A assinalar 25 anos de existência, a Casa de Portugal em Macau já se tornou num dos pilares mais importantes da cidade no que toca à promoção da cultura portuguesa a nível local
Texto Margarida Vidinha
É um quarto de século marcado de personalidade, entremeado por desafios e sucessos, aquele que a Casa de Portugal em Macau está a comemorar em 2026. Face às voltas do tempo, a instituição arranjou sempre forma de seguir adiante com a sua missão, deixando marcas profundas na vida da comunidade local que se expressa em português, mas não só.
“O trabalho da Casa de Portugal é feito em equipa, sempre”, assinala a presidente, Maria Amélia António, que lidera a associação há mais de duas décadas. “Tudo aquilo que a Casa fez ao longo destes 25 anos – teve equipas maiores, menores, mais dotadas, menos dotadas – foi sempre com gente empenhada”, acrescenta.
A Casa de Portugal soma hoje acção em várias frentes. Da Escola de Artes e Ofícios à Escolinha de Futebol, da operação do restaurante de gastronomia portuguesa Lusitanus à promoção da música lusa com banda própria, da organização de múltiplas exposições à participação em diversas paradas e festivais, a instituição cresceu e solidificou-se.
“A Casa tem um leque muito abrangente” de actividades, salienta Amélia António. “Desde o início que a Casa tem uma filosofia que é fazer mais e melhor”, reforça a responsável, sublinhando, porém, a prioridade dada à qualidade. Apesar da diversidade de projectos, a associação “sempre deu provas” de capacidade de execução, garante.
De porto seguro a pólo cultural
A Casa de Portugal nasceu em Junho de 2001, num contexto então percepcionado como de uma certa incerteza junto de sectores da comunidade portuguesa em Macau, recorda Amélia António. A responsável lembra que a transferência de administração da cidade para a República Popular da China, em Dezembro de 1999, gerou alguma incógnita em relação ao papel reservado para a comunidade na então recém-criada Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). “E não havia nenhuma instituição que, de certa maneira, agregasse a comunidade portuguesa” diz.

“Ao longo destes 25 anos, nunca prometemos nada que não fosse para cumprir“
MARIA AMÉLIA ANTÓNIO
PRESIDENTE DA CASA DE PORTUGAL EM MACAU
A actual presidente recorda as “imensas discussões” na altura entre os portugueses residentes na RAEM sobre qual devia ser o perfil da Casa de Portugal, se de cariz mais político, cívico ou cultural. “Foi um momento de grande vitalidade da comunidade”, em que havia opiniões “muito diversas”, afirma.
Apesar de estar à frente dos destinos da organização há mais de 20 anos, Amélia António não foi a primeira pessoa a liderar a Casa de Portugal. Esse papel coube a João Manuel Costa Antunes, então director dos Serviços de Turismo: a advogada viria a suceder-lhe em Junho de 2005. Em Março deste ano, foi eleita para mais um mandato, o décimo consecutivo, para o período de 2026 a 2028.
A responsável recorda que a organização “nasceu do nada, do zero”. Sem instalações próprias, os primeiros encontros foram feitos em espaços cedidos. Houve, ainda assim, apoio desde cedo do Governo da RAEM, com Amélia António a recordar os incentivos dados ao projecto pelo primeiro Chefe do Executivo, Edmund Ho Hau Wah. “Estava sempre a empurrar-nos para fazermos mais.”
Com o passar do tempo, os receios iniciais entre a comunidade portuguesa face ao futuro na era RAEM foram-se dissipando. “As coisas foram decorrendo com alguma serenidade, com alguma normalidade, e começou-se a perceber que havia outras questões, nomeadamente a presença, o peso cultural, de Portugal em Macau”, refere Amélia António. A dirigente associativa explica que se começou a ter a noção de que, para garantir uma continuidade desse papel, “isso passava por se continuar a ser capaz de manter e desenvolver a cultura portuguesa aqui”.
“Mãos na massa”
Foi assim que, desde cedo, a organização assumiu um papel de promotora da portugalidade na RAEM, complementando os outros dois pilares de promoção da identidade portuguesa na cidade: a Escola Portuguesa de Macau (EPM) e o Instituto Português do Oriente (IPOR). Enquanto o IPOR se dedicava ao ensino da língua e a EPM à educação, coube à Casa de Portugal agarrar o pilar da cultura.
A filosofia da organização sempre foi pragmática: “Meter as mãos na massa”, sintetiza a presidente. No fundo, “pôr as pessoas a mexerem, a aprenderem como é que se faz”, para serem depois capazes de desenvolver expressões da cultura portuguesa de forma própria. “E esse foi, de facto, o caminho”, explica Amélia António, trilhado “passo a passo”.


A organização promove a cultura portuguesa em Macau através de diversas iniciativas, de exposições a cursos de pintura de azulejos
A Escola de Artes e Ofícios e as suas oficinas de cerâmica, pintura de azulejos, joalharia ou bordados, entre outras, tornaram-se símbolos da instituição e são actividades que ainda hoje a Casa de Portugal preserva e disponibiliza aos locais – não só de língua portuguesa, mas a toda a comunidade. A oferta é limitada pela capacidade das instalações da associação, mas a adesão é grande, incluindo por parte da comunidade de expressão chinesa, que encontra na Casa de Portugal uma oportunidade de contacto com a cultura lusa, assegura Amélia António.
“Aquilo que a Casa tem feito de formação ao longo destes anos esteve sempre aberto a portugueses, a locais, a estrangeiros, etc.”, sublinha a dirigente. “Pela nossa formação, passou gente com nacionalidades muito diferentes, com backgrounds muito diferentes, porque o nosso entendimento é o de que devemos ter a maior abertura”, diz. “Quantas mais pessoas aprenderem e tomarem conhecimento de como fazer as coisas bem, melhor estão a ser servidos os interesses quer de Macau, quer da cultura portuguesa.”
Neste particular, a responsável enfatiza a importância da qualidade: uma formação sem atalhos, assente nas práticas genuínas. “É preciso que haja instituições sólidas a ensinar as coisas como deve ser, para que de facto elas subsistam na cidade. E esse tem sido – e penso que é – o papel que cabe à Casa de Portugal”, diz Amélia António. Por isso, sugere que este tipo de formação artística possa ser oficialmente certificado, para dar aos formandos “um estímulo” e lhes “abrir perspectivas profissionais”.
Diversidade de oferta e públicos
A oferta de formação pela Casa de Portugal vai muito para lá dos elementos relacionados com a cultura portuguesa. A instituição disponibiliza ainda cursos em áreas como a informática, multimédia, costura ou design. Existem também aulas ligadas ao bem-estar físico e psicológico, incluindo para seniores, além de uma panóplia de workshops pontuais sobre os mais diversos temas e para diferentes públicos.
Se a voz da presidente dá o tom institucional, o testemunho de Elisa Vilaça acrescenta a dimensão prática no que toca ao trabalho da Escola de Artes e Ofícios da Casa de Portugal. Artista e professora, vive na cidade desde 1982 e dinamiza cursos de arte na instituição.
“Há um amor muito maior naquilo que se faz quando se põe todo o esforço em cima de uma situação”, afirma. Conhecida como “a mulher do lixo”, orgulha-se de reaproveitar materiais para criar arte. Para a artista, o futuro da Casa de Portugal passa por envolver mais jovens e estimular neles a criatividade.
“Acho que é fundamental dar um abanão a esta juventude. Criar momentos de interacção, de partilha, de responsabilidade, mas em que eles consigam pôr as suas ideias em prática”, diz.
Um dos importantes contributos da Casa de Portugal para a comunidade é já o trabalho dedicado aos mais novos. Os projectos passam pela realização de actividades em escolas, campos de férias e oficinas de artes. O objectivo é motivar a curiosidade e criar laços com a língua e a cultura portuguesas. “O interesse que conseguirmos despertar nas crianças vai repercutir-se ao longo da sua vida”, afirma Amélia António.
“Eu diria que talvez cerca de 75 a 80 por cento das pessoas que procuram essas actividades não são portuguesas”, assinala a presidente. “Os pais procuram muito actividades para os miúdos, desde relativamente pequenos, porque querem que eles se familiarizem com a língua.”

A credibilidade que a Casa de Portugal mostrou ao longo da sua existência permitiu que fosse reconhecida com uma medalha de Mérito Cultural pelo Governo da RAEM logo em 2011, coincidindo com o décimo aniversário da organização.
“Foi mais um incentivo, mais uma maneira de testemunhar que a Casa estava a realizar um trabalho, do ponto de vista cultural, importante e de qualidade”, recorda Amélia António. “Ao longo destes 25 anos, nunca prometemos nada que não fosse para cumprir.” Ela própria receberia, a título individual, uma medalha de Serviços Comunitários dois anos depois, em 2013.
Papel comunitário activo
Se as oficinas de artes e ofícios são, em parte, o coração da Casa de Portugal, os espectáculos e actividades públicas são a cara. Ao longo dos anos, a instituição tornou-se presença assídua na organização e participação em diversos certames ligados à comunidade local de expressão portuguesa, como o arraial de São João, o festival “Junho, Mês de Portugal” e todos aqueles eventos em que Portugal necessita de representação.
“Temos muito mais actividades no exterior de mostra de artes e coisas ligadas à cultura portuguesa”, nota Amélia António. “E temos outro tipo de solicitações, que são actividades e eventos da própria Administração de Macau: são as paradas, festivais e espectáculos.” Entre eles, estão o Festival da Lusofonia, a Parada de Celebração do Ano Novo Chinês e a Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa.
A participação não se limita a uma presença simbólica: é um verdadeiro exercício de criatividade e de afirmação cultural. Tudo é produzido dentro das quatro paredes da Casa de Portugal, muitas vezes com materiais reciclados e reaproveitados.
Os resultados dessa capacidade inventiva são reconhecidos. Na edição deste ano do Desfile Internacional de Macau, a Casa de Portugal arrecadou o prémio “Melhor Criatividade”.
Ao longo dos anos, a instituição organizou ainda concertos, exposições e eventos ligados a datas históricas de Portugal – como o 25 de Abril de 1974, por exemplo. Só no passado mês de Junho, decorreram actividades comemorativas ligadas ao centenário da morte do poeta Camilo Pessanha, a inauguração de uma exposição sobre calçada portuguesa, a primeira edição do Festival da Língua Portuguesa, um workshop dedicado ao pintor Júlio Pomar e espectáculos de fado, entre diversas outras iniciativas associadas à cultura lusa, parte delas integradas no festival “Junho, Mês de Portugal”.

O desporto também tem um lugar de destaque na organização, onde existem equipas de futebol e voleibol de diversos escalões etários, de crianças a veteranos. “Isto envolve também uma actividade muito grande e muita gente”, nota Amélia António.
Apesar do muito que já foi feito, a responsável reconhece desafios. Uma questão prende-se com o recrutamento de formadores para a Escola de Artes e Ofícios. “É preciso mestres com experiência prática, capazes de trabalhar com fornos, cerâmicas ou técnicas de gravura”, explica.
As instalações são, entretanto, uma apreensão. A Escola de Artes e Ofícios funciona num edifício industrial longe do centro da cidade, na Areia Preta, sem condições ideais para receber crianças em número elevado. Por isso, um dos objectivos de Amélia António passa por novas instalações, embora reconheça que, pela especificidade dos equipamentos pesados associados à escola, este seja um processo complexo.
Questionada acerca dos 25 anos da Casa de Portugal e de como imagina a instituição no futuro, a responsável é pragmática. “Cada ano é um desafio”, afirma. “Cada vez vejo o meu horizonte mais pequeno, tenho consciência da minha idade. Relativamente à Casa de Portugal, tenho uma preocupação enormíssima: quero que as coisas fiquem sólidas, que fiquem com os pés na terra para poderem funcionar”, confessa.
Amélia António emociona-se: “Ao fim destes anos, em que se fez tanto, em que se partiu do nada e a Casa cresceu até onde cresceu… para mim, o verdadeiro marco deste aniversário seria resolver as questões de fundo, porque a comunidade de Macau merece que a Casa lhe preste mais e melhor serviço.”


