentir-se bem recebido.

Dar indicações, recuperar objectos perdidos, resolver dificuldades de comunicação ou intervir perante uma emergência fazem parte de um trabalho pensado especificamente para uma cidade que recebe milhões de visitantes por ano. Criada inicialmente a título experimental, em 2015, a Polícia Turística procura contribuir não apenas para a segurança nas ruas, mas também para a imagem de Macau enquanto destino acolhedor e para a sua afirmação como “centro mundial de turismo e lazer”.

A criação de uma equipa policial vocacionada especificamente para as zonas mais visitadas nasceu das necessidades que acompanharam o próprio desenvolvimento turístico da cidade.

Lei Ieng Long, comandante substituto do Departamento Policial de Macau do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP), explica a evolução da estrutura: “Em resposta ao desenvolvimento da indústria turística de Macau, ao elevado número de visitantes e à grande concentração de pessoas nas zonas turísticas, o CPSP criou, a título experimental, a Polícia Turística em Abril de 2015. Após quase dois anos de experiência e aperfeiçoamento, esta força foi oficialmente criada a 5 de Março de 2017.”

O objectivo passava por adaptar a resposta policial às características particulares das zonas mais frequentadas pelos visitantes. Segundo Lei Ieng Long, “a criação da Polícia Turística visou aperfeiçoar o trabalho policial nas zonas turísticas, reforçar as patrulhas e a gestão das multidões nessas áreas, bem como melhorar a qualidade dos serviços prestados aos visitantes”.

Na prática, os agentes recebem pedidos de informação e participações relativas à perda de objectos, prestam assistência aos visitantes e funcionam também como força de primeira intervenção perante emergências nas zonas turísticas, desempenhando um papel positivo no reforço da segurança pública de Macau e na melhoria da imagem da cidade como destino turístico.

A equipa cresceu significativamente desde a experiência inicial. Dos pouco mais de 30 elementos que integravam a força em 2015, a Polícia Turística passou para 97 agentes no activo, incluindo 59 homens e 38 mulheres. Do total de agentes, 60 estão destacados na península de Macau e 37 nas ilhas.

Polícias e anfitriões

Para quem visita Macau, esta presença policial pode contribuir para uma sensação de segurança, mesmo sem existir necessidade de recorrer directamente aos agentes. É o caso de Elizaveta, uma jovem russa de 17 anos que visitava a cidade com a família.

“É realmente interessante andar pelas ruas de Macau. Estamos aqui a passar o dia e vimos polícias em vários locais, o que nos faz sentir confortáveis”, realça Elizaveta. “Não pedimos ajuda a agentes da Polícia Turística, mas, de uma forma geral, a atenção dada aos visitantes estrangeiros parece muito boa e as pessoas são muito simpáticas connosco. Se fosse necessário, acho que me sentiria perfeitamente à vontade para pedir ajuda.”

Chu Io Chong (esq.) e U Mei Kok (dir.) dizem que as suas funções contribuem para preservar a imagem de Macau enquanto cidade turística

De acordo com Lei Ieng Long, a especificidade do trabalho dos agentes da Polícia Turística começa na formação. Antes de assumirem funções, os agentes têm de concluir programas especializados e ser aprovados nas respectivas avaliações. As tarefas vão do patrulhamento e gestão dos fluxos de pessoas à mediação de conflitos envolvendo turistas, passando pelo tratamento de casos de objectos perdidos e pela emissão de segunda via do “boletim de autorização de permanência”.

Embora mantenham as funções essenciais de qualquer agente – preservar a ordem pública, prevenir e combater a criminalidade –, os elementos da Polícia Turística têm uma vertente adicional de serviço ao visitante. Nas zonas mais movimentadas, estes agentes acompanham ainda a evolução das multidões e podem implementar medidas de controlo sempre que as circunstâncias o exijam.

Até ao momento, foram realizados dez cursos de formação, concluídos por 276 agentes, entre os quais 178 homens e 98 mulheres. O modelo assenta numa ideia de “dupla competência”: capacidade policial e capacidade de atendimento.

A formação operacional é ministrada pela Escola de Polícia do CPSP e inclui a utilização de veículos e equipamentos específicos, técnicas de controlo de multidões e aplicação de tecnologia à actividade policial. A componente de atendimento é desenvolvida em colaboração com a Universidade de Turismo de Macau, abrangendo a história e cultura da cidade, etiqueta internacional, comunicação linguística e técnicas para lidar com situações de stress e reclamações.

Numa cidade visitada por pessoas de múltiplas nacionalidades, a capacidade de comunicar assume uma importância particular. Para Chu Io Chong, agente da Polícia Turística, essa é uma das diferenças mais evidentes em relação ao policiamento convencional.

“Os agentes da Polícia Turística estão destacados em locais de grande afluência, como as Ruínas de São Paulo, o Largo do Senado, a Rua do Cunha, a zona de Coloane e os postos fronteiriços, onde prestam apoio a visitantes provenientes de todo o mundo”, explica Chu Io Chong. “Por isso, no nosso trabalho diário, é necessário dominar o cantonês, o mandarim e o inglês, sendo que alguns postos exigem igualmente conhecimentos de português. A comunicação multilingue tornou-se uma componente essencial do nosso trabalho quotidiano.”

Ser facilmente reconhecido

O próprio uniforme da Polícia Turística foi pensado para responder às características deste serviço. De cor distinta da usada pelos restantes agentes, permite que um visitante identifique rapidamente a Polícia Turística no meio de uma multidão.

O vestuário, refere Lei Ieng Long, foi também concebido para as exigências físicas de quem passa muitas horas a caminhar por ruas de calçada, escadarias e outros pisos irregulares. Flexibilidade, respirabilidade e espaço para transportar equipamento foram algumas das prioridades do desenho, acrescenta.


“A criação da Polícia Turística visou aperfeiçoar o trabalho policial nas zonas turísticas, […] bem como melhorar a qualidade dos serviços prestados aos visitantes”

LEI IENG LONG
COMANDANTE SUBSTITUTO DO DEPARTAMENTO POLICIAL DE MACAU DO CPSP

“Os agentes da Polícia Turística têm de efectuar longas patrulhas a pé nas principais zonas turísticas de Macau, deslocando-se frequentemente por superfícies irregulares e percorrendo grandes distâncias, sendo-lhes exigido um elevado grau de mobilidade”, afirma o mesmo responsável.

“Assim, os tecidos dos uniformes privilegiam a flexibilidade e a respirabilidade, enquanto o design incorpora também soluções práticas para guardar equipamento, de forma a apoiar períodos prolongados de serviço intensivo no exterior”, conta Lei Ieng Long. Ao mesmo tempo, adianta, “o esquema cromático distintivo do uniforme não só transmite a autoridade inerente à aplicação da lei, como também permite aos visitantes identificarem rapidamente os agentes e aproximarem-se deles no meio das multidões”.

O equipamento operacional é, de resto, semelhante ao dos restantes agentes policiais: arma de fogo, gás pimenta, algemas, rádio, câmaras corporais e telemóvel de serviço. Foram ainda acrescentadas luvas resistentes a cortes e coletes concebidos para oferecer protecção contra ataques com armas brancas.

Também os horários reflectem a natureza particular da missão destes agentes. Enquanto o policiamento regular funciona 24 horas por dia, a Polícia Turística concentra a actividade entre as 7h00 e as 23h00, acompanhando os períodos em que existe maior movimento nas zonas da cidade visitadas por turistas.

Nos feriados, festividades e grandes eventos, quando a pressão aumenta, o CPSP reforça os principais pontos turísticos com efectivos provenientes de outras unidades. O objectivo é simultaneamente garantir a segurança e evitar que a concentração de pessoas comprometa a circulação pedonal.

Os uniformes da Polícia Turística permitem que os agentes sejam facilmente identificados

A percepção de segurança é precisamente um dos aspectos destacados por Tia Patihah, turista indonésia de 31 anos que chegou a Macau a partir de Hong Kong. Para ela, a experiência de visitar a cidade é favorecida por vários elementos. “Acho Macau uma cidade muito bonita, com fácil acesso em termos de transportes. Em relação à comida, há também muitas opções Halal”, comenta a visitante.

Tia Patihah salienta ainda a tranquilidade dos espaços públicos e a facilidade de comunicação. “Há muitas atracções gratuitas e espaços que são também tranquilos. Acho que Macau é um lugar seguro”, diz, referindo que essa percepção é reforçada pela presença de agentes da Polícia Turística. “Macau é muito segura para os turistas. Penso que isto também está relacionado com a língua, visto que muitas pessoas entendem inglês e, se quiser perguntar como chegar a algum sítio, percebem. Tive que pedir indicações e foram muito simpáticos.”

Imprevistos de todos os dias

Atrás da imagem de proximidade está, porém, um trabalho policial marcado por situações imprevisíveis. Chu Io Chong explica que o desconhecimento das regras locais por parte dos visitantes é um dos desafios constantes. Há turistas que utilizam drones sem autorização, deitam lixo para o chão ou fotografam em locais onde tal não é permitido.

“Para além de patrulharmos e respondermos a pedidos de assistência, temos de explicar pacientemente aos visitantes os regulamentos locais, dar-lhes indicações atempadas e pôr termo a eventuais infracções, contribuindo assim para preservar a imagem de Macau enquanto cidade turística”, explica o agente.

Mas são muitas vezes os episódios de vulnerabilidade dos visitantes que ficam na memória dos agentes. Chu Io Chong recorda particularmente um furto ocorrido na Rua de São Paulo. Uma turista percebeu, enquanto fazia compras, que a carteira poderia ter sido furtada. Num lugar desconhecido, ficou naturalmente perturbada.

“Quando eu e uma colega chegámos ao local, procurámos imediatamente tranquilizá-la. De seguida, recolhemos rapidamente as informações necessárias, consultámos as imagens do sistema de videovigilância e acompanhámo-la à esquadra para concluir os procedimentos seguintes”, conta o elemento da Polícia Turística.

Para o agente, o episódio revelou uma dimensão da profissão que vai além da aplicação das regras. “Esta experiência marcou-me profundamente e recordou-me que o trabalho da Polícia Turística não exige apenas competência profissional e eficiência na aplicação da lei, mas também um forte sentido de empatia. Em momentos de crise, prestar apoio e assistência pode ajudar eficazmente a aliviar a angústia das vítimas e demonstrar o lado humano do trabalho policial.”

U Mei Kok, também agente da Polícia Turística, descreve o seu trabalho como uma combinação entre policiamento e serviço público. Perdas de objectos, procura de pessoas perdidas, conflitos envolvendo turistas e dificuldades linguísticas estão entre as situações que surgem regularmente.

Nos dias de maior movimento em épocas festivas ou que coincidam com grandes eventos, as responsabilidades acumulam-se. É necessário gerir multidões e prevenir furtos, enquanto se continua a responder aos problemas individuais de quem procura ajuda.

“Além disso, por se encontrarem num ambiente que não conhecem, os visitantes perdem frequentemente documentos de identificação ou objectos pessoais, sendo muito comuns os pedidos de assistência deste tipo”, refere a agente. “Temos de agir rapidamente para os ajudar a procurar os objectos perdidos, acompanhar os respectivos casos e prestar orientações sobre a substituição de documentos, procurando assim responder às suas necessidades mais urgentes.”

Um desses episódios começou quando dois turistas chegaram muito ansiosos ao Centro de Apoio a Turistas, pois tinham deixado um telemóvel num táxi.

U Mei Kok registou os locais e horários de entrada e saída dos passageiros e as características do automóvel. Através do sistema, os agentes conseguiram identificar o táxi e, em colaboração com outros serviços, contactar o motorista. O telemóvel foi encontrado e devolvido aos proprietários.

Elementos da Polícia Turística também gerem o fluxo de pessoas em vários locais da cidade e em eventos de grande dimensão

“Os visitantes manifestaram o seu apreço pela colaboração entre os diferentes serviços e pela eficiência com que o caso foi tratado. Esta experiência reforçou ainda mais a minha determinação em servir os visitantes”, diz U Mei Kok. “Continuarei a desempenhar as minhas funções de forma profissional, acessível e responsável, contribuindo para transmitir a imagem da Polícia Turística como uma força prestável e dedicada”, acrescenta.

Numa cidade onde residentes e visitantes partilham diariamente ruas, praças e pontos turísticos muito movimentados, a Polícia Turística ocupa um espaço entre a autoridade e a hospitalidade. Para muitos turistas, talvez nunca seja necessário pedir ajuda. Mas saber que há alguém por perto a quem podem recorrer faz também parte da experiência de descobrir Macau. 

*Colaborador da edição chinesa da Revista Macau, com Rui Pastorin