São Tomé e Príncipe

O país do chocolate quer adoçar a Grande Baía

Sol, cacau e uma posição estratégica a meio do mundo. São Tomé e Príncipe quer fazer do turismo, da agricultura e das energias renováveis os pilares do processo de desenvolvimento do país e conta com o investimento chinês para alcançar os objectivos, diz o representante do país no Fórum de Macau, Gika da Graça Simão. Na mira está o gigantesco mercado da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau

Texto Marco Carvalho

São Tomé e Príncipe apanhou o comboio da cooperação multilateral entre a China e os países lusófonos já em andamento, mas a integração na dinâmica do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau) trouxe ao país africano oportunidades “espectaculares”. Quem o diz é Gika Makeba da Graça Simão, delegado do arquipélago equatorial africano junto do Secretariado Permanente do Fórum de Macau, que garante que a presença chinesa no país se tornou “inquestionável” desde que os dois países restabeleceram, no final de 2016, relações diplomáticas.

Num período de pouco mais de seis anos, a cooperação chinesa contribuiu para o reordenamento urbanístico de São Tomé, a capital da nação insular, dotando a cidade de fogos de habitação social, para além de ter permitido a ampliação e melhoria da rede rodoviária do arquipélago. 

“O apoio chinês tem sido bem-vindo, na medida em que, no quadro da cooperação entre os dois países, está em curso um conjunto de actividades e de projectos”, ilustra Gika da Graça Simão.

“Refiro-me a projectos no domínio das infra-estruturas, que constituem uma preocupação para o Governo de São Tomé e Príncipe, e, neste momento, a China tem contribuído imensamente para a melhoria das infra-estruturas” no país, acrescenta. “Refiro-me, concretamente, a edifícios, a moradias populares, a estradas e a outras infra-estruturas importantes para o processo de desenvolvimento.”

De acordo com o representante, até ao momento “foi construída uma média de 60 moradias”, mas o plano “passa por construir duzentos e tal apartamentos sociais”.

“Com a cooperação da China, houve intervenções que foram feitas, no domínio das infra-estruturas, no centro da capital: estradas, passeios e por aí fora. Há, portanto, uma intervenção, uma presença da China, que é inquestionável, neste momento, em São Tomé e Príncipe”, complementa.

Diversificar através do turismo

A expansão e modernização da rede de infra-estruturas é vista pelas autoridades de São Tomé e Príncipe como fundamental para o processo de desenvolvimento do país e para a viabilização económica dos sectores com maior potencial no arquipélago.

O futuro do país deverá passar por domínios como o turismo, a agricultura, a pesca, os serviços e as energias renováveis, áreas em que o investimento estrangeiro – nomeadamente de empresários e entidades da República Popular da China – é bem-vindo. 

“Neste momento, temos um consenso a nível nacional de que o turismo é a chave para São Tomé e Príncipe. A solução para São Tomé e Príncipe passa pelo turismo, na medida em que as condições são propícias para que este sector se afirme”, salienta Gika da Graça Simão. “Por outro lado, e tendo em conta que há toda uma política voltada para a transição energética, a aposta nas energias renováveis oferece imensas oportunidades aos investidores que queiram investir em São Tomé e Príncipe nessa área”, acrescenta.

É, de resto, no âmbito das energias renováveis que as perspectivas de um eventual investimento chinês em São Tomé e Príncipe se fazem mais tangíveis. O potencial do pequeno arquipélago africano, explica Gika da Graça Simão, atraiu um grupo de empresários da República Popular da China, num processo que não é alheio à dinâmica que o Fórum de Macau ajudou a criar ao longo dos últimos 20 anos.


“Neste momento, temos um consenso a nível nacional de que o turismo é a chave para São Tomé e Príncipe”

GIKA MAKEBA DA GRAÇA SIMÃO
DELEGADO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE JUNTO DO FÓRUM DE MACAU

“O Fórum de Macau é um instrumento que complementa a cooperação bilateral existente entre os países de língua portuguesa e a China, tendo Macau como plataforma. O que o Fórum de Macau trouxe, na verdade, foi uma maior projecção dos países lusófonos junto do empresariado do Interior da China”, refere o responsável, que é também coordenador do Gabinete de Ligação dos Países de Língua Portuguesa no Secretariado Permanente do Fórum de Macau.

“Através do Fórum de Macau, e por conta dos programas e das actividades do organismo, os delegados têm a oportunidade de se deslocar ao Interior da China e fazer a promoção das oportunidades de negócio nos seus respectivos países junto dos empresários do Interior da China. No caso concreto de São Tomé e Príncipe, tem sido uma experiência espectacular para nós”, assume. 

“Eu tenho recebido manifestações de intenções por parte de alguns empresários do Interior da China que desejam investir no sector das energias renováveis. Essas manifestações de interesse foram encaminhadas para os sectores competentes e, ao nível das partes, já tem havido diálogo, numa perspectiva do sector privado. O empresário que quer investir em São Tomé e Príncipe tem a abertura e estão reunidas as condições próprias para que ele possa investir com toda a tranquilidade no sector da energia solar”, diz o delegado de São Tomé e Príncipe junto do Secretariado Permanente do Fórum de Macau. 

Com os olhos na Grande Baía

Com pouco mais de 220 mil habitantes e com um tecido económico no qual o sector agrícola adquire um peso preponderante, São Tomé e Príncipe vê no Fórum de Macau um mecanismo incontornável para chegar a um dos mercados mais apetecíveis e substanciais do mundo. A consolidação do projecto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau representa, para os produtores e empresários são-tomenses, a abertura de novas janelas de oportunidade.

“A Grande Baía constitui, naturalmente, uma grande oportunidade, não só para São Tomé e Príncipe, mas para todos os países que integram o Fórum de Macau, na medida em que estamos a falar de uma região com mais de 86 milhões de consumidores, com um produto interno bruto de dois biliões de dólares americanos”, sublinha Gika da Graça Simão. “É um mercado a que qualquer empresa gostaria de ter acesso. Mas é preciso que haja uma estratégia muito bem definida e muito bem delineada entre as partes, para que os empresários possam, com uma maior facilidade, aceder a este grande mercado e, naturalmente, escoar os seus produtos, e no caso, os produtos que são produzidos em São Tomé e Príncipe.”

A cooperação chinesa tem contribuído para o reordenamento urbanístico da capital do país, São Tomé

“Falo concretamente do cacau e de outros produtos derivados do próprio cacau e que podem ser perfeitamente escoados. Neste momento, o chocolate de São Tomé e Príncipe já se encontra em Macau, já há pequenos importadores que trazem para cá o chocolate de São Tomé e Príncipe. Tem tido uma boa aceitação”, realça o representante do país africano. 

“Agora é preciso continuarmos a trabalhar para que esse volume de chocolate que vem para Macau possa aumentar e, quem sabe, atingir o Interior da China. Esse é que é o objectivo. Esse é que é o foco nesse momento: trazer mais”, remata.

O sector agrícola é responsável por uma fatia de 20 por cento do produto interno bruto de São Tomé e Príncipe, emprega 60 por cento da população activa e gera 80 por cento dos proveitos obtidos com as exportações, de acordo com dados da Agência Francesa de Desenvolvimento. Para além de cacau e de café, o arquipélago produz ainda pimenta de grande qualidade, baunilha, cocos e óleo de palma, produto que, em 2020, suplantou o cacau como principal produto de exportação do país em termos de volume, segundo dados oficiais.