É hoje um dos advogados mais conceituados de Macau, mas a ligação à cidade surgiu de forma inesperada. O que começou por ser uma solução de recurso, transformou-se para Álvaro Rodrigues numa dádiva do destino. O causídico cabo-verdiano construiu a pulso uma carreira brilhante, constituiu família e criou raízes profundas numa comunidade que o acolheu e ajudou a moldar o seu percurso. Percalços e pergaminhos de uma extraordinária história de sucesso
Texto Marco Carvalho
Primeiro estranha-se, depois entranha-se. No compêndio de memórias de Álvaro dos Santos Rodrigues, o primeiro encontro com Macau permanece surpreendentemente nítido, quase tão intenso e definido como no dia em que, pela primeira vez, desembarcou no Porto Exterior, já lá vão mais de três décadas. Estranhou a comida, as ruas exíguas, a língua – com tanto de melodioso, como de indecifrável –, mas, mais do que a cornucópia de estímulos e de impulsos, ressentiu-se da impensável rasteira que o destino lhe pregou.
Nascido na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, no seio de uma família de recursos modestos, aprendeu desde cedo o valor do esforço, do sacrifício e da perseverança, mas não estava, confessa, pronto para testar a resiliência num recanto do mundo sobre o qual nada sabia. Quando se candidatou a uma bolsa de estudo para frequentar o ensino superior, estudar em Portugal parecia o caminho natural. O destino, no entanto, trocou-lhe as voltas. Acenou-lhe primeiro com Kiev e empurrou-o depois para Macau.
Chegou à cidade em 1990 com uma missão clara: concluir a licenciatura em Direito em cinco anos e regressar ao seu país natal. Trinta e seis anos depois, Macau tornou-se, para Álvaro Rodrigues, primeira casa e lar definitivo. Foi em Macau que se formou, construiu uma sólida carreira como advogado, criou família e enraizou profundamente a sua vida pessoal e a sua prática profissional. Depois do estranhamento inicial, o encantamento perpétuo.

Academia, residência, cantina, espaço de aprendizagem e de convivência. Nos primeiros e exigentes meses que Álvaro Rodrigues passou em Macau, as antigas instalações da Universidade de Macau foram casa, refúgio, botequim, ateneu e muito mais. A cidade irrompeu com uma voragem inesperada no percurso de vida do agora advogado e a instituição de ensino superior, onde estudou e viveu durante cinco intensos anos, ofereceu estabilidade e aconchego, num ambiente culturalmente distante e desafiador.
“O primeiro choque foi na chegada à fronteira. Quando chegámos aos Serviços de Fronteira, os polícias só falavam chinês. Vínhamos, eu e os meus colegas, de uma antiga colónia portuguesa para uma região sob administração portuguesa e sempre assumimos que havia muitas semelhanças com Cabo Verde, desde logo com a questão da língua. Estávamos enganados”, recorda Álvaro Rodrigues. “Depois havia a questão das saudades – muitas – de casa. No princípio da década de 1990, as comunicações eram muito limitadas, mas como sabíamos que vínhamos para uma missão e para uma missão que tinha de ser cumprida, essa determinação ajudou a superar as dificuldades”, atesta.
Trabalhador-estudante, conciliou um emprego diurno, primeiro na Conservatória do Registo Predial e depois na Direcção dos Serviços de Finanças, com aulas nocturnas. Exigente, a rotina não admitia falhas, mas Álvaro Rodrigues – tal como os seis outros bolseiros cabo-verdianos que o acompanharam na aventura a Oriente – não só cumpriu, como se excedeu.
“O facto de ter sido trabalhador-estudante não foi nenhum sacrifício. Não me limitou, nem me impediu de fazer o que quer que fosse. Tanto assim é que aquilo que podia ser feito, feito foi e hoje está à vista”, sustenta. “Fomos criados a lutar. Fomos habituados desde cedo ao sacrifício. Esta questão de trabalhar e estudar já vinha do ensino secundário ou até de mais cedo no caso de alguns. Em Macau, foi uma questão de dar continuidade a esse esforço”, refere.
Aluno diligente, o jovem bolseiro cabo-verdiano cumpriu a missão que lhe foi confiada com a mecânica precisão de um relógio, sem falhas, atrasos ou desvios. Previsto desde sempre, o regresso a Cabo Verde acabou, porém, por não se concretizar.
“Quando acabei o curso, comecei a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Empreendi, desde logo, o estágio de advocacia e, em simultâneo, comecei as aulas de mestrado e também dava aulas na qualidade de professor assistente”, conta. “Houve uma altura em que tinha aulas três vezes ao dia na universidade, em diferentes modalidades: dava aulas na faculdade como assistente, frequentava aulas como estagiário e tinha aulas no âmbito do mestrado. De certo modo, o prolongamento da vida para além da licenciatura permitiu-me continuar em Macau”, recorda Álvaro Rodrigues.
Se o percurso académico ajudou a prolongar a permanência em Macau, foi a advocacia que acabou por lhe abrir definitivamente as portas da cidade. Constituída em Novembro de 1995, com a fusão dos escritórios dirigidos por Rui José da Cunha e por António Correia, a sociedade C&C Advogados começou a operar dois meses depois e Álvaro Rodrigues integrou, na qualidade de advogado estagiário, a primeira equipa de causídicos do novo gabinete de advocacia.
“Há duas pessoas que deram nome e deram vida a esta casa: o Dr. Rui Cunha e o Dr. António Correia. A fusão dos escritórios que lideravam ocorreu em Novembro de 1995 e a C&C Advogados começou a funcionar em pleno nos primeiros dias de Janeiro de 1996”, relembra. “Nessa altura, passei a fazer parte do projecto como jovem estagiário. Ainda cá estou hoje, trinta anos depois. Ainda cá estou e pretendo estar até quando me for possível”, assegura. “A C&C é, para mim, muito mais do que trabalho. É uma vida”, remata Álvaro Rodrigues.
Como jovem estagiário primeiro, e como advogado por direito próprio depois, Álvaro Rodrigues acompanhou as grandes transformações de Macau: o regresso à administração chinesa em 1999, o crescimento e a transformação da indústria do jogo e o reforço do papel de Macau como plataforma preferencial para os países de língua portuguesa. A sociedade C&C Advogados – da qual é actualmente sócio e onde lidera a equipa de contencioso – testemunhou o seu crescimento profissional, os desafios superados e as relações de confiança construídas ao longo de décadas, num percurso que se fez de pequenos e grandes momentos e de pequenas e grandes vitórias, mas também de experiências inesquecíveis.
“O edifício do Antigo Tribunal tem, para mim, um simbolismo muito especial. Foi ali que comecei o meu estágio e, se não estou em erro, creio que me posso gabar de ter sido o primeiro advogado oriundo dos países de língua portuguesa que iniciou a sua formação, enquanto advogado estagiário, naquelas instalações”, sublinha.
Inaugurado em 1951, o edifício, construído num estilo eclético com forte influência neoclássica, deixou uma impressão indelével no jovem causídico. A solenidade do espaço, a gravidade dos corredores e o peso da história ajudaram a reforçar, ao fim de cinco anos de estudo intenso, o sentido de pertença a uma cidade que lhe ofereceu oportunidades singulares. Para Álvaro Rodrigues, o Antigo Tribunal simboliza continuidade e enraizamento. O experiente profissional em que se tornou aplaude com satisfação a recente recuperação do edifício e o retomar anunciado das funções que outrora desempenhou.
“Seria um erro não recuperar aquele edifício nos termos em que se encontra a ser recuperado. Em boa hora, alguém se lembrou de preservar o edifício e de instalar ali o Tribunal de Última Instância e o Gabinete do Tribunal de Última Instância, devolvendo-lhe a dignidade que outrora teve. Está bem entregue”, considera.

Piretus, Tribo, Kurumba, Mondial, Banza, Afonso. Com o passar dos anos, Macau deixou de ser apenas um lugar de estudo e de trabalho para se tornar um espaço de pertença emocional e o enraizamento passou, em grande medida, pela cumplicidade e pelos laços criados em restaurantes, bares e discotecas, alguns há muito desaparecidos.
No mapa dos afectos de Álvaro Rodrigues, espaços como o Piretus e o Mondial adquiriram uma importância fundamental, ao contribuírem para o fortalecimento de vínculos pessoais. Ajudaram-no a entranhar-se na cidade, a sentir-se integrado e acompanhado, longe de Cabo Verde, mas nunca verdadeiramente sozinho. Dos antigos pontos de convergência, apenas um – o restaurante Kruatheque, na Rua de Henrique de Macedo – resistiu ao volver dos anos.
“Nos primeiros tempos, vivíamos na Taipa, mas trabalhávamos na península, e fomos, aos poucos, alargando horizontes e conhecendo – e convivendo com – novas pessoas. Neste capítulo do convívio, havia o Piretus, uma discoteca africana que serviu durante algum tempo como ponto de encontro para os africanos radicados em Macau, e, depois disso, a discoteca Tribo e o Kurumba”, conta o advogado. “Havia também o famoso Mondial e o Kruatheque, que funcionavam como locais de convergência para quem saía à noite, ao fim da madrugada ou ao início da manhã. Estes foram alguns dos lugares que moldaram a minha vivência”, reconhece.
Macau transformou-se profundamente, mas continua a ser, aos olhos de Álvaro Rodrigues, uma terra de oportunidades. Mantém laços afectivos e alguns investimentos em Cabo Verde, mas sente-se hoje profundamente enraizado na cidade que o acolheu quando era apenas um estudante recém-chegado. Depois de três décadas e meia, não guarda mágoas pelo rumo que o destino lhe traçou. Pelo contrário, nutre uma gratidão serena e profunda por uma cidade que, contra todas as expectativas iniciais, se tornou casa.


