Junho marca o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista, hoje unanimemente considerado o mais proeminente artista macaense do século XIX. Dono de uma vasta obra – embora haja incertezas quanto à sua dimensão exacta –, foi discípulo de George Chinnery e ajudou a fixar para a posteridade a imagem do Delta do Rio das Pérolas do seu tempo
Texto João F. O. Botas*
Considerado o mais ilustre artista macaense do século XIX, Marciano António Baptista (1826-1896) é hoje recordado pelas suas aguarelas, que ajudaram a definir os primórdios da identidade visual do Delta do Rio das Pérolas. Deixou uma marca própria na história da arte asiática, resultante da fusão que preconizou entre técnica ocidental e sensibilidade oriental, e amplamente reconhecida actualmente.
É difícil traçar ao detalhe a biografia de Marciano Baptista. Não se lhe conhecem diários, cartas ou artigos em nome próprio, e as fontes directas da altura a seu respeito são relativamente escassas e maioritariamente oficiais.
Foi a 5 de Junho de 1826, há 200 anos, que Macau viu nascer aquele que seria um dos maiores retratistas macaenses da cidade. Era filho ilegítimo de Manuel Joaquim Baptista, piloto e capitão de lorcha – um tipo de embarcação local da altura –, que mais tarde o viria a reconhecer. A mãe, de ascendência chinesa, tinha como nome de baptismo Ana Laureana (ou Laurência).
Em 1838, com 12 anos, Marciano Baptista entrou no colégio ligado ao Seminário de S. José, onde completou os estudos. Reza a história que, nesses tempos de juventude, conheceu o pintor britânico George Chinnery (1774-1852), que chegara a Macau vindo da Índia em 1825 e residia perto do colégio. Chinnery, que viveu depois na cidade até à sua morte, em Maio de 1852, acabaria por se afirmar como uma figura de referência a nível artístico no Delta do Rio das Pérolas, com o seu estilo a exercer grande influência nos artistas chineses de Cantão seus contemporâneos, assim como em pintores macaenses e nos habitantes ocidentais de Macau da altura.
O jovem Marciano Baptista ajudaria o mestre no moer dos pigmentos para o fabrico das tintas, assim como a preparar as telas e a limpar os pincéis, enquanto se familiarizava com as técnicas do britânico, formado na conceituada Academia Real de Londres. De Chinnery, Marciano Baptista absorveu desde as técnicas de esboço aos traços em aguarela e óleo, seguindo os parâmetros clássicos da chamada escola inglesa de paisagem.
Nesse início de carreira no mundo das artes, consegue já obter um rendimento modesto vendendo pinturas de pequenas dimensões a marinheiros e visitantes estrangeiros de passagem por Macau.
Em 1848, Marciano Baptista casa com Maria Josefa do Rosário (1830-1906), na igreja de S. Domingos. Ele tinha 22 anos e ela 18.
Os tempos eram de ressaca da primeira Guerra do Ópio, que tinha terminado em 1842: de Macau, assistia-se ao rápido desenvolvimento de Hong Kong enquanto território sob o jugo do Reino Unido. Face às dificuldades económicas então vividas na cidade natal, o casal junta-se ao êxodo de muitos macaenses que se mudam para Hong Kong em busca de melhores oportunidades. Entre 1849 e 1872, tiveram 12 filhos, tendo dois morrido à nascença.
“O Porto Interior”, lápis e aguarela sobre papel (cerca de 1875-1880) | “Entrada de Macau por Leste”, lápis e aguarela sobre papel (cerca de 1875-1880) |
No campo artístico, as ditas “pequenas pinturas” de Marciano Baptista não passam despercebidas. Na edição da “Revista Universal Lisbonense” de 10 de Fevereiro de 1853, refere-se uma exposição na Academia de Belas Artes de Lisboa onde estão patentes quadros “pintados em Macau pelo Sr. Marciano Baptista e apresentados pelo Sr. Carlos José Caldeira” – um deles “representando a catedral de Macau e diferentes costumes locais; outro, a Gruta de Camões, no estado em que actualmente se acha”.
Carlos José Caldeira (1811-1882), jornalista, escritor, diplomata e político português, viveu em Macau entre 1850 e 1851. No regresso a Portugal, terá levado consigo as obras de Marciano Baptista apresentadas na mostra patente na capital portuguesa.
Homem de muitos ofícios
Em Hong Kong, Marciano Baptista vive no número 2 do Oswald Terrace e instala um estúdio em Caine Road, para vender as suas pinturas. Em anúncios da década de 1850 – nas edições do “The China Mail” de 3 de Setembro e de 5 de Novembro de 1857 –, afirma ter para venda “pinturas panorâmicas de Hong Kong, Macau e outros locais, produzidas ao estilo do falecido Sr. Chinnery, e também desenhos originais” da sua autoria.
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Para complementar os rendimentos, Marciano Baptista dá aulas de arte durante vários anos, incluindo no St. Saviour’s College, antecessor do actual St. Joseph’s College. Documentos da época atestam a sua posição como “professor de desenho”.
Sempre muito activo e multifacetado, Marciano Baptista notabiliza-se também na produção de cenários para salas de teatro de Hong Kong. Um dos clientes de cenários é o inglês Albert Smith (1816–1860), que se diz impressionado pelos “talentosos desenhos”. Nesta faceta de pintor de grandes superfícies, o artista terá também estado ligado às pinturas do tecto e do altar das igrejas de Santo António e de São Lourenço, em Macau, de acordo com relatos de familiares.

Em paralelo, mantém o gosto pela fotografia, forma de arte então emergente. Segundo contou em entrevista o bisneto Joe Baptista, em 2006, “depois de testemunhar um fotógrafo francês a fotografar a frota reunida no porto de Hong Kong, Marciano cedo se apercebeu do potencial da fotografia e encomendou equipamento fotográfico da Europa, começando a registar cenas do quotidiano de Hong Kong”.
Numa exposição sobre os primórdios da fotografia na China, que decorreu entre 2022 e 2023 no Peabody Essex Museum, em Salem, Massachusetts, nos Estados Unidos da América, constava uma fotografia – datada da década de 1860 – do túmulo de S. Francisco Xavier, na ilha de Shangchuan, apresentada como sendo de Marciano Baptista.
A 11 de Agosto de 1866, o artista anuncia no “Hongkong Mercury & Shipping Gazette” estar a vender as suas “três câmaras e lentes, grandes e pequenas, e produtos químicos necessários etc., tudo quase novo… preço $370”. Como bónus oferecia ao comprador um curso de fotografia.
Na edição de 1869 do “The Chronicle & Directory for China, Japan, Philippines etc”, refere-se o nome de “M. Baptista” como impressor fotográfico da publicação “The China Magazine”. Este título durou cerca de três anos e publicou fotos de Macau (incluindo das Ruínas de São Paulo e do Convento de S. Francisco, entre outros), não assinadas e em grande formato, facto raríssimo na época, as quais tinham sido captadas anos antes, sendo muito provável que fossem de Marciano Baptista.

Outra fonte de receitas para o artista macaense eram os trabalhos esporádicos que fazia para um dos mais conceituados jornais do mundo na época, o “The Illustrated London News”. Na edição de 28 de Março de 1857, Marciano Baptista assina a autoria de duas ilustrações num artigo sobre Hong Kong. No texto que as acompanha, pode ler-se: “Estes desenhos foram feitos por um português chamado Baptista, que aqui é considerado um artista talentoso e que foi aluno de Chinnery.”
Em Hong Kong, Marciano Baptista terá privado com o conceituado pintor chinês Lam Qua (1801–1860) – chegaram a ser vizinhos –, também ele um discípulo de Chinnery. Lam Qua afirmar-se-á como um dos expoentes máximos da produção de “pinturas para exportação” – isto é, quadros criados na China ao estilo ocidental (no seu caso, de Chinnery) durante os séculos XVIII e XIX para exportação para os mercados europeu e norte-americano.
Na década de 1940, José Pedro Braga – no livro “The Portuguese in Hongkong and China” – descreve Marciano Baptista como sendo “calmo e gentil e sempre pronto para ajudar uma boa causa”.
A morte e a posteridade
As notícias da morte do pintor, professor, ilustrador, cenógrafo e fotógrafo macaense evidenciam o reconhecimento de Marciano Baptista pela sociedade de Hong Kong. Morreu na cidade aos 70 anos, na manhã de 18 de Dezembro de 1896, e nesse mesmo dia surge a notícia no “The China Mail”.
No dia seguinte, o jornal “Hongkong Daily Press” escreve que “desapareceu uma figura bem conhecida e muito estimada por todos aqueles que com ele contactavam mais directamente”. A notícia continua: “A profissão do Sr. Baptista era a de artista e, durante um longo período de anos, foi responsável pela pintura de cenários do Theatre Royal, sendo os seus esforços frequentemente recompensados com uma chamada do público ao palco antes do fecho da cortina.”
“Refeição à Sombra da Árvore”, óleo sobre tela (data desconhecida) | “O Forte de D. Maria II, Macau”, lápis e aguarela sobre papel (cerca de 1875-1880) |
Embora a qualidade da sua arte não tenha sido completamente ignorada ao longo da sua vida, só após a sua morte se começou, gradualmente, a atribuir a Marciano Baptista o seu verdadeiro valor. O advogado, escritor, sinólogo e coleccionador de arte Manuel da Silva Mendes (1867-1931) foi dos primeiros a fazê-lo. A 29 de Novembro de 1914, num editorial do jornal “O Progresso”, considera-o um “aguarelista notável”, autor de “altas e puras realizações estéticas”, que “deixou bom número de aguarelas, quadros a óleo, desenhos e esboços a tinta de Nanking”, representando paisagens, costumes e cenas históricas. Poucos anos depois, em 1918, Humberto de Avelar (1884-1944), editor do título “Macau, Semanário Artístico, Literário e Social”, classifica-o como “o melhor artista que até hoje nasceu em Macau”.
Uma década depois, em 1928, a poetisa e filantropa Maria Ana Tamagnini Barbosa (1900-1933), esposa do então governador de Macau, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (1881-1940), escreve um artigo sobre uma exposição de arte no desaparecido Palacete da Flora em que destaca o “incontestável valor artístico” de Marciano Baptista. Terá sido uma das primeiras vezes que a obra do macaense foi mostrada publicamente na sua terra natal.
Foi preciso esperar até 1990 para uma grande mostra dedicada ao seu trabalho. Desta vez, não só em Macau, por iniciativa do então Leal Senado, como também em Hong Kong, no Mandarin Hotel. Duas exposições e dois catálogos nasceram dessas iniciativas: “Marciano Baptista e a sua Arte” e “Marciano Baptista 1826-1896: Artist of the China Coast”.
A Avenida de Marciano Baptista, junto ao Museu do Grande Prémio, é a homenagem maior da terra natal àquele que é considerado o mais pródigo macaense no mundo das artes durante o século XIX.
O legado
Passados 200 anos sobre a morte de Marciano Baptista, o valor artístico das suas obras sobressai de forma inquestionável no mercado de arte actual. Em Novembro do ano passado, duas aguarelas do artista com representações da baía da Praia Grande em meados do século XIX foram arrematadas num leilão em Londres por mais de 26 mil libras esterlinas, um valor superior a 280 mil patacas ao câmbio actual. A pintura “The Praya Grande from the South” atingiu 16.640 libras esterlinas, enquanto “The Praya Grande from the North” foi vendida por 9600 libras esterlinas.
Estima-se que Marciano Baptista tenha produzido mais de uma centena de obras e fê-lo praticamente até ao fim da vida. A 11 de Março de 1896, apenas três semanas antes de morrer, completou a pintura a óleo “The Royal visit of HRH Prince Alfred, Duke of Edinburgh, aboard HMS Gallatin”, visita que tinha ocorrido em 1869.
Um dos mais notáveis mecenas de Marciano Baptista foi o rico comerciante chinês Wu Bingjian (1769-1843), também conhecido como Howqua, o que ajudou a consolidar a reputação do artista macaense. Em 1875, pinta uma aguarela a propósito dos jardins ligados ao comerciante chinês em Guangzhou, a qual faz actualmente parte da colecção do Museu de Arte de Hong Kong.
Em 2013, uma pintura a óleo intitulada “A Lorcha”, que esteve na posse de familiares de Marciano Baptista durante mais de 150 anos, foi restaurada e regressou a Macau, sendo entregue à Macao Association of the Thirteen Hongs for Culture and Trade Promotion. O quadro foi feito em homenagem ao pai.

A esmagadora maioria dos trabalhos conhecidos do artista encontra-se actualmente em colecções públicas e privadas de Macau, Hong Kong, Austrália e Portugal. Permanece por fazer, no entanto, um levantamento exaustivo da obra de Marciano Baptista.
Manuel da Silva Mendes, no seu extenso artigo “Notas Soltas sobre a Arte Chinesa”, publicado em partes entre 1918 e 1919, deixou um contributo: “Conhecendo-se sem ensanchas para largos empreendimentos, vemo-lo em pequenos estudos de paisagem e de género, que só a mestres seria dado empreender.” No texto, Silva Mendes menciona diversas obras atribuídas a Marciano Baptista, incluindo “Camões salvando-se com os Lusíadas do naufrágio em Cambodja” – “que nos dizem ter ido para Inglaterra”, refere –, “O Pagode da Barra em Macau”, “Uma Rua de Vendilhões em Cantão”, “Um Recanto do Jardim Botânico de Hong Kong”, “O Porto de Amoy”, “Uma Lorcha” e “Um picnic de Chineses”, entre outras.
A par do valor estético, a obra de Marciano Baptista destaca-se também pelo valor histórico e documental – não só em relação a Macau, mas também a Hong Kong, inscrevendo por mérito próprio o nome do macaense na história da arte na Ásia no século XIX. Marciano Baptista não foi apenas aluno de um grande mestre; foi ele próprio mestre de uma nova forma visual resultante da fusão de marcas ocidentais e orientais num traço marcado pela sensibilidade. Absorvendo as concepções e técnicas da maior escola de aguarela de então da Europa (a inglesa), mas inserindo valores locais nas suas obras, Marciano Baptista pode ser encarado como um exemplo de interpenetração cultural.
Como resumiu Manuel da Silva Mendes: “Não deixou discípulos, mas tendo vivido sempre em contacto com chineses e trabalhado com alguns deles, contribuiu para despertar o gosto pelos processos europeus no sul da China”.
* Jornalista, autor de vários livros sobre a história de Macau e criador do blogue Macau Antigo (macauantigo.blogspot.com)


“O Porto Interior”, lápis e aguarela sobre papel (cerca de 1875-1880)
“Entrada de Macau por Leste”, lápis e aguarela sobre papel (cerca de 1875-1880)
“Refeição à Sombra da Árvore”, óleo sobre tela (data desconhecida)
“O Forte de D. Maria II, Macau”, lápis e aguarela sobre papel (cerca de 1875-1880)
