Texto Guilherme Rego
Se há um elemento que distingue a revisão do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa da versão de 2013, é a forma como o património – cultural e natural – passou de condicionante a elemento estruturante do projecto.
Durante anos, a presença de árvores antigas classificadas, património histórico e terrenos com características ambientais particulares foi vista como um dos principais obstáculos à concretização de uma urbanização de grande densidade. O novo documento apresentado pela Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU) segue uma lógica diferente: preservar esses elementos e utilizá-los como base para a organização futura da zona.
Entre as iniciativas previstas, destaca-se a criação do Parque de Conjunto de Árvores Antigas e do Parque da Zona Norte da Taipa. O primeiro integrará as 23 árvores antigas e de reconhecido valor existentes na área, bem como três árvores de grande porte cuja preservação também está prevista. O parque incorpora igualmente o Templo de Kuan Tai e Tin Hau, cumprindo os termos da “Lei de Salvaguarda do Património Cultural”.
Segundo o director da DSSCU, Lai Weng Leong, “recorrendo ao ajuste da rede viária para evitar interferências, à criação de um parque de árvores antigas e à articulação com os recursos histórico-culturais circundantes, como o Templo de Kuan Tai e o Templo de Tin Hau, responder-se-á às preocupações da sociedade relativamente à conservação ecológica e à salvaguarda dos recursos históricos”.
O objectivo, salienta, “é criar um verdadeiro ‘museu histórico e ecológico ao ar livre’, permitindo aos residentes e visitantes conhecer melhor a memória histórica e cultural da antiga aldeia da Taipa durante os seus percursos”.
Para Inês Lei, a preservação do património não deve ser encarada como um obstáculo ao desenvolvimento urbano, mas como um elemento capaz de conferir identidade e carácter. A urbanista destaca particularmente a decisão de preservar as árvores antigas existentes na área e de as transformar num dos elementos centrais da futura organização da zona. “As árvores antigas não são apenas elementos paisagísticos. Fazem parte da história daquele lugar e ajudam-nos a compreender como a Taipa se desenvolveu ao longo do tempo”, explica.
Também Nuno Soares considera que a valorização do património representa uma das dimensões relevantes do plano. “Temos de criar condições no futuro de Macau para manter aquilo que do passado de Macau é bom. O que é mau, vamos mudar, mas o que é bom, vamos fortalecer”, salienta o arquitecto e urbanista do CURB – Centro de Arquitectura e Urbanismo.
Enquadramento estratégico
Nuno Soares é da opinião de que o Plano Director da RAEM (2020-2040) constitui uma diferença fundamental face ao contexto de 2013. O arquitecto considera que o novo projecto beneficia de um enquadramento estratégico que era inexistente quando a primeira versão foi elaborada, permitindo agora articular melhor os objectivos específicos da Zona Norte da Taipa com uma visão mais ampla para a cidade.

Para Rhino Lam, o facto de haver uma maior atenção à viabilidade do uso dos terrenos é uma das diferenças relevantes face ao projecto anterior. “O plano de 2013 dependia de operações fundiárias muito complexas, em que o desenvolvimento de um terreno exigia ajustamentos sucessivos entre várias parcelas vizinhas. Isso criava dificuldades significativas de implementação”, realça o urbanista, destacando também a maior estabilidade do actual mercado imobiliário de Macau.
Para Nuno Soares, a menor densidade habitacional prevista na revisão de 2026 deve ser lida no contexto de uma cidade que já não enfrenta os mesmos desafios das décadas anteriores. A maior integração com Hengqin e a existência de novas oportunidades de residência, trabalho e desenvolvimento na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin reduzem a pressão para que cada parcela de Macau responda isoladamente a todas as necessidades habitacionais.
“Macau não tinha obrigação nem capacidade de se focar na qualidade de vida como tem agora”, afirma o arquitecto. “Neste momento, podemos ter a ambição de ser uma cidade onde gostamos de viver.”
Essa mudança ganha relevância perante o envelhecimento da população. “Estamos a ficar mais velhos em Macau”, atenta Nuno Soares. Uma sociedade mais envelhecida, acrescenta, “precisa de mais espaço público, de mais equipamentos para idosos e de uma mobilidade facilitada”.
Nesse sentido, o arquitecto espera que o reforço dos equipamentos públicos possa também contribuir para responder às exigências de uma população com necessidades cada vez mais diversificadas ao longo das diferentes fases da vida.
Nuno Soares considera que esta dimensão será decisiva para o sucesso do plano e para transformar a futura urbanização num “verdadeiro bairro”. Contudo, para o urbanista, não basta distribuir funções na área; é necessário criar uma vida quotidiana identificável. “O bairro tem uma escala humana. A cidade é de um grupo de pessoas com uma proporção gigante. O bairro deve servir uma comunidade”, afirma.
Na sua perspectiva, essa comunidade constrói-se através de equipamentos públicos, espaços de encontro e comércio local. “Os espaços comunitários, quando estão num bairro, ajudam-nos a desenvolver relações de proximidade. Temos de ter um café, uma loja de conveniência, uma mercearia. As pessoas não se encontram numa rua; encontram-se numa praça, num café.”
Nuno Soares destaca também que a vitalidade de um bairro depende igualmente do tipo de actividade económica que o acompanha. O plano já prevê inovação, cultura, turismo e serviços, sendo que o urbanista afirma que a sustentabilidade comunitária depende igualmente da presença de pequenos negócios, lojas de conveniência e usos ao nível da rua capazes de gerar movimento quotidiano e relação directa com os residentes.
Mobilidade e complementaridade
A preocupação com a qualidade do espaço urbano estende-se igualmente à forma como os futuros edifícios se irão relacionar com a área envolvente.
A questão das alturas e da volumetria é um dos aspectos relevantes da revisão do plano. Segundo o documento, os edifícios mais altos concentram-se sobretudo junto dos principais eixos viários e nas áreas destinadas à habitação e usos mistos, podendo atingir até 90 metros em alguns lotes. Nas proximidades do conjunto cultural e turístico e dos espaços verdes associados às árvores antigas, as alturas previstas são mais moderadas.
Os principais lotes destinados à habitação apresentam áreas significativas, variando entre várias dezenas de milhares de metros quadrados de área bruta de construção acima do solo, enquanto os terrenos reservados para equipamentos públicos, inovação tecnológica e actividades culturais ocupam parcelas de grande dimensão distribuídas pelos três conjuntos funcionais. Esta organização procura concentrar a maior intensidade construtiva junto das infra-estruturas de transporte e das vias estruturantes, libertando espaço para parques, praças e corredores pedonais.

Ainda assim, a avaliação dos urbanistas incide sobretudo sobre a forma como estes volumes se relacionam com o espaço público, os corredores visuais, as áreas verdes e a escala humana da futura comunidade.
A mobilidade constitui outro dos pilares centrais da revisão. O plano prevê uma rede pedonal tridimensional composta por percursos ao nível do solo, corredores aéreos e passagens superiores. Entre as intervenções previstas encontra-se o prolongamento do corredor aéreo da Avenida de Guimarães até ao Colégio Anglicano de Macau, bem como a criação de cinco percursos pedonais principais destinados a ligar equipamentos públicos, espaços verdes e a encosta da Taipa Grande.
O director da DSSCU refere que o prolongamento para leste do corredor aéreo da Avenida de Guimarães “constitui uma componente fundamental para optimizar a rede tridimensional de mobilidade da zona, tratando-se de um objectivo de planeamento a longo prazo”.
De acordo com Lai Weng Leong, o objectivo é melhorar a articulação entre bairros residenciais, paragens de autocarro, equipamentos públicos e espaços abertos, expandindo simultaneamente os percursos de lazer e mobilidade.
O plano inclui igualmente intervenções destinadas a responder a problemas de circulação que afectam actualmente a Taipa. A extensão da Avenida de Guimarães tem como objectivo aliviar os estrangulamentos de tráfego junto ao acesso à Ponte da Amizade, enquanto o alargamento do Caminho das Hortas pretende melhorar as ligações para sul e distribuir de forma mais eficiente a circulação automóvel.
Rhino Lam afirma que a ligação entre os diferentes conjuntos da futura comunidade e a sua articulação com os bairros já existentes da Taipa serão determinantes para o sucesso do projecto.
“Para a criação de uma identidade comunitária própria, terá de haver uma articulação entre o planeamento urbano, arquitectura e desenho paisagístico”, refere o urbanista, acrescentando que, mais do que criar novos percursos, importa garantir que estes sejam cómodos, acessíveis e utilizados no quotidiano pelos residentes.
Nuno Soares sublinha igualmente a importância de pensar a mobilidade para além da circulação automóvel. Na sua perspectiva, uma comunidade bem-sucedida depende da facilidade com que as pessoas conseguem deslocar-se a pé entre habitação, comércio, equipamentos públicos e espaços de lazer.
O arquitecto levanta, ainda assim, uma questão relevante sobre a solução das passagens superiores. Embora reconheça a necessidade de resolver conflitos entre circulação pedonal e automóvel, considera que o planeamento deve evitar transferir a dificuldade para o peão. “É muito mais fácil pedirmos a um carro para descer ou para subir”, afirma.
Já Rhino Lam diz que um dos desafios será garantir que os princípios definidos no plano se mantêm ao longo das várias etapas de execução. A qualidade dos espaços públicos, a integração do património, a mobilidade pedonal e a criação de uma verdadeira comunidade dependerão não apenas do desenho do plano, mas também da forma como este vier a ser concretizado nos próximos anos.


