O Grande Buda de Leshan é visitado anualmente por milhares de turistas
Grande Buda de Leshan

O guardião milenar da montanha

O Grande Buda de Leshan situa-se na província de Sichuan. Esculpido no século VIII, é a maior estátua do mundo talhada num penhasco

Na província de Sichuan, três rios confluem junto à cidade de Leshan. Na vizinhança, encrustada numa imponente falésia na montanha de Lingyun, junto à água, permanece há mais de 1200 anos uma colossal estátua. Trata-se do Grande Buda de Leshan, uma escultura em pedra com 71 metros de altura, a maior do mundo esculpida num penhasco, recorde que acumula com ser a maior estátua de um Buda.

Em 1996, a UNESCO incluiu o Grande Buda de Leshan – em conjunto com o vizinho Monte Emei – na Lista do Património Mundial, reconhecendo-os como património cultural e natural da Humanidade. O conjunto formado pela montanha de Lingyun e a estátua é frequentemente descrito como “a montanha que é um Buda e o Buda que é uma montanha”.

A origem da escultura prende-se com uma tentativa de acalmar as violentas correntes no local, geradas pela confluência dos rios Dadu, Minjiang e Qingyi. Os habitantes atribuíam a situação à ira de um espírito, o que levou um monge chamado Hai Tong a propor-se a esculpir uma imensa estátua de um Buda numa das faces da montanha de Lingyun, na esperança de apaziguar as águas turbulentas e evitar naufrágios.

A escolha por uma imagem do Buda Maitreia – ou Maitreya – não foi ao acaso. Trata-se de uma figura que, segundo a tradição budista, está associada à benevolência, amizade e compaixão.

Feito único de engenharia

Sob a direcção de Hai Tong, a obra monumental teve início em 713 d.C. e prosseguiu ao longo dos reinados de quatro imperadores da dinastia Tang (618–907 d.C.). Foram necessários 90 anos para a conclusão do projecto, já após a morte do monge. Mais do que uma criação artística, tratou-se de uma maratona de fé, perseverança e esforço colectivo.

A escavação da estátua na encosta acabou por atingir o propósito inicial de acalmar as águas. Os grandes blocos rochosos que foram retirados à face da montanha foram colocados no ponto de confluência dos três rios, funcionando como quebra-ondas naturais, alterando o curso das águas, reduzindo a força das correntes e contribuindo para tornar mais segura a passagem das embarcações.

O que impressiona no Grande Buda de Leshan não é apenas a imponência da estátua, mas também o sofisticado sistema de engenharia que lhe está associado e que protegeu a escultura das intempéries por mais de mil anos. Isto porque foram escavados discretos canais de drenagem das águas da chuva e cavidades de ventilação quase imperceptíveis entre as espirais do cabelo, nas pregas das vestes e atrás das orelhas do Buda. Foram também integrados no interior da estátua sistemas para o escoamento de águas subterrâneas.

O conjunto destas soluções constitui uma rede sofisticada de controlo da humidade, assegurando a protecção eficaz do Grande Buda de Leshan contra infiltrações e a erosão. Foi esta estratégia visionária que permitiu ao Buda atravessar séculos e manter, até hoje, a sua presença solene e majestosa.

Fonte de diálogo global

Para sentir de perto a grandiosidade do Buda, os visitantes podem deslocar-se até a um miradouro junto à cabeça da estátua. Aí, é possível apreciar os detalhes esculpidos no rosto da imagem e as suas 1021 espirais de cabelo. Pode-se depois percorrer o íngreme e estreito “Caminho das Nove Curvas”, escavado na rocha, até junto dos pés da estátua, de forma a ter uma noção da imponência do monumento, avançando-se em seguida para o histórico templo de Wuyou.

Outra opção, a partir da água, através de um passeio de barco, oferece uma visão panorâmica do Grande Buda de Leshan encrustado na montanha.

As ligações da zona do monte Emei ao budismo remontam a um período anterior à construção do Grande Buda de Leshan. O primeiro templo budista da China terá sido estabelecido nesta área no século I d.C., seguido pela edificação de vários outros – são mais de 30 no total, alguns dos quais com origens que remontam a mais de um milénio atrás –, o que transformou o local num dos lugares sagrados mais importantes do budismo a nível nacional.

O monte Emei destaca-se também pela sua extraordinária diversidade ao nível da flora, que inclui desde florestas subtropicais até pinhais subalpinos. Algumas das árvores aí existentes têm mais de mil anos.

O Grande Buda de Leshan tornou-se igualmente um símbolo de amizade entre povos. Para celebrar os 15 anos do estabelecimento de laços de parceria com a cidade francesa de Issy-les-Moulineaux, Leshan ofereceu à localidade europeia, em 2017, uma réplica do Buda, com cerca de dois metros de altura. 

Versão editada de texto extraído da edição n.º 133 da coluna especial “Um Vislumbre da Cultura Chinesa”, iniciativa do Macao Daily News em colaboração com o Diário de Notícias