Fundação Casa de Macau

“A cultura de Macau deve ser o que Macau é hoje”

Álvaro Rosa assumiu a presidência da Fundação Casa de Macau em 2020
Três décadas depois da sua criação, a Fundação Casa de Macau procura reinventar a sua missão: preservar a herança macaense, divulgar a realidade contemporânea de Macau e reunir uma comunidade cada vez mais diversa e dispersa. A Fundação, que nasceu, em Lisboa, para ligar memórias, culturas e gerações, permanece uma ponte entre o oriente e o ocidente e, acima de tudo, entre o passado e o futuro

Texto Sandra Lobo Pimental
Fotografia: João Cortesão

Numa manhã tranquila na sede da Fundação Casa de Macau, no Príncipe Real, em Lisboa, Álvaro Rosa, presidente da Fundação desde 2020, conduz-nos numa visita por salas que se vão desembrulhando, carregadas de artefactos que nos transportam para outra realidade.

Há fatos utilizados na dança do leão, tambores, pratos e até uma cabeça de dragão frequentemente requisitada por escolas interessadas em mostrar aos alunos as tradições do Ano Novo Chinês, conta Álvaro Rosa. Entre outros objectos, encontram-se ainda peças ligadas ao quotidiano e à história de Macau, como chávenas e bules, e até cachimbos ornamentados, testemunhos de uma herança cultural construída ao longo de séculos.

“Gostava que tudo isto estivesse num museu”, confessa o presidente da Fundação, como que olhando para o passado e para o futuro de uma instituição criada num dos momentos mais marcantes da história recente de Macau.

Este ano, a Fundação Casa de Macau assinala o seu 30.º aniversário. As comemorações coincidem com uma fase de reflexão sobre o seu papel, num contexto em que Macau mudou profundamente desde a transferência de administração para a China e em que a própria comunidade macaense se tornou mais dispersa e diversa.

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Para Álvaro Rosa, as celebrações representam sobretudo uma oportunidade para reafirmar a missão da Fundação.

Segundo o responsável, a criação da Fundação contou com um forte impulso do último governador de Macau, Vasco Rocha Vieira, que compreendeu a necessidade de criar condições para apoiar os macaenses que optaram por viver em Portugal após 1999. “O governador preocupou-se não apenas com as infra-estruturas e com a transição administrativa. Também se preocupou com os macaenses que na altura decidiram vir para Portugal”, recorda.

A nova entidade foi dotada de recursos que permitiram assegurar a continuidade da actividade associativa da comunidade macaense em Portugal e apoiar a Casa de Macau, cuja existência antecede em várias décadas a criação da Fundação. A missão principal da Fundação era clara: garantir que a comunidade pudesse manter as suas manifestações culturais, sociais e identitárias, tanto em Lisboa como em Macau.

“As associações têm sempre dificuldade em sobreviver. Uma associação que oferece desporto ou música tem receitas próprias. Uma associação de pessoas normalmente não tem. A Fundação surgiu precisamente para garantir essa continuidade”, afirma Álvaro Rosa.

Sustentar o futuro

Trinta anos depois, a missão mantém-se, mas os desafios são diferentes. Se durante muitos anos a actividade da Fundação esteve sobretudo associada à realização de conferências e ao apoio à edição de livros relacionados com Macau, Álvaro Rosa acredita que chegou o momento de alargar horizontes. “A cultura macaense não pode ser apenas a cultura luso-chinesa do passado. A cultura de Macau deve ser o que Macau é hoje.”

A ideia atravessa toda a conversa. Preservar a memória continua a ser importante, mas já não basta. Para o presidente da Fundação, é importante que esta intenção seja bem interpretada, até porque preservar a memória continua a ser fundamental. “Existe uma nova geração de pessoas que se sente macaense em Macau sem ter necessariamente ascendência portuguesa. Elas também fazem parte da realidade de Macau”, defende.

A sede da Fundação apresenta vários artefactos ligados ao quotidiano de Macau

Para Álvaro Rosa, compreender Macau implica reconhecer as transformações ocorridas nas últimas décadas, justificando, por isso, que a Fundação procure acompanhar esta transformação, promovendo uma leitura contemporânea de Macau e das suas múltiplas identidades. “Macau é hoje muito mais chinesa do que era há vinte ou trinta anos. O mandarim ouve-se muito mais na rua. Isso faz parte da evolução natural das sociedades.”

Essa visão tem reflexos concretos na actividade da Fundação. Nos últimos anos, foram estabelecidos protocolos com escolas e universidades portuguesas, permitindo acolher estagiários e desenvolver projectos pedagógicos centrados na cultura chinesa e em Macau. O objectivo passa por tornar esse conhecimento mais acessível ao público.

“Queremos explicar a cultura chinesa de forma simples, próxima das pessoas.”

E acrescenta: “Porque é que o número quatro é evitado? Porque é que o oito é considerado auspicioso? Porque é que determinadas cores têm um significado especial? São aspectos simples, mas que ajudam a compreender melhor a cultura chinesa.”

Mas também há projectos curriculares ligados ao ensino obrigatório, em estabelecimentos de ensino básico e secundário. Entre os parceiros, encontram-se instituições como a Escola Secundária D. Filipa de Lencastre e estabelecimentos de ensino em Almada, Loures e Torres Vedras.

O objectivo, explica, passa por democratizar o conhecimento, tornando-o acessível a públicos que normalmente não teriam contacto com estudos académicos especializados.

A identidade macaense

Quando a conversa se desloca para a identidade macaense, Álvaro Rosa, ele próprio parte da sexta geração de uma família portuguesa de Macau, adopta uma perspectiva assumidamente inclusiva. O conceito tradicional continua a existir, mas já não se esgota na realidade de uma comunidade espalhada pelos quatro cantos do mundo. Hoje fazem também parte desse universo antigos residentes, estudantes, profissionais e famílias que mantêm uma ligação afectiva à cidade.

“No passado, pensávamos sobretudo nos macaenses que tinham uma ligação familiar portuguesa. Hoje percebemos que isso não chega.” E hoje a diáspora relacionada com Macau é muito mais ampla: “Há muitas pessoas que viveram em Macau e que guardam uma enorme ligação. É importante criar espaços onde essas memórias possam ser partilhadas”, diz Álvaro Rosa, referindo que a Fundação pode ter um papel determinante nesse aspecto.

É precisamente essa visão que inspira alguns dos projectos que pretende desenvolver nos próximos anos. Um dos temas que mais entusiasma Álvaro Rosa é a possibilidade de criar novos encontros para portugueses e antigos residentes que passaram parte das suas vidas em Macau. “A Fundação quer contactar esta gente toda. Há muita gente, não só pessoas que acabaram de regressar, mas muitas pessoas que fizeram lá o liceu, fizeram os estudos básicos e secundários de Macau e voltaram.”


Para ser macaense basta gostar de Macau”

ÁLVARO ROSA
PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO CASA DE MACAU

Ao longo dos últimos anos, muitos são aqueles que mantêm amizades, hábitos e memórias profundamente marcados pela experiência em Macau. “Quero congregar todas estas pessoas”, afirma o presidente da Fundação. “Gostava de criar eventos onde todos se possam reencontrar, recordar histórias, falar das suas experiências e manter viva essa ligação”, ambiciona.

Para Álvaro Rosa, ser macaense não depende apenas da origem familiar. “O meu filho nasceu em Lisboa e um dia disse-me que não podia ser macaense porque não nasceu em Macau. Eu respondi-lhe que para ser macaense basta gostar de Macau.”

A definição pode parecer simples, mas traduz uma visão adaptada à evolução da própria comunidade, que, de acordo com o responsável, ajuda a garantir a sobrevivência da identidade macaense, que não tem de viver do passado.

Pólo de conhecimento e partilha

Sem ignorar o peso económico dos resorts integrados, Álvaro Rosa destaca a diversificação económica actualmente em curso, impulsionada pelos investimentos em turismo, pelos grandes eventos internacionais e pela integração de Macau na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.

“Eu vejo Macau como uma cidade de entretenimento”, sublinha o presidente da Fundação, acrescentando igualmente o papel crescente do ensino superior no desenvolvimento da região.

“Macau é também um pólo de conhecimento e de formação importante para toda a região”, defende. Para Álvaro Rosa, esta transformação representa uma oportunidade para a cidade construir um modelo económico mais equilibrado e sustentável.

A instituição celebra, em 2026, 30 anos ao serviço da comunidade macaense

Apesar da sua dimensão relativamente reduzida, a Fundação mantém uma rede activa de colaboração com diversas instituições ligadas à história, cultura e investigação sobre Macau. Entre os parceiros mais próximos, destacam-se a Fundação Jorge Álvares, o Centro Científico e Cultural de Macau e o Instituto Internacional de Macau. As iniciativas conjuntas incluem conferências, apresentações de livros, debates históricos e actividades culturais.

Trinta anos depois da sua criação, a instituição continua a desempenhar o papel de ponte entre gerações, geografias e experiências diferentes. Numa altura em que as fronteiras físicas parecem menos importantes, mas em que as identidades se tornam cada vez mais complexas, a Fundação procura afirmar-se como um espaço de encontro. Um lugar onde cabem os macaenses de várias gerações, os portugueses que viveram na cidade, os jovens interessados pela China e todos aqueles que continuam a guardar Macau como parte da sua própria história. “Não queremos apenas preservar o passado”, resume Álvaro Rosa. “Queremos garantir que Macau continua viva nas pessoas.”