Está em marcha a preparação dos cerca de 100 atletas que Macau levará à edição deste ano dos Jogos Asiáticos, que decorrerão no Japão. A delegação participará em 15 modalidades, com o wushu a acalentar esperanças de mais medalhas. De resto, classificações honrosas e experiência competitiva são objectivos a cumprir
Texto Vítor Rebelo
Os Jogos Asiáticos voltam a mobilizar o desporto de Macau. Quando, em Setembro, a chama dos Jogos Asiáticos se acender em Aichi-Nagoya, no Japão, a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) estará representada por cerca de uma centena de atletas, distribuídos por 15 modalidades. Para muitos, será a estreia no maior palco desportivo da Ásia; para outros, a oportunidade de confirmar resultados e lutar por um lugar entre a elite continental.
Num evento que reúne cerca de 10 mil atletas de 45 países e regiões, Macau apresenta ambições realistas, mas não esconde a esperança de voltar a subir ao pódio. O wushu, responsável pelas três medalhas de ouro conquistadas por Macau na história dos Jogos Asiáticos, lidera as expectativas, acompanhado por modalidades que procuram consolidar o seu crescimento internacional, como o karaté, a natação, o triatlo ou o ciclismo.
Entre sonhos de medalha, classificações honrosas e a afirmação de novos talentos, a participação da RAEM na 20.ª edição dos Jogos Asiáticos, que decorrerá entre 19 de Setembro e 4 de Outubro, será também um teste à maturidade alcançada pelo desporto local.
Segundo o Comité Olímpico e Desportivo de Macau, China, os cerca de 100 atletas que vão integrar a delegação da RAEM no Japão vão competir nas seguintes modalidades: desportos aquáticos (natação e saltos para a água), atletismo, badminton, basquetebol 3×3, wushu, boxe, ciclismo (estrada e pista), esgrima, golfe, karaté, squash, ténis de mesa, taekwondo, triatlo e voleibol de praia.
A composição da delegação foi definida entre o Comité Olímpico, as associações desportivas locais e o Instituto do Desporto. Desde então, tem sido desenvolvido um plano de acompanhamento da preparação dos atletas seleccionados, numa fase que ganha agora intensidade à medida que se aproxima o arranque dos Jogos Asiáticos.
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Entre as modalidades com representação na próxima edição do evento, há uma que se destaca pelas ambições assumidas e pelo historial de resultados internacionais: o wushu.
Este desporto tem beneficiado de um investimento continuado e permanece como a mais bem-sucedida modalidade de Macau em competições internacionais. Ao longo dos anos, os atletas da RAEM têm conquistado medalhas em Campeonatos do Mundo e Jogos Asiáticos, consolidando o estatuto do wushu como principal referência no panorama local.
Dar continuidade ao sucesso
Para a edição deste ano, uma das principais apostas recai sobre Sou Cho Man, campeã mundial na variante changquan em 2023. A atleta espera lutar por um lugar entre as três primeiras classificadas e, assim, “honrar Macau”. Falando da sua preparação, afirma que vai dedicar o seu tempo e trabalho para melhorar a técnica, de modo a “dar o melhor na competição”. Sobre as condições de treino, revela que “são muito boas”, o que lhe permite uma “preparação a fundo”.
Aos 23 anos, Sou Cho Man chega aos Jogos Asiáticos depois de ter participado nos Jogos Nacionais, em Novembro passado, uma experiência que considera ter sido “muito valiosa”. Embora não tenha conseguido superar as atletas do Interior da China, afirma ter aprendido “muitas técnicas avançadas”. Quanto à competição no Japão, antevê uma forte concorrência, sobretudo do Interior da China, Hong Kong, Japão e Vietname.

“Se os atletas mantiverem o seu nível habitual de desempenho, há grandes hipóteses de conquistarem medalhas“
IAO CHON IN
TREINADOR DE WUSHU
O historial do wushu nos Jogos Asiáticos ajuda a explicar as expectativas que rodeiam a modalidade. Para o treinador Iao Chon In, a equipa reúne condições para voltar a lutar pelos lugares do pódio, depois das medalhas conquistadas em anteriores edições da competição. O técnico acredita que, “se os atletas mantiverem o seu nível habitual de desempenho, há grandes hipóteses de conquistarem medalhas novamente”.
Na sua opinião, os resultados alcançados nos últimos anos são fruto de uma aposta continuada na formação. “Foi sempre atribuída uma grande importância à formação da próxima geração, e muitos jovens atletas já conquistaram medalhas em competições internacionais”, sublinha.
O responsável destaca ainda o crescimento sustentado da modalidade em Macau, tanto ao nível da participação como das condições de treino. “Actualmente, há muitas crianças a participar nos treinos, e a sociedade de Macau reconhece, de um modo geral, que o wushu pode beneficiar os jovens de forma holística”, afirma, acrescentando que as instalações disponíveis já atingem “um padrão de treino de classe mundial”.
Se o wushu surge como a principal esperança de medalhas da delegação da RAEM, o karaté também chega aos Jogos Asiáticos com ambições legítimas de alcançar o pódio, depois dos resultados obtidos nos últimos anos em competições internacionais.
A Associação de Karate-Do de Macau informou que os atletas, ainda em número por definir, “estão focados na preparação”, tal como o corpo técnico. Entre os nomes mais fortes para integrar a selecção encontram-se Kuok Kin Hang, Fong Man Hou, Cheang Pei Lok, Iong Kuang Hou e Fong Man Wai.
A modalidade atravessa igualmente um momento positivo. Em Novembro de 2025, Macau alcançou o melhor resultado da sua história nos Jogos Nacionais ao conquistar cinco medalhas – três de ouro e duas de bronze –, todas na modalidade de karaté.
Entre as modalidades individuais, uma das principais figuras da delegação será Chao Man Hou, recordista de Macau dos 50 e 100 metros bruços, com os tempos de 27,76 segundos e 1.01,31 minutos, respectivamente. Nos Jogos Asiáticos de Hangzhou, em 2023, alcançou o quinto lugar na prova dos 50 metros bruços.

Naquela que será a sua quarta participação na competição, o nadador espera voltar a melhorar as suas marcas pessoais e garantir um lugar na final. “Se conseguir lá estar, vou dar o meu melhor para lutar por uma medalha”, afirma. Quanto à qualidade da selecção, considera que a RAEM dispõe actualmente de vários jovens atletas “altamente capazes” de discutir lugares entre os melhores.
A natação deverá contribuir com uma delegação de cerca de dez atletas. “Para garantir que estamos totalmente preparados, vamos primeiro competir no Campeonato Nacional da China, seguindo-se um estágio de treino”, explica Chao Man Hou. No plano individual, o atleta pretende colocar “maior ênfase à melhoria da resistência, à velocidade e ao aperfeiçoamento da técnica”.
O nadador considera que as condições de treino em Macau são globalmente positivas, embora admita que existe margem para melhorias, nomeadamente no que diz respeito ao acesso às piscinas, à escassez de treinadores e ao calendário competitivo.
Triatlo aponta ao top 8
O triatlo apresenta-se, na edição deste ano dos Jogos Asiáticos, com uma combinação de juventude e experiência. Macau deverá estar representada por seis atletas, quatro dos quais integrarão a equipa de estafetas.

Entre os nomes em destaque no sector masculino surge Chan Chon Ip, uma das principais promessas da modalidade. O atleta de 20 anos venceu este ano o Campeonato Asiático de Juniores e Sub-23, disputado em Hong Kong, onde Lao Cheok Hei conquistou a medalha de prata.
Para os Jogos Asiáticos, Chan Chon Ip espera demonstrar um “elevado nível de competitividade, executar estratégias de corrida de forma eficaz sob pressão e dar mostras de grande espírito desportivo”.
O jovem triatleta adianta, contudo, que os objectivos variam consoante a experiência de cada atleta. “Para os veteranos, a meta é claramente alcançar melhores classificações e bater os recordes históricos de Macau”, afirma. Já “para os atletas mais jovens da equipa, o objectivo principal é entrar nos primeiros oito, para ganhar experiência internacional valiosa e melhorar a posição geral de Macau na região”.
A preparação tem sido desenvolvida de forma faseada e “científica”, evoluindo de um trabalho de resistência de elevado volume para sessões focadas na velocidade e na potência.
No sector feminino, Macau volta a contar com a experiência de Hoi Long. Aos 41 anos, a atleta encara esta fase da carreira com objectivos diferentes dos que tinha no passado. Manter-se “saudável e continuar a treinar todos os dias para manter a forma” é agora a prioridade.
A veterana considera fundamental encontrar um equilíbrio entre treino, trabalho e recuperação. “Uma recuperação adequada é o factor mais importante para mim neste momento”, assegura.
Apesar de não ter alcançado os resultados desejados nos Jogos Asiáticos de Praia, realizados este ano em Sanya, na província de Hainão, Hoi Long acredita que a competição foi importante para a preparação. “Isto é altamente benéfico, uma vez que a distância de sprint nos próximos Jogos Asiáticos também exigirá um ritmo muito rápido”, explica.
A motivação para competir mantém-se intacta. “Sem dúvida”, responde quando questionada sobre a vontade de continuar em actividade. “Adoro ver as pessoas a competir e gosto verdadeiramente de correr ao lado dos meus colegas de equipa, pois vê-los a crescer e a melhorar parece mágico.”
Enquanto atleta surda, Hoi Long assume também um papel de referência para os mais novos. “Os meus colegas de equipa aprenderam a comunicar eficazmente comigo”, refere, acrescentando que esta é, “de certa forma, a minha maneira de promover a inclusão social através do desporto”.
Ciclista ambiciona o pódio
No ciclismo, uma das figuras mais aguardadas é Kam Chin Pok. O atleta de 23 anos compete profissionalmente por uma equipa espanhola e passa grande parte da época na Europa.
A selecção deverá apresentar quatro homens e duas mulheres. Para Kam Chin Pok, o perfil montanhoso do percurso poderá jogar a seu favor. “O trajecto adequa-se perfeitamente às minhas características, daí estar ansioso por esta prova”, afirma.
O objectivo passa por lutar pelos lugares cimeiros, embora prefira não fixar metas demasiado específicas. “Apenas quero dar o meu melhor”, garante. Após um período de preparação em Macau com os colegas de selecção, o ciclista seguiu para o Interior da China, onde prossegue um plano de treino orientado para os Jogos Asiáticos.

Kam Chin Pok acredita igualmente no potencial das novas gerações. “Acredito que eles podem alcançar grandes feitos no futuro, numa modalidade que está a tornar-se cada vez mais popular em Macau”, afirma. O atleta elogia a organização das provas locais e considera que estas têm contribuído para aumentar o nível competitivo do ciclismo em Macau. Defende, contudo, a realização de mais corridas com percursos diversificados e uma maior participação da selecção em competições internacionais.
Outro dos nomes em preparação é Alex Lei Kwok Hung, antigo internacional de hóquei em campo da RAEM, que em Maio venceu o UCI Gran Fondo Hangzhou–Liangzhu ITT, numa distância de 21 quilómetros. Integrado nos trabalhos da selecção, o atleta espera confirmar um lugar na equipa e chegar aos Jogos Asiáticos no melhor momento da temporada.
Aposta na evolução sustentada
O squash marcará presença nos Jogos Asiáticos com uma delegação feminina de quatro atletas e as expectativas são ambiciosas. Depois de ter alcançado anteriormente um quinto e um oitavo lugares, a modalidade procura dar mais um passo em frente.
“A expectativa é alcançar um resultado melhor do que no ciclo anterior dos Jogos Asiáticos”, afirma Armando Amante, secretário-geral da Associação de Squash de Macau. Na sua opinião, uma preparação mais estruturada e uma maior exposição competitiva poderão permitir à equipa aproximar-se desse objectivo.
O plano de trabalho inclui treino diário, preparação física, aperfeiçoamento táctico e participação regular em provas internacionais. Entre os momentos mais importantes da época contam-se o evento-teste da Taça da Ásia, em Nagoya, o 17.º Campeonato de Squash da Ásia Oriental, em Macau, vários torneios no estrangeiro e um estágio de preparação no Reino Unido.
Para além dos objectivos imediatos, Armando Amante vê sinais encorajadores para o futuro da modalidade. “Temos jovens atletas com grande potencial e os resultados recentes dos juniores mostram isso claramente”, refere.
Também o badminton aposta numa preparação intensa para chegar aos Jogos Asiáticos em condições de discutir melhores resultados. A equipa será composta por quatro atletas masculinos – Pui Pang Fong, Leong Iok Chong, Pui Chi Chon e Vong Kok Veng – e duas atletas femininas, Ng Weng Chi e Pui Chi Wa.
Segundo o treinador Lu Qing, o objectivo passa por “melhorar os resultados em relação à edição anterior e lutar por uma boa classificação”.
A preparação tem incidido no reforço da condição física, na consolidação dos fundamentos técnicos e no aperfeiçoamento da componente táctica.
Para além disso, frisa, há que “desenvolver a força de vontade e melhorar de forma abrangente a capacidade de resistência psicológica e de controlo emocional dos atletas, ajudando-os a enfrentar os treinos e as competições com uma atitude equilibrada e positiva”.
Nos meses que antecedem os Jogos Asiáticos, os atletas têm acumulado experiência competitiva em várias provas internacionais, incluindo torneios na Tailândia, Coreia do Sul, Índia e Indonésia, bem como, nas regiões de Taiwan e Macau.

Lu Qing considera que o badminton continua a crescer em Macau. “Nos últimos anos, o número de praticantes de badminton em Macau tem vindo a aumentar”, afirma. Para além dos atletas da selecção e dos clubes, acrescenta, existe um interesse crescente da população pela modalidade.
Basquetebol procura afirmar-se
O basquetebol será o único desporto colectivo da RAEM na edição deste ano dos Jogos Asiáticos, embora apenas na variante de 3×3. A delegação contará com uma equipa feminina sub-23, que encara o evento sobretudo como uma oportunidade de aprendizagem.
A treinadora Phiona Chao reconhece que a equipa enfrenta adversárias provenientes de países onde o basquetebol 3×3 profissional está mais desenvolvido. Por isso, as ambições passam mais pela aquisição de experiência competitiva.
“Esta é uma excelente oportunidade para as jovens jogadoras competirem em eventos de tão alto nível”, afirma. Os objectivos passam por vencer um ou dois jogos na fase de grupos e tentar alcançar os quartos-de-final.
A preparação incluiu dois estágios específicos de 3×3, um orientado por treinadores olímpicos e outro realizado com uma equipa da Superliga 3 da China. Antes do evento, no início de Setembro, as atletas participarão ainda numa prova do circuito NBA 3×3.
“Acredito que, com todos estes estágios e competições, a equipa estará bem preparada para competir e lutar pelo melhor resultado nos Jogos Asiáticos”, frisa a treinadora.
Phiona Chao considera que o basquetebol 3×3 está numa fase de crescimento acelerado em Macau. Em apenas quatro anos, o número de atletas passou de cerca de dez para quase 60, distribuídos por várias faixas etárias. Apesar dos progressos, entende que a modalidade poderá beneficiar de uma maior especialização dos atletas. “Temos proporcionado muita formação profissional aos jogadores de 3×3, mas estes continuam a debater-se entre o 5×5 e o 3×3”, observa.
Ao mesmo tempo, a associação procura aumentar o número de competições locais. Nos últimos quatro anos, os torneios de 3×3 passaram de dois para seis por época, estando já prevista uma expansão para os escalões mais jovens.


